Capítulo 1 LARA

Se alguém me perguntasse quando minha vida deixou de ser feliz, eu saberia responder sem precisar pensar.

Foi aos dez anos.

Eu ainda consigo fechar os olhos e lembrar da minha mãe penteando meu cabelo diante do espelho, enquanto meu pai reclamava, fingindo estar bravo, porque eu estava demorando demais para me arrumar.

— Essa menina vai chegar atrasada à escola outra vez — ele dizia.

Minha mãe ria.

— Deixe a nossa princesa. Hoje é o aniversário dela.

Eu tinha acabado de completar dez anos.

Naquela manhã, ganhei um bolo pequeno, um vestido novo e um abraço dos dois que valia mais do que qualquer presente caro.

Eu era uma criança feliz.

Não tínhamos muito dinheiro, mas nunca faltou amor.

Meu pai trabalhava bastante. Minha mãe fazia de tudo para manter nossa casa organizada. À noite, os três jantávamos juntos, e eu contava sobre a escola, minhas amigas, as provas e todos os sonhos que pareciam enormes demais para uma menina.

Eu queria estudar.

Queria conhecer outros lugares.

Queria ter uma casa bonita quando crescesse.

E queria, acima de tudo, ter uma família como a minha.

Mas naquela noite, meus pais não voltaram para casa.

Um acidente.

Foi assim que me explicaram.

Duas palavras que mudaram tudo.

Eu me lembro de ter ficado esperando meu pai abrir a porta. Lembro da minha mãe ter prometido que voltaria cedo. Lembro de perguntar várias vezes por que eles estavam demorando.

Depois, lembro dos adultos chorando.

Lembro de uma mulher me abraçando enquanto eu gritava que queria minha mãe.

E lembro de alguém dizendo que eu precisava ser forte.

Eu odiava essa palavra.

Forte.

Eu tinha apenas dez anos.

Não queria ser forte.

Queria meus pais.

Depois do funeral, minha vida foi colocada dentro de duas malas.

Foi assim que cheguei à casa dos meus tios.

No começo, eu ainda acreditava que seria temporário. Achava que eles cuidariam de mim porque eram minha família.

Não demorou para descobrir que família nem sempre significa proteção.

Minha tia dizia que eu era um peso.

Meu tio dizia que meus pais tinham deixado apenas dívidas e problemas.

Eu aprendi a não responder.

Aprendi a comer rápido.

Aprendi a esconder o choro.

Aprendi a pedir desculpas mesmo quando não tinha feito nada.

Os anos passaram e aquela casa se tornou uma prisão.

A menina que costumava rir desapareceu aos poucos.

Aos quinze anos, eu já fazia praticamente todo o serviço doméstico.

Aos dezoito, trabalhava durante o dia e voltava para casa apenas para continuar trabalhando.

Eu nunca tive namorado.

Nunca saí para festas.

Nunca vivi a juventude que outras garotas da minha idade contavam nas redes sociais.

Eu ainda era virgem.

Não porque tivesse feito uma escolha romântica de esperar pelo homem perfeito, como algumas pessoas poderiam imaginar.

Eu simplesmente nunca tive oportunidade de conhecer alguém.

Minha vida era pequena demais.

Escola.

Trabalho.

Casa.

Silêncio.

Até aquela tarde.

Eu estava lavando louça quando ouvi meu tio gritando na sala.

— Eu já disse que não tenho esse dinheiro!

Parei imediatamente.

A voz dele estava diferente.

Assustada.

Nunca tinha ouvido meu tio falar daquele jeito.

Desliguei a torneira e fiquei parada, tentando escutar.

— O prazo acabou — respondeu uma voz masculina.

Grave.

Fria.

Desconhecida.

Meu coração começou a bater mais rápido.

— Eu preciso de mais alguns dias.

— Você teve meses.

— Por favor...

Houve silêncio.

Depois ouvi uma cadeira sendo arrastada.

— Existe outra maneira de resolver isso.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Minha tia apareceu no corredor e me viu.

Seu rosto mudou.

— Lara.

— O que está acontecendo?

Ela não respondeu.

Meu tio surgiu atrás dela.

Ele me olhou de cima a baixo.

Naquele instante, alguma coisa dentro de mim avisou que eu estava em perigo.

— Arrume suas coisas.

— Por quê?

— Não faça perguntas.

— Eu não fiz nada.

— Eu sei.

Ele falou aquilo de uma maneira tão fria que senti um nó na garganta.

— Então por que preciso arrumar minhas coisas?

Meu tio desviou o olhar.

— Você vai embora.

Eu ri nervosamente.

— Para onde?

Ninguém respondeu.

Então o homem que estava na sala apareceu diante de mim.

Eu nunca tinha visto alguém como ele.

Era jovem, talvez trinta anos, mas carregava uma presença que fazia o ambiente parecer menor. Vestia preto. Tinha o olhar sério, o rosto marcado por uma expressão impossível de decifrar e dois homens atrás dele.

Ele me encarou.

Depois olhou para meu tio.

— Essa é ela?

Meu sangue gelou.

— É — meu tio respondeu.

— Vinte anos?

— Sim.

O homem voltou a olhar para mim.

— Qual é o nome?

Minha voz quase não saiu.

— Lara.

Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Você sabe por que está aqui?

Balancei a cabeça.

— Não.

Ele olhou novamente para meu tio.

— Explique.

Meu tio respirou fundo.

— Eu devo dinheiro.

— Muito dinheiro — corrigiu o homem.

Meu estômago embrulhou.

— E o que eu tenho a ver com isso?

Minha tia foi quem respondeu.

— Você vai trabalhar para ele.

Olhei para o homem.

— Trabalhar?

— Sim.

— Onde?

Ele não respondeu imediatamente.

Meu tio se aproximou.

— Você não tem escolha.

Aquelas palavras me atingiram com força.

Não tenho escolha.

Era a mesma frase que ouvi durante anos.

Só que, naquela noite, descobri que minha própria família havia decidido meu destino.

— Vocês estão me entregando para ele?

Minha tia cruzou os braços.

— Pare de dramatizar.

Eu senti meus olhos arderem.

— Eu sou sobrinha de vocês.

— E nós fizemos muito por você.

Eu quase ri.

Muito?

Eu tinha passado dez anos sendo tratada como empregada dentro daquela casa.

Mas não disse nada.

O homem de preto permaneceu calado, observando tudo.

Então ele falou:

— Vamos.

— Para onde?

— Para minha casa.

Meu coração disparou.

— Eu não quero.

Ele me encarou.

— Não estou perguntando.

Eu deveria ter sentido medo dele.

E senti.

Mas naquele momento, o que mais doía não era ir embora com um desconhecido.

Era perceber que ninguém ali se importava em me deixar partir.

Fui para o quarto.

Coloquei minhas poucas roupas dentro de uma mala velha.

Antes de sair, olhei para o pequeno porta-retrato escondido no fundo da gaveta.

Era uma fotografia dos meus pais.

Passei o dedo sobre o rosto da minha mãe.

— Eu sinto muito — sussurrei.

Não sabia exatamente pelo quê.

Talvez por estar indo embora.

Talvez por não ter conseguido continuar sendo a menina que eles criaram.

Talvez porque, naquele momento, eu estivesse com medo de nunca mais encontrar um lugar onde pudesse me sentir segura.

Peguei a fotografia e guardei no bolso.

Quando voltei para a sala, o homem ainda estava esperando.

— Vamos, Lara.

Segurei minha mala com força.

— O que vai acontecer comigo?

Ele me encarou por alguns segundos.

— Você vai descobrir.

Saí daquela casa sem olhar para trás.

Não porque não amava meus pais.

Mas porque não havia mais nada ali que pudesse chamar de lar.

O carro era enorme e silencioso.

Sentei no banco traseiro, mantendo minha bolsa junto ao peito.

O homem entrou no banco da frente.

— Matteo — disse simplesmente.

Demorei alguns segundos para entender.

— Seu nome?

Ele assentiu.

— Dom Matteo.

Eu engoli em seco.

Dom.

Eu já tinha ouvido aquele título em conversas escondidas, notícias e histórias que as pessoas contavam em voz baixa.

Máfia.

Poder.

Homens que ninguém enfrentava.

E agora eu estava dentro do carro de um deles.

Olhei pela janela enquanto as ruas passavam rapidamente.

Eu não sabia para onde estava indo.

Não sabia o que Matteo queria de mim.

Não sabia por que ele havia aceitado a dívida do meu tio.

E muito menos sabia que aquela viagem não estava me levando para o fim da minha história.

Estava me levando para o começo de uma vida que eu jamais teria coragem de imaginar.

Uma vida que começaria dentro da casa de um homem que eu ainda não conhecia.

Um homem que estava morrendo.

E que, sem saber, mudaria meu destino para sempre.

Mas naquela noite eu só sabia de uma coisa.

Eu estava com medo.

Muito medo.

E pela primeira vez desde que meus pais morreram, eu fiz uma promessa a mim mesma.

Eu sobreviveria.

Não importava o que viesse.

Eu sobreviveria.

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