Capítulo 2 CONT LARA
A viagem parecia não terminar, eu permanecia sentada no banco traseiro daquele carro, com as mãos apertadas sobre a alça da minha bolsa e os olhos presos na janela. As luzes da cidade passavam depressa, transformando-se em pequenos pontos luminosos enquanto o carro seguia por ruas que eu não conhecia.
Eu não fazia ideia de onde Matteo estava me levando.
Também não sabia o que aconteceria quando chegássemos.
A única coisa que eu tinha certeza era que minha vida havia mudado.
Definitivamente.
Eu havia saído da casa dos meus tios sem saber se algum dia voltaria.
Talvez fosse melhor assim.
Mesmo que doesse admitir.
Depois de tantos anos, eu deveria estar triste por deixar aquela casa. Afinal, era o único lugar que eu conhecia desde a morte dos meus pais.
Mas não estava.
Sentia medo.
Sentia insegurança.
Sentia saudade dos meus pais.
Mas não sentia saudade dos meus tios.
Olhei novamente para a fotografia escondida dentro da minha bolsa.
Minha mãe sorria.
Meu pai estava ao lado dela.
Eu sorri sem perceber.
— Ainda pensa neles?
A voz de Matteo me fez levantar os olhos.
Ele estava olhando pelo retrovisor.
— Sim.
— Seus pais?
Assenti.
— Morreram quando eu tinha dez anos.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Acidente?
— Sim.
Não queria falar sobre aquilo com um desconhecido.
Principalmente com um homem que acabara de me tirar da casa onde vivi por dez anos.
Ele pareceu entender.
Voltou a olhar para frente.
— Você sabe quem eu sou?
Engoli em seco.
— Sei que é um mafioso.
A mandíbula dele ficou rígida.
— Quem contou?
— Ninguém precisou contar. Seu jeito de falar, os homens que estavam na casa do meu tio...
Ele soltou uma pequena risada sem humor.
— Pelo menos você observa.
Fiquei em silêncio.
Depois de alguns minutos, não consegui segurar a pergunta.
— O que você quer de mim?
Matteo demorou para responder.
— Não fui eu quem decidiu isso.
Franzi a testa.
— Então quem decidiu?
— Seu tio.
— Ele me entregou.
— Sim.
Aquela confirmação doeu.
Mesmo sabendo que era verdade, ouvir aquilo de outra pessoa tornava tudo ainda mais real.
— E você aceitou.
— Aceitei a dívida.
Olhei para ele.
— E eu?
Matteo encontrou meu olhar pelo retrovisor.
— Você faz parte do acordo.
Meu peito apertou.
Era como se eu fosse um objeto.
Uma coisa que podia ser usada para pagar uma dívida.
Baixei os olhos.
— Entendi.
— Não precisa ter medo de mim.
Quase ri.
— O senhor é um mafioso.
— Isso não significa que vou machucar você.
A maneira como ele falou me fez olhar novamente para ele.
Não havia carinho em sua voz.
Mas também não havia ameaça.
— Então o que vou fazer?
Ele ficou em silêncio.
— Você vai conhecer uma pessoa.
— Quem?
— Meu padrinho.
— Ele também é mafioso?
Matteo suspirou.
— Artur é empresário.
Fiquei confusa.
— Então por que estou indo para a casa dele?
— Porque foi por causa dele que aceitei trazer você.
Aquilo não fazia sentido.
Mas antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, o carro entrou por um enorme portão.
Meu coração disparou.
A propriedade era gigantesca.
Havia jardins perfeitamente cuidados, árvores iluminadas, fontes e uma casa tão grande que parecia um hotel.
Eu nunca tinha visto algo parecido.
O carro parou diante da entrada.
Matteo desceu primeiro.
Um funcionário abriu minha porta.
Eu hesitei.
— Vamos — Matteo disse.
Saí do carro.
Segurei minha mala e observei tudo ao redor.
Era bonito.
Bonito demais.
Mas eu não conseguia relaxar.
Fui conduzida para dentro da casa.
O silêncio era quase absoluto.
Tudo parecia caro.
O chão brilhava.
Os móveis eram elegantes.
Havia quadros nas paredes e objetos que provavelmente custavam mais do que tudo que meus pais conseguiram juntar durante a vida inteira.
Eu me senti pequena.
Muito pequena.
— Onde ele está? — Matteo perguntou a uma mulher que apareceu no corredor.
— No escritório.
— Está acordado?
— Sim.
Matteo olhou para mim.
— Fique aqui.
Eu assenti.
Ele desapareceu por uma porta.
Fiquei sozinha.
Ou pelo menos pensei que estava.
Uma senhora se aproximou.
— Você deve ser Lara.
— Sim.
Ela sorriu gentilmente.
— Meu nome é Teresa. Trabalho para o senhor Artur há muitos anos.
— Prazer.
Ela olhou para minha mala.
— Quer que eu leve para o quarto?
— Eu...
Não sabia o que responder.
— Não se preocupe — ela disse. — Aqui ninguém vai fazer mal a você.
Aquelas palavras quase me fizeram chorar.
Porque fazia tanto tempo que ninguém dizia aquilo que eu nem lembrava como era ouvir uma promessa de segurança.
— Obrigada.
Teresa pegou minha mala.
Pouco depois, Matteo voltou.
— Artur quer conhecê-la.
Meu coração acelerou.
Segui os dois pelo corredor.
Quando a porta se abriu, vi um homem sentado atrás de uma grande mesa.
Artur.
Ele parecia ter quase sessenta anos.
Estava bem vestido, mas havia alguma coisa nele que chamou minha atenção imediatamente.
Cansaço.
Muito cansaço.
Ele levantou os olhos quando entrei.
E ficou me observando.
Não como Matteo havia feito.
Era diferente.
Parecia estar tentando entender quem eu era.
— Então você é Lara.
— Sim, senhor.
— Venha mais perto.
Obedeci.
Ele apontou para uma cadeira.
— Sente-se.
Sentei.
Matteo permaneceu de pé.
Artur olhou para o afilhado.
— Pode nos deixar sozinhos.
— Tem certeza?
— Tenho.
Matteo pareceu contrariado, mas saiu.
Assim que a porta fechou, Artur voltou a me observar.
— Você sabe por que está aqui?
— Disseram que vim pagar uma dívida.
Ele franziu a testa.
— Uma dívida que não é sua.
— Eu sei.
— E seus tios fizeram isso?
Assenti.
— Eles me entregaram.
Artur respirou profundamente.
— Você está com medo?
Olhei para minhas mãos.
— Muito.
Ele ficou em silêncio.
— De mim?
— Do que vai acontecer comigo.
A expressão dele mudou.
— Quantos anos você tem?
— Vinte.
— Estuda?
Baixei a cabeça.
— Terminei o ensino médio.
— E depois?
— Não pude continuar.
— Por quê?
Pensei em mentir.
Mas alguma coisa naquele homem me fez querer contar a verdade.
— Porque precisava trabalhar.
— Seus tios não ajudavam?
Soltei uma risada amarga.
— Eles diziam que eu já tinha idade suficiente para me virar.
Artur ficou sério.
— Você era tratada bem naquela casa?
A pergunta parecia simples.
Mas me desmontou.
Meus olhos começaram a arder.
— Não.
Ele esperou.
— Eles me batiam?
Minha garganta fechou.
— Às vezes.
Artur fechou os olhos por um instante.
— E você nunca contou a ninguém?
— Para quem?
Ele não respondeu.
Eu continuei:
— Eu era uma criança quando fui morar com eles. Depois cresci. Quando percebi, já tinha aprendido que reclamar só piorava as coisas.
Artur ficou olhando para mim.
— Você sabe por que Matteo trouxe você?
Balancei a cabeça.
— Ele disse que foi por sua causa.
— Foi.
— Eu preciso trabalhar?
Ele hesitou.
— Talvez.
— Posso fazer qualquer coisa.
— Não quero que você pense assim.
— Como?
— Que precisa aceitar qualquer coisa para merecer um lugar.
Fiquei em silêncio.
Aquelas palavras mexeram comigo.
Ele se levantou devagar.
Percebi então que respirava com dificuldade.
— O senhor está bem?
— Estou.
Mas não estava.
Eu sabia reconhecer aquela resposta.
Era a mesma que eu usava quando alguém perguntava se eu estava bem depois de uma noite difícil.
Artur caminhou até a janela.
— Minha saúde não está boa.
— Eu sinto muito.
— Não precisa sentir.
Ele olhou para mim.
— Eu estou doente há algum tempo. E minha doença está avançando.
Meu coração apertou.
— É grave?
— Muito.
Ele voltou para a cadeira.
— Tenho pouco tempo.
Não soube o que dizer.
— Por isso preciso de alguém ao meu lado.
Olhei para ele.
— Para cuidar do senhor?
Artur assentiu.
— Talvez.
Eu respirei fundo.
— Eu posso cuidar.
Ele pareceu surpreso.
— Você nem sabe o que isso significa.
— Sei o que é cuidar de alguém.
Pensei nos meus pais.
Em tudo que minha mãe fazia por meu pai.
Em tudo que meu pai fazia por ela.
— Minha mãe cuidava do meu pai quando ele ficava doente.
Artur sorriu tristemente.
— Você sente muita falta deles.
— Todos os dias.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Depois pegou um copo de água.
Suas mãos tremiam.
Sem pensar, levantei.
— Posso ajudar?
Ele me entregou o copo.
— Obrigado.
Foi uma palavra simples.
Mas naquele momento senti algo estranho.
Eu tinha passado anos ouvindo ordens.
Agora alguém estava me agradecendo.
Sentei novamente.
Artur tomou a água.
— Lara.
— Sim?
— Quero lhe fazer algumas perguntas nos próximos dias.
— Tudo bem.
— E quero que você conheça minha casa, meus funcionários e minha rotina.
Assenti.
— Mas existe algo que preciso que você saiba desde já.
— O quê?
Ele olhou diretamente para mim.
— Aqui, ninguém vai obrigá-la a fazer nada contra sua vontade.
Meu coração apertou.
Eu queria acreditar.
Pela primeira vez em muitos anos, queria muito acreditar em alguém.
A porta se abriu.
Matteo apareceu.
Seus olhos foram imediatamente para mim.
Depois para Artur.
— Está tudo bem?
Artur assentiu.
— Está.
Matteo me observou por alguns segundos.
Eu não sabia o que ele pensava.
Mas sabia o que eu pensava.
Eu ainda estava com medo.
Ainda não confiava em ninguém.
Mas, naquele momento, pela primeira vez desde que deixei meus tios, não me senti completamente sozinha.
E eu ainda não sabia que aquele homem diante de mim não estava apenas procurando alguém para ajudá-lo.
Artur estava prestes a me oferecer algo que mudaria minha vida para sempre.
E, quando aquela proposta chegasse, eu teria que decidir se estava disposta a trocar minha liberdade por um futuro que jamais imaginei ter.
