Capítulo 1

Ponto de vista de Rowan

Beau e eu estamos juntos há três anos. Eu paguei o fretamento do iate inteiro do meu próprio bolso, e ele aparece trazendo a melhor amiga de infância dele, Sadie, a tiracolo, e depois sai contando para todo mundo que foi ideia dele, o grande gesto dele.

Lá na água, Sadie avista um polvinho boiando perto da superfície e decide que tem que ficar com ele. A coisa pulsa com anéis azuis brilhantes.

Eu sou mergulhadora especialista certificada. Sei exatamente o que é no segundo em que vejo. Tento impedir.

Ela cai no choro e diz ao Beau que eu estou perseguindo ela.

Então Beau, sempre o herói quando o assunto é a Sadie, pula ele mesmo e pesca o bicho.

Sadie brinca com ele. Ele morde ela. Ela está no convés antes mesmo de entender o que a atingiu.

Beau me agarra, gritando comigo para eu sugar o veneno. Eu me recuso. Ele me chama de vadia fria e sem coração e, no caos, me empurra para fora, no mar infestado de tubarões.

Eu morro lá. Não sobra nada de mim.

Eles usam meu celular para forjar uma carta de suicídio. Depressão, dizem. Pulou por conta própria. Aí tomam minha empresa, meus bens, tudo.

Eles postam na internet insinuando que eu tentei empurrar a Sadie e escorreguei.

Meus pais, destruídos pelo assédio online e pela dor de me perder, os dois morrem de ataque cardíaco.

Então eu abro os olhos. E eu voltei. A manhã da viagem.


— Rowan, meu Deus, olha aquele polvinho... ele tem uns anéis azuis e eles estão literalmente brilhando! Beau, você pode pegar uma rede pra mim? Eu quero pegar ele!

Aquela voz me atravessa em cheio, doce e irritante ao mesmo tempo. Um lembrete de que isso é real. Eu realmente voltei.

No clarão do sol, Sadie se debruça sobre a amurada do iate, apontando animada para a água. Atrás dela, Beau entrega a ela uma rede de cabo comprido, sorrindo como se ela tivesse feito o dia dele.

Exatamente igual da última vez.

— Rowan? Alô? A Sadie quer o polvo. Você tem aquelas luvas à prova de corte, não tem? Vai ajudar ela a pegar.

Beau já está com aquele tom impaciente na voz.

Eu encaro o rosto dele. O rosto que eu passei uma vida inteira odiando. Enterro as unhas na palma da mão e fico assim até a dor me puxar de volta para o presente.

Um segundo. É só o que basta para passar da garota que engolia cada insulto só para manter a paz, para alguém que rastejou de volta do inferno sem ter mais nada a perder.

— É um polvo-de-anéis-azuis. — Dou um passo para trás, a voz lisa. — Tetrodotoxina. Mil e duzentas vezes mais tóxica do que cianeto. Um polvo tem veneno suficiente para matar vinte e seis adultos em minutos. Não existe antídoto. Nenhum.

A mão de Sadie se aperta em torno da rede. Algo pisca por trás dos olhos dela por um segundo. Depois some — volta àquela mesma mistura de desprezo e teatrinho de garotinha ferida que ela sempre faz.

— Rowan, se você não quer ajudar, é só dizer. Por que você está inventando coisa pra me assustar? — Ela faz bico e se vira para Beau. — Tá vendo o que ela faz? Toda vez que eu quero alguma coisa, ela vem com isso. É só um polvinho. Eu já vi um monte no aquário lá de casa.

O rosto de Beau se contrai.

— Rowan, fala sério. A Sadie só está tentando se divertir. Se você não quer ajudar, tudo bem, mas para de tentar botar medo nela.

Isso quase me faz rir.

Larga essa necessidade de salvar gente que não quer ser salva. Se eles estão tão decididos a caminhar para o desastre, o problema é deles.

— Tá. Vai em frente. — Eu pego o celular e aperto para gravar, apontando a câmera direto para os dois. — Eu já disse o que é. Você ainda quer encostar, é uma escolha sua. Eu só quero isso em vídeo para, quando der alguma merda, a guarda costeira australiana não vir apontar o dedo pra mim.

— Qual é o seu problema? — O rosto de Beau endurece.

Sadie fecha a cara e enfia a rede na água para provar um ponto.

— Só observa. Beau, quando eu trouxer pra cá, a gente vai cozinhar ele.

Eu vejo ela ficar meio corpo para fora da amurada, arrastando a rede às cegas lá embaixo.

O polvo solta tinta e desaparece na profundeza.

— Ele fugiu! — Sadie bate a rede no convés e se volta contra mim, a expressão pura fúria. — Culpa sua. Se você não estivesse aí gravando tudo que nem uma esquisita, eu teria pegado. Você estraga tudo. Literalmente tudo.

Eu guardo o celular no bolso sem nem olhar para ela e vou em direção ao leme.

— Você perdeu. Volta pra dentro. A água está ficando agitada e eu vou acelerar.

— Rowan, não vira as costas pra mim. — Beau agarra meu pulso. Quando eu me viro, o maxilar dele está travado, alguma coisa feia fervendo logo abaixo da superfície. — O que está acontecendo com você hoje? Sadie é minha convidada. Você deve um pedido de desculpas a ela. Agora.

Eu olho para a mão dele enrolada no meu pulso.

Aquela mão. A mesma que me empurrou na água sem pensar duas vezes.

Eu me solto. Quando ergo os olhos para ele, minha expressão não entrega nada.

— Você quer que eu peça desculpas?

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