Capítulo 4 4
Dou um tapa no peito dele com a minha mão boa. “Idiota!”, eu exclamo.
“Agora é a minha vez de perguntar se isso era para ser um elogio.”
Não sei se quero rir, gritar, tirar a roupa ou fugir. É que tem alguma coisa nesse homem que é suave demais para ser real. Ele solta tiradas, mas sem parecer forçado; salva, mas não é nenhum cavaleiro de armadura branca; enfia a mão em armários vazios e tira de lá kits de primeiros socorros que, logicamente, simplesmente não deveriam estar ali.
E, no entanto, estão.
Abro e fecho a boca enquanto tento, e falho, processar o enigma de terno cinza que neste momento está despejando água oxigenada sobre o meu corte. Para uma profissional das palavras, estou realmente ficando sem coisas perspicazes para dizer aqui.
Ele não parece se importar com a minha imitação de peixinho dourado. Só enrola gaze em volta do meu dedo, seguida de um curativo. O toque dele é surpreendentemente delicado.
“Você ainda não me disse quem é”, consigo dizer, por fim.
“Não”, ele concorda, com o fantasma de um sorriso brincando nos cantos da boca. “Não disse.”
“Eu vou ter que implorar?”
“Eu não me importaria.”
“Mas funcionaria?”
“Só tem um jeito de descobrir.”
Os olhos dele se enrugam nos cantos, o único sinal de que talvez esteja sorrindo. Aquela boca continua sendo um traço cruel cor de bourbon, aninhado na floresta de barba escura ao redor.
“Essa pose toda de estranho misterioso costuma funcionar com você?”, pergunto, tentando soar sardônica, mas chegando a algum lugar bem mais próximo de ofegante e tonta.
“Não saberia dizer.” Os olhos dele encontram os meus, e lá está de novo aquele brilho perigoso. “Nunca tentei isso antes.”
“Mentiroso.”
“Com toda certeza.” Ele me encurrala ainda mais, sem soltar a minha mão. Os quadris dele roçam nos meus no exato momento em que a parte baixa das minhas costas encosta na pia atrás de mim. “Mas isso você já sabia.”
Eu deveria me afastar. Deveria mesmo, muito mesmo. Tudo nesse homem é um alerta vermelho. Carisma é um alerta vermelho. Inteligência é um alerta vermelho. Ser absurdamente bonito desse jeito é praticamente um mastro inteiro de alertas vermelhos.
Mas passei a vida inteira fugindo de homens perigosos, e isso começa a ser exaustivo depois de um tempo.
Talvez seja por isso que eu não me movo quando ele ergue a mão livre e coloca uma mecha solta do meu cabelo atrás da minha orelha. Ou talvez seja só porque a luz do banheiro está batendo nos olhos dele de um jeito que faz com que pareçam gelo ártico à meia-noite.
“Sua amiga fez um belo trabalho com essas tranças”, ele murmura, deixando os dedos deslizarem por uma delas. “Uma pena essa aqui estar se soltando.”
Pisco. “Como foi que—?”
“Seu vestido está preso atrás com alfinetes de segurança, o que significa que não serve em você, o que sugere que pegou emprestado de alguém. As tranças são complexas demais para você ter feito sozinha e, na parte de trás, estão realmente uniformes, e tenho quase certeza de que você não tem olhos na nuca. Então arrisquei um palpite bem fundamentado.”
“Eu… Você… Está se exibindo?”
“Talvez.” A mão dele pousa na minha nuca. Consigo sentir meu próprio pulso martelando contra a palma dele. “Está funcionando?”
Minha garganta está seca. “Depende do que você está tentando conseguir.”
O canto da boca dele se curva para cima, e eu percebo que nunca estive tão ciente dos lábios de outra pessoa em toda a minha vida. “Achei que isso estivesse óbvio”, ele diz.
Eu rio, meio delirante. “Não existe uma única coisa, uma única e solitária coisa em você, que seja óbvia.”
“Não? Então deixe-me ser claro.”
O rosto dele está tão perto do meu. É tudo o que eu consigo ver, tudo com o que consigo me importar. Estou me embriagando com o cheiro dele enquanto seus lábios se aproximam cada vez mais.
E mais, e mais, até que—
A porta do banheiro range.
Nós nos afastamos de um salto, como adolescentes pegos atrás da arquibancada. O rosto do meu estranho misterioso se transforma na mesma hora, aquela quase suavidade endurecendo em mármore quando ele se vira para a porta.
Ele não precisa dizer uma palavra. O recém-chegado bate o olho em nós — eu com a mão enfaixada e as bochechas coradas, ele com a carranca de tempestade e aquela aura geral de não mexe comigo, porra — e recua de volta para fora.
Quando a porta se fecha com um clique, nós dois expiramos. Mas a tensão não vai embora. Alguma coisa fica suspensa no ar entre nós, elétrica, inacabada e perigosa pra cacete.
— Você devia ir — ele avisa, embora pareça que dizer isso lhe custa alguma coisa.
Eu engulo em seco.
— Devia mesmo?
— Sim. — Ele passa a mão pelo cabelo. — Porque, se você não sair agora, eu vou te beijar. E, quando eu começar, não vou querer parar.
Ele tem razão. Eu devia ir. Dou meio passo em direção à porta, depois paro e me viro de novo.
— E se eu não quiser que você pare?
O rosto dele está metade na sombra. Um poço escuro onde o olho esquerdo deveria estar.
— Você devia tomar muito, muito cuidado antes de dizer esse tipo de coisa para um homem como eu.
Eu olho para ele. A cabeça quase encosta no teto e os ombros parecem ir de uma parede à outra. Acertei em cheio da primeira vez: ele é uma má ideia feita realidade. Mamãe teria sussurrado um conto de fadas assustador sobre ele. Ele é uma besta, um golem, um príncipe sombrio que amaldiçoa tudo em que toca.
Olho para a porta. Ela está ali. Eu poderia pegar a maçaneta — evitando cortar a mão nela desta vez, de preferência — e girá-la. Poderia abrir. Poderia ir embora.
Mas, seja masoquismo, imprudência ou pura e velha estupidez, alguma coisa me obriga a fazer o contrário. A me virar de novo. A abrir a boca e dizer a esse demônio...
— Senão o quê?
3
ARIEL
Em dois passos, ele me prensa contra a parede. Uma mão se enrosca no meu cabelo, arruinando o que restou do trabalho da Gina. A outra agarra minha cintura e amassa meu vestido numa bagunça de seda emprestada. A boca dele colide com a minha como ondas de tempestade se arrebentando contra um dique.
Eu já fui beijada antes, mas não assim. Nunca assim. Ele me beija como se eu fosse ar e ele estivesse se afogando. E Deus me ajude, porque é exatamente assim que eu beijo de volta.
Quando eu suspiro ofegante, ele enfia a língua entre os meus dentes e toma minha boca para si. Eu gemo e deixo.
— Última chance de fugir, ptichka — ele rosna.
Em resposta, eu o puxo de volta para mim. A borda da pia crava nas minhas costas quando ele me ergue até sentar nela. Meu vestido sobe pelas minhas coxas e as mãos dele vão atrás, deixando rastros de fogo na minha pele. Quando ele interrompe o beijo para traçar um caminho pelo meu pescoço com os lábios, preciso morder os lábios para conter outro gemido.
— Alguém pode entrar — consigo sussurrar, mesmo enquanto meus dedos trabalham nos botões da camisa dele.
Ele estica o braço por cima de mim para trancar a porta, e o movimento o pressiona ainda mais contra mim.
— Deixa que eu me preocupo com isso.
Então ele está me beijando de novo, e fica fácil fazer exatamente isso: deixá-lo cuidar da preocupação. Tem dias em que parece que tudo o que eu faço é me preocupar. Então, ele me pegar no colo e me mover para cá e para lá e tirar todo esse peso das minhas costas? Eu me sinto leve. Eu me sinto sem peso.
Sinto como se pudesse voar, porra.
O tempo derrete e se distorce enquanto ele me puxa para junto de si e vai mordiscando seu caminho pela curva da minha garganta. Deixo a cabeça cair para trás enquanto encaro o teto com os olhos semicerrados, as pontas dos dedos cravadas nos ombros largos dele como se minha vida dependesse disso.
Ele continua murmurando coisas contra a minha pele — “ptichka” e “eu não devia” e “puta que pariu, você é gostosa pra caralho”. Cada uma delas faz meus dedos dos pés se curvarem.
Quando a ponta do dedo dele se aventura para cima, encontrando a borda da minha calcinha, eu puxo o ar num arquejo agudo.
— Isso é uma...
— ...má ideia — ele concorda. — Me diz uma coisa que eu ainda não sei, porra.
