Capítulo 1 1

Juliana Narrando

Oi, meus amores! Tudo bem com vocês?

Espero que sim, porque por aqui a vida não para e, quando vocês menos esperam, lá estou eu me metendo em alguma situação que rende boas histórias. Então, sentem aí, porque hoje vou contar um pouquinho sobre mim. E já aviso: sou uma mulher de personalidade forte, língua afiada e paciência limitada para homem que se acha a última bolacha do pacote. Hahaha!

Desde os sete anos, faço balé e sou completamente apaixonada pela dança. Sempre fui aquela criança que transformava qualquer espaço em palco, inventava apresentações e obrigava todo mundo a assistir. Minha família que lute, né? Eu tinha um sonho, e ninguém conseguiria me convencer a desistir dele.

Aos doze anos, resolvi acrescentar outra paixão à minha lista: a defesa pessoal. Ah, meus amores, eu adoro aprender a me defender! Enquanto algumas meninas queriam saber apenas de maquiagem e roupas, eu estava lá, aprendendo golpes e técnicas para não depender de ninguém quando precisasse me proteger. Claro que também gosto de ficar bonita, viu? Uma coisa não anula a outra!

Com o tempo, levei a dança a sério, estudei, me dediquei e finalmente me formei. Hoje, sou professora e trabalho em projetos sociais, principalmente em ONGs e comunidades onde muitas crianças não têm acesso a oportunidades que deveriam ser direito de todas elas.

E vou dizer uma coisa: não existe satisfação maior do que ver aqueles pequenos chegando tímidos à primeira aula e, aos poucos, descobrindo que também são capazes de realizar coisas incríveis. Cada passo aprendido, cada sorriso e cada conquista fazem todo o esforço valer a pena.

Antes de vir para a Maré, eu dava aulas no Alemão. Foi lá que vivi uma história que, sinceramente, daria uma novela mexicana daquelas bem exageradas.

Acontece que me envolvi com o dono do lugar. Sim, meus amores, com o próprio! O homem tinha seus encantos, não vou mentir, mas também era ciumento que só vendo. Bastava alguém conversar comigo por tempo demais para ele começar com aquelas perguntas disfarçadas de preocupação.

E o melhor? Nosso envolvimento era discreto. Ninguém precisava saber daquilo, e eu gostava de manter minha vida pessoal longe dos comentários alheios. Só que o subcomandante de lá parecia ter escolhido a missão de testar minha paciência.

O bonito vivia dando em cima de mim, enquanto eu fazia a sonsa, fingindo que não entendia as indiretas. Afinal, eu estava envolvida com o chefe dele, então não tinha motivo para alimentar aquela situação. Eu só observava e pensava: esse homem não tem mais nada para fazer, não?

Até que a vida resolveu me mostrar que eu estava perdendo meu tempo.

Certo dia, descobri o dono com outra mulher. E vocês precisavam ter visto a cara dele quando percebeu que eu estava ali! O homem arregalou os olhos como se tivesse acabado de ver uma assombração.

O detalhe mais engraçado? Na noite anterior, ele estava na minha cama, cheio de conversinha sobre futuro, planos e sabe-se lá mais o quê. Hahaha! Pelo visto, o futuro dele tinha mais gente envolvida do que eu imaginava.

Mas sabem o que fiz?

Nada.

Absolutamente nada!

Continuei plena, ergui a cabeça e fui cuidar da minha vida. Não nasci para disputar homem com ninguém, muito menos para implorar atenção de quem não sabe o que quer.

E foi aí que resolvi parar de ignorar o subcomandante.

Sim, meus amores, acabei me envolvendo com ele. Dei corda, aceitei a aproximação e deixei o antigo caso para trás. Se o outro queria viver de promessas enquanto fazia o que bem entendia, problema dele. Eu não ia ficar chorando pelos cantos.

Quando o antigo dono descobriu, ficou possesso. Começou a me olhar como se eu tivesse cometido o maior crime do século. Eu, sinceramente, só queria entender de onde vinha tanta indignação, porque fidelidade nunca foi uma regra que ele tivesse feito questão de respeitar.

Mas chega desse povo, porque ainda tenho muita história para contar!

Na minha vida, existe uma pessoa que vale mais do que qualquer romance complicado: minha companheira de todas as horas, minha melhor amiga e meu grudinho oficial.

Conheci a Suelen, como ela gosta de ser chamada, quando eu tinha dezessete anos. Desde então, nós praticamente não nos desgrudamos mais. Ela é daquelas pessoas que conhecem minhas qualidades, meus defeitos, minhas loucuras e até as expressões que faço quando estou prestes a aprontar alguma coisa.

Trabalhamos juntas, dividimos momentos importantes e estamos sempre uma ao lado da outra. Minha bi é minha parceira de vida, aquela que me escuta reclamar, ri das minhas histórias e me coloca de volta nos trilhos quando minha cabeça resolve passear longe demais.

Agora, estamos morando na pista, na Maré, e ela continua sendo meu grude de todos os dias. Tem gente que não entende nossa ligação, mas também não precisa entender. O importante é que nós sabemos o valor que temos uma para a outra.

Esta semana, fui conhecer o lugar onde vou dar minhas próximas aulas. Aproveitei para conversar com o pessoal, entender como funcionam as atividades e abrir as inscrições para as crianças interessadas em aprender balé.

Fiquei animada com a quantidade de pequenos que podem participar. Já estou imaginando as primeiras aulas, os ensaios, as apresentações e aquela bagunça gostosa de criança tentando acompanhar os passos. Vai dar trabalho? Vai muito! Mas é justamente isso que amo fazer.

Só que, meus amores, nem tudo foi trabalho naquela visita.

O dono da Maré é um verdadeiro espetáculo!

Gente, que homem bonito! Daqueles que fazem a gente olhar duas vezes, mesmo quando está tentando manter a postura profissional. O sujeito tem presença, sabe disso e provavelmente está acostumado a conseguir a atenção de quem deseja.

Mas comigo a história é outra.

Não é porque um homem é bonito que vou esquecer meu nome, perder o juízo ou sair correndo atrás dele. Já tive minha cota de decepções amorosas e aprendi algumas lições da maneira mais difícil.

Pelo que percebi, ele parece ser do tipo que prefere as coisas sem compromisso, enquanto eu já estou vacinada contra promessas vazias. Se a intenção é apenas uma aventura, tudo bem, cada um sabe o que procura. Só não venha me vender uma história de amor quando tudo o que deseja é passar um momento e desaparecer depois.

Comigo, a conversa é clara.

Não estou procurando príncipe encantado, não quero homem controlando meus passos e muito menos alguém decidindo o que posso ou não fazer. Eu gosto da minha liberdade, do meu trabalho e da vida que construí.

Quando percebo que uma situação vai me trazer mais dor de cabeça do que felicidade, sei muito bem a hora de sair de cena.

E é por isso que não pretendo me envolver com o dono da Maré.

Pelo menos, essa é a minha intenção neste momento.

Porque uma coisa aprendi com a vida: a gente pode planejar tudo, organizar os sentimentos em caixinhas e jurar que não vai cair na mesma armadilha duas vezes. Mas basta aparecer alguém que mexa com a nossa curiosidade para os planos começarem a sair do controle.

E eu espero, sinceramente, que esse homem não seja uma dessas complicações.

Tenho crianças para ensinar, projetos para desenvolver, uma melhor amiga para cuidar e uma vida inteira pela frente. Não preciso de um homem bonito bagunçando minha cabeça.

Agora, se ele resolver testar minha paciência, vai descobrir que a professora de balé também sabe colocar limites.

E, meus amores, podem ter certeza de uma coisa: se tem alguém que não nasceu para ficar correndo atrás de homem, esse alguém sou eu!

Vamos ver quanto tempo essa minha certeza vai durar, né?

Porque, conhecendo a minha sorte, ainda vou acabar contando para vocês uma história que nem eu mesma acredito.

Por enquanto, vou cuidar das minhas aulas e deixar o bonitão no canto dele.

Afinal, quem nasceu para brilhar nos palcos não precisa disputar os holofotes com ninguém!

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