Capítulo 2 2

Está no brilho impecável dos mocassins de couro cor de vinho. No jeito como a barra da calça cinza-chumbo, passada com uma perfeição afiada como lâmina, paira acima do tornozelo dele. Naquelas meias, pretas como a meia-noite.

E, quando ele fala, eu tenho certeza, porque a voz à qual aqueles tornozelos pertencem é como óleo de unção derramado sobre granito quebrado.

— Mne plevat’ — ele rosna, num ribombar áspero e gelado. — Ya khochu, chtoby ty nashel yego i ubil.

O banheiro está silencioso como um cemitério, mas tudo o que ouço é um rangido abafado e incompreensível do outro lado da ligação. O homem dos sapatos cor de vinho não deixa o amigo terminar antes de interrompê-lo.

— Preciso repetir em inglês pra mensagem ficar clara? “Tô pouco me fodendo. Quero que você encontre ele e mate.” Não me liga de volta até estar feito.

O bipe que vem em seguida encerra a chamada.

Quando as bordas da minha visão começam a arder e escurecer, percebo que não respiro desde que o homem entrou. Sinto o suor brotando nas têmporas e nas axilas. Mas eu só preciso aguentar mais um pouco, só mais um pouco, só mais um pouquinho de merda, porque se o homem simplesmente for embora, então eu posso...

Ah, não.

Eu vejo acontecer — rápido o bastante para entender, mas devagar demais para fazer qualquer coisa a respeito.

O sangue que vinha escorrendo pelos meus nós dos dedos forma um losango na ponta do meu dedo indicador. Se acumula. Incha. Se estica...

E então cai no piso xadrez com um plip minúsculo, suave, mas absolutamente inegável.

O silêncio vem em seguida.

Depois: devagar, devagarinho... aqueles sapatos cor de vinho se viram na minha direção.

— Quem quer que esteja aí dentro — rosna o diabo — abra a porta antes que eu a arrebente.

2

ARIEL

Eu nunca soube que a expressão “Quando uma porta se fecha, outra se abre” podia acontecer de forma tão literal. Sempre achei que esse fosse o tipo de coisa que um redator preguiçoso coloca em biscoito da sorte de comida chinesa.

Mas mal se passam dois minutos desde que a porta do banheiro se fecha sobre um capítulo da minha vida, e a porta da cabine se abre para começar outro.

Meu primeiro pensamento quando o vejo é: Caramba — acertei em cheio.

Porque o homem parado, emoldurado na entrada da cabine, é exatamente como eu o imaginei, nos mínimos detalhes.

Meu olhar começa nos pés dele, que já consumiram uma quantidade exaustiva da minha energia mental em análise. Ele sobe pela prega impecável da calça do terno cinza-acinzentado, passa pelas coxas fortes e a cintura magra, roça o modo como a camisa branca gruda em seis gominhos muito claramente definidos, até chegar ao V estreito da gola sem gravata, que revela uma salpicada de pelos escuros no peito e o vislumbre mais breve possível de uma tatuagem gravada na pele bronzeada logo abaixo da garganta.

Dali, continua. Sorve o penhasco brusco e brutal do queixo dele. A linha do maxilar em declive, sombreada pelo começo da barba. Um nariz orgulhoso e saliente, maçãs do rosto pelas quais Tom Welling mataria, e olhos tão azuis que eu quase sinto a queimadura fria do olhar dele. O cabelo é escuro, cacheado e despenteado onde cai sobre a testa.

Meu segundo pensamento é: A CW pisou na bola. Deviam ter escalado ele.

Mesmo agora, depois de ouvi-lo ordenar casualmente que algum subordinado cometa um assassinato, não consigo evitar sentir aquela risadinha de garota borbulhando dentro de mim. Igualzinha à que a minha versão de doze anos sentiu quando o Superman saiu daquele milharal pelado como veio ao mundo, tipo: Nossa, como você é bonito!

Mas eu não diria isso em voz alta nem morta.

Porque o Superman aqui parece pronto para cometer mais um assassinato.

As mãos dele se flexionam ao lado do corpo. Vejo mais tatuagens marcadas nos nós dos dedos — letras em cirílico —, e na hora isso encaixa na minha cabeça: era russo o que ele estava falando ao telefone um instante atrás. Cicatrizes finas e brancas cortam o caminho entre a tinta. Aquelas mãos parecem extremamente capazes. Eu gostaria muito de não descobrir o quanto.

— Eu até diria “Tira uma foto; dura mais”, mas você já ficou me encarando tempo o suficiente pra eu ter quase certeza de que já decorou tudo — ele cospe. A voz combina com os olhos: fria como um túmulo, áspera, implacável.

Eu começo a soltar um “Desculpa”, aí paro e me repreendo pela entonação afrescalhada de final de frase e por sequer ter a coragem de pedir desculpas. Aí lembro que, de fato, estou no banheiro errado e começo a dizer de novo. Aí paro e me repreendo por gaguejar como uma idiota. Aí eu—

— Pelo amor de Deus, desembucha — o homem rosna.

Eu franzo a testa e estreito os olhos.

— Você é meio babaca.

Tem que reconhecer quando merece: isso com certeza não é um pedido de desculpas manso, de capacho. Mas é inteligente dizer isso?

Provavelmente não.

Para minha surpresa, o homem pisca, sereno. Ele não sorri — eu me preocuparia com a integridade estrutural da carranca dele se ele sequer tentasse —, mas uma parcela imperceptível da fúria glacial se dissipa.

— “Meio” nem começa a cobrir.

— Um babaca honesto, pelo menos — eu concedo.

Ele balança a cabeça.

— Definitivamente não. — Então me avalia com os olhos e estende uma mão. — Vai ficar agachada nesse vaso feito uma gárgula a conversa inteira, ou quer ajuda pra descer?

Encaro a mão que ele oferece. De perto, é ainda mais intimidadora. Eu sei que algumas garotas piram em mãos de homens, e eu entendo, e realmente é uma mão muito bonita, esteticamente falando.

Mas tem alguma coisa nas cicatrizes, combinadas com a ameaça de assassinato fácil, leve e linda que ele fez num passado bem recente, que me deixa em dúvida.

Com cuidado, usando o corrimão preso à parede da cabine em vez da mão masculina presa ao diabo de terno cinza, eu me abaixo do meu poleiro no vaso e assumo uma postura quase normal de ser humano.

— Tá tudo bem; eu consi—

Eu desabo na mesma hora.

São meus joelhos que me traem. Trinta e três não parece tão velho assim no grande esquema das coisas, mas eu sou nova-iorquina de nascença e criação, então já rodei muito nessas juntas, subindo avenidas e descendo ruas desde que eu tinha idade pra pôr um pé na frente do outro. Aparentemente, cinco minutos segurando um agachamento de força nos banheiros do Met é pedir demais da cartilagem que ainda resta.

Estou voando rumo a um encontro caliente com o chão quando o homem se mexe. Ele é rápido e ao mesmo tempo lânguido, e eu quase juraria que o vejo revirar os olhos ao intervir.

Então aquela mesma mão que eu recusei um instante atrás laça a minha cintura e me impede de estourar a cabeça com o peso do meu próprio orgulho. Sem esforço, sem desalinha sequer um fio de cabelo, ele me puxa de volta aos pés e me firma ali.

A mão, porém, fica colada no meu quadril.

— Você é meio idiota — ele diz, como quem constata um fato.

Ele está brincando — eu acho que está brincando, pelo menos, porque está usando minhas próprias palavras pra me zoar e aqueles olhos dele estão brilhando de um jeito travesso —, mas a qualidade de geleiras trituradas em betoneira da voz dele não muda lá muita coisa.

Entrando na onda, eu respondo:

— “Meio” nem começa a cobrir. — Lanço um olhar para a mão dele, enorme e aberta sobre minha cintura. — Mas obrigada por me salvar.

Ele faz que sim uma vez, seco, e então puxa a mão de volta. O calor e a pressão dela ficam por muito tempo depois que desaparecem.

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