Capítulo 3
Ponto de vista de Rowan
Ao cair da noite, o iate atraca em Carr Reef por ordem minha.
É uma ilha meio desenvolvida, um porto pequeno, alguns hostels de mergulho bem básicos espalhados pela orla. Nada de especial.
No segundo em que baixamos a âncora, mando a tripulação levar as malas de Beau e Sadie direto para o píer.
— Saiam do meu barco. É aqui que a viagem de vocês termina. — Fico no convés e olho para baixo, para eles.
Beau encara as malas empilhadas no píer e, finalmente, entende. Não é blefe. A expressão dele passa por meia dúzia de coisas antes que ele force algo parecido com um sorriso. — Rowan, fala sério. A gente não conhece ninguém aqui. Pra onde a gente vai? Eu sei que eu passei do ponto hoje, tá? Desculpa. E a Sadie também não quis dizer nada daquilo; ela é jovem, não leva pro lado pessoal.
— Tarde demais. — Eu o encaro sem expressão nenhuma. — Você pode sair por conta própria ou eu mando a segurança tirar você daqui. Escolhe um.
— Você tá falando sério agora? — A encenação de bonzinho some rápido. — Você não pode simplesmente largar a gente numa ilha aleatória. Se acontecer alguma coisa com a gente, a culpa é sua!
— Vocês são adultos. Tem um hotel nessa ilha e uma balsa que sai daqui. Comprem as próprias passagens de volta pros Estados Unidos. — Viro para ir embora. — Diz mais uma palavra e eu chamo a polícia por assédio.
Sadie bate o pé no píer. — Beau, esquece ela. Chega de implorar. Quando a gente voltar, vou postar tudo. Todo mundo vai saber exatamente que tipo de pessoa ela é.
Eu me viro e entro de volta, sem olhar para trás.
Naquela noite, faço check-in no único hotel decente da ilha, tomo um banho longo e quente e durmo melhor do que eu dormia desde que voltei.
O peso de tudo o que aconteceu antes parece que finalmente começa a se erguer dos meus ombros. Eu só precisava ficar longe daqueles dois, e minha vida voltaria pros trilhos.
Só que eu os subestimo. Eu nunca aprendo até onde eles estão dispostos a ir.
Na manhã seguinte, a ligação do comissário me arranca do sono.
— Rowan, temos um problema. O barco de apoio desapareceu. E tem mais uma coisa… — A voz dele soa como se ele mal estivesse se aguentando.
Meu estômago despenca. Visto qualquer roupa e corro para o píer.
A popa do iate está vazia. A lancha, com dois motores, uma lancha de cem mil dólares, simplesmente sumiu.
E não é só isso. Minha bolsa de equipamento de mergulho, o telefone via satélite, até o kit de primeiros socorros do armário da cabine principal — tudo desaparecido.
Colado na porta do armário, há um bilhete, escrito com batom:
“Rowan, já que você quer jogar assim, estamos indo por conta própria até o Recife do Diabo. Pegamos emprestado o barco e o equipamento. Espero que a ilha te dê tempo de pensar sobre como tratar as pessoas. — Beau & Sadie”
Eu fico encarando aquilo por um segundo. Aí começo a rir.
Eles mesmos entraram na armadilha. Eu nem precisei fazer nada.
Eu estava pronta para deixar isso pra lá. Cortar contato, seguir em frente, nunca mais pensar em nenhum dos dois. E eles foram lá e me entregaram isso de bandeja.
— Rowan, a gente deve ir atrás deles? — O comissário fica rondando, claramente em pânico.
— Ainda não. — Pego meu celular e ligo para a guarda costeira. — Preciso registrar um roubo. Alguém levou a minha lancha e uma quantidade significativa de equipamento, e neste momento está seguindo para uma zona de perigo não mapeada.
Depois que desligo, encontro Mack na ponta mais afastada do píer. Ele navega por essas águas há décadas, queimado de sol e carrancudo, com uma barba que já viu dias melhores.
— Mack, eu preciso contratar você. Duas pessoas pegaram meu barco e foram pro Recife do Diabo sem sonar, sem equipamento de verdade. Eu preciso ir atrás deles.
Só o nome faz alguma coisa com o rosto dele.
— Meu Deus. Eles enlouqueceram? — Ele balança a cabeça. — Aquele recife é um pesadelo. Pedra pra todo lado, correntes que viram um barco pequeno antes mesmo de você ver de onde veio. E isso antes de chegar nos tubarões-tigre que se reproduzem por lá, ou nas vespas-do-mar. Você entra sem um traje de proteção completo e uma jaula de tubarão, você não volta.
— Eu sei. — Olho para a água. — É exatamente por isso que eu quero ir ver com meus próprios olhos.
Roubo. Equipamento furtado. Invasão de uma área restrita. Agora existe um boletim de ocorrência com os nomes deles.
Dessa vez, eu vou garantir que eles apodreçam por isso.
Supondo, é claro, que eles voltem vivos.
Esse pensamento coloca um sorriso no meu rosto que eu não consigo bem desfazer.
