Capítulo 5

Antes mesmo de eu conseguir gritar, ele já estava em cima de mim. Um borrão de movimento e, em seguida, metal frio pressionou a minha garganta, afiado e impiedoso. Minhas costas bateram na parede com força, e o impacto tremeu dentro dos meus ossos.

Era isso. Eu ia morrer ali, num beco imundo. O único pensamento que atravessou a minha mente foi a Jinx, pobre Jinx. Quem ia dar comida pra ela agora?

Fechei os olhos, me preparando para o golpe final… mas nada veio.

Quando abri, meu fôlego travou. Outro homem estava à minha frente, as costas largas e inabaláveis, a pele levemente luminosa. O cabelo preto, na altura dos ombros, caía como uma cortina de seda e, com uma das mãos, ele segurava meu agressor pela garganta, erguendo-o como se não pesasse nada.

— Você ousa tocar na minha companheira? — a voz dele trovejou pelo beco, cada palavra vibrando pelos meus sentidos, deixando minha pele formigar. — Você não devia ter tocado no que é meu.

Companheira? Pera. Ele acabou de dizer companheira?

— Meu Rei... eu não sabia... ela é a sua… sua companheira! — o agressor gaguejou, a voz quebrando de pavor.

O próprio ar pareceu se deformar de medo, só que, dessa vez, não era o meu. O homem que o segurava irradiava um poder tão imenso que sufocava. A aura dele ardia ao redor como uma tempestade viva, cores se chocando e se partindo — lavanda, rosa, prata — tudo mudando como um caleidoscópio de luz pastel. Era de tirar o fôlego, terrível, avassalador.

E alguma coisa dentro de mim respondeu a isso. Meu corpo tremeu; cada nervo se esticou na direção dele, como se ele fosse um ímã e eu, o metal indefeso atraído.

— Por isso, você vai morrer. — A voz dele era gelo e fogo ao mesmo tempo. Uma lâmina negra cintilou, surgindo do nada na mão dele, o fio bebendo a luz. Ele a ergueu bem alto, pronto para cravar.

Mas outra voz cortou o ar carregado.

— Axe, espera.

Eu me sobressaltei. Um homem que eu não tinha notado saiu das sombras, calmo, mas firme.

— Precisamos saber por que ele tentou matá-la. Leva ele primeiro para as masmorras. Se você matar ele agora, a gente nunca vai ter respostas.

O homem chamado Axe ficou imóvel por um longo instante, tenso. Então, com um rosnado que fez meu sangue gelar, ele baixou a lâmina.

— Tudo bem. Vamos arrancar a verdade da alma dele primeiro. — As palavras dele eram uma promessa de tormento.

— Eu vou levar ele de volta pro castelo — disse o outro homem, segurando o braço do prisioneiro. — Cuida da sua companheira. Ela parece que vai desmaiar.

E então Axe se virou para mim.

Olhos lavanda, brilhando de leve, impossivelmente lindos, prenderam os meus. A força daquele olhar me atingiu como um golpe. O rosto dele… meu Deus, o rosto dele parecia esculpido por mãos divinas, tão absurdamente perfeito que doía olhar. Meus joelhos cederam, a força drenando do meu corpo.

Antes que eu atingisse o chão, ele já estava ali, me recolhendo nos braços como se eu não pesasse nada. O calor dele penetrou minha pele, e o cheiro me envolveu como fumaça de cedro e chuva.

“Minhas desculpas por ter te assustado”, ele murmurou no meu ouvido, com uma voz grave, um ronco baixo que fez arrepios correrem pelos meus braços.

Eu tremi. Eu não fazia ideia do que sentir — apavorada, eufórica, confusa além de qualquer lógica. “Você deve ter perguntas”, ele acrescentou com gentileza.

“Umas mil”, eu sussurrei, tentando fazer graça, apesar de a minha voz tremer. “Mas não tenho certeza se eu quero fazer isso no meio de um beco, à noite.”

Os lábios dele se curvaram de leve. “Me leve até a sua casa. Eu vou garantir o seu conforto.”

Tonta demais para discutir, eu levantei uma mão fraca e apontei pelo beco. Ele me carregou com facilidade, cada passo firme e elegante.

Talvez isso fosse um sonho. Talvez eu tivesse enlouquecido de vez. Porque nada daquilo fazia sentido.

Na porta do meu apartamento, eu me remexi nos braços dele até que, finalmente, ele me deixou escorregar pelo corpo, e cada linha dura dele roçou na minha enquanto eu descia. Minha respiração travou de novo. Eu me virei depressa, desviando o rosto, e fiquei atrapalhada com as chaves.

Eu devia deixar ele entrar? Eu era mesmo tão inconsequente? Ele tinha me salvado, mas também tinha me reivindicado — na frente de todo mundo — como sendo dele.

Eu abri a porta. Ele estava tão perto atrás de mim que eu conseguia sentir o calor irradiando do corpo dele.

“Jinx?” Minha voz falhou de alívio quando minha gatinha preta disparou na minha direção, com o rabo erguido. Ela derrapou e parou de repente, assustada com a visão do nosso convidado.

Mas então, para meu espanto, ela ronronou e se enroscou na perna dele como se estivesse cumprimentando um velho amigo.

Meu queixo quase caiu.

Ele se agachou, passando os dedos atrás da orelha dela com uma delicadeza inesperada. Jinx praticamente derreteu sob o toque dele.

“Essa é, ahn... a minha gata. Jinx.” As palavras saíram atropeladas, sem jeito, tentando preencher o silêncio. Ele, é claro, parecia perfeitamente composto.

Eu corri para a sala. “A gente pode conversar aqui.” Eu me ocupei abrindo espaço no sofá e depois me joguei numa das pontas, deixando o máximo de distância possível. Apontei para a outra ponta. “Você pode sentar ali.”

Ele se acomodou na almofada com uma graça régia, a presença luminosa dele fazendo a sala parecer pequena de repente.

Por fim, ele falou. A voz estava mais suave agora, mas não menos poderosa. “Qual é o seu nome? Eu deveria ter perguntado antes.”

“Velvet”, eu disse, ainda agarrada à Jinx para me manter com os pés no chão.

“Velvet.” Ele pronunciou como se fosse sagrado, como se a própria palavra fosse um juramento. Então o olhar dele se prendeu ao meu. “Eu sou o Rei Axe do reino das Fadas. E você é a outra metade da minha alma, minha companheira destinada.”

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