Capítulo 2 2

General Narrando

Fala aí, rapaziada! Tudo tranquilo?

Depois de dois meses em missão no Paraguai, finalmente estou de volta à minha quebrada. Foram semanas longe de casa, resolvendo problemas e lidando com situações que não deixam saudade nenhuma. Nesse meio-tempo, rolou uma guerra entre facções, mas, pelo que me passaram, a situação já está controlada. Agora é colocar a cabeça no lugar e cuidar do que ficou pendente.

Assim que pisei no morro, fui recebido com aquela festa de sempre. Os moleques vieram me cumprimentar, alguns moradores fizeram questão de perguntar como eu estava e, por alguns minutos, consegui aproveitar a sensação boa de estar de volta ao meu canto.

Só que a tranquilidade durou pouco.

A boca estava cheia de pendências, havia assuntos esperando minha atenção e uma lista enorme de problemas para resolver. Nem tinha conseguido descansar direito e já estava com a cabeça fervendo. É sempre assim: você passa um tempo fora, volta esperando respirar um pouco e descobre que o mundo continuou girando sem pedir licença.

Mas fazer o quê? Responsabilidade não tira férias.

Apesar de toda a correria, eu sabia que naquela noite aconteceria uma apresentação na ONG da comunidade. Essas atividades eram frequentes por ali, e eu fazia questão de dar o maior apoio possível.

Muita gente de fora não entende a importância dessas iniciativas. Para alguns, pode parecer apenas uma aula de dança, música ou qualquer outra atividade recreativa. Para mim, é muito mais do que isso.

É oportunidade.

É criança descobrindo um talento, adolescente encontrando um objetivo e família vendo os filhos ocupados com algo que pode abrir portas no futuro. Quando a molecada tem acesso a esporte, arte e educação, ganha a chance de conhecer outros caminhos e construir possibilidades que talvez nunca tivesse imaginado.

Além disso, essas atividades ajudam a manter os pequenos em ambientes seguros, principalmente nos momentos em que a região enfrenta situações delicadas. Eu sabia muito bem o quanto era importante oferecer alternativas para aquela criançada.

Por isso, mesmo com a cabeça cheia de problemas, pretendia aparecer na apresentação.

Só tinha um detalhe me incomodando.

Fiquei sabendo que havia uma professora nova na ONG, mas ainda não sabia quem era. E, antes que alguém venha dizer que eu estava procurando problema onde não existia, vou explicar uma coisa: sou desconfiado por natureza.

Depois de tudo o que já aconteceu por aqui, aprendi que não se deve confiar em qualquer pessoa logo de cara. Quando alguém novo chega, principalmente para trabalhar em um lugar frequentado por tantas crianças, é importante saber quem é, de onde veio e quais são suas intenções.

Não estava dizendo que a professora tinha alguma coisa de errado. Só queria conhecê-la e entender melhor a situação. Afinal, proteger os moradores também significa prestar atenção ao que acontece ao nosso redor.

Enfim, deixei essa preocupação anotada na cabeça e voltei ao trabalho.

A tarde passou voando. Era uma ligação atrás da outra, gente aparecendo para conversar, problemas que precisavam de solução e assuntos que pareciam se multiplicar toda vez que eu resolvia um deles.

Quando percebi, já estava perto das sete da noite.

Finalmente, consegui voltar para o meu barraco.

Tomei uma ducha demorada, tentando deixar para trás o cansaço daquele dia. Depois, escolhi uma roupa maneira, ajeitei o cabelo e me preparei para ir à ONG.

Não estava com vontade de enfrentar mais problemas, então esperava que a apresentação fosse tranquila. Queria ver a criançada feliz, conversar com o pessoal e descobrir quem era a nova professora.

Assim que cheguei, fui recebido do jeito que mais gostava.

Os pequenos me viram e vieram correndo na minha direção.

— General! Você voltou!

Foi uma gritaria só.

Um deles se agarrou à minha perna, outro veio me abraçar pela cintura, e logo eu estava cercado por aquela turminha que parecia ter guardado um estoque de novidades para me contar.

— Calma aí, seus pestinhas! Um de cada vez! — falei, rindo enquanto tentava dar atenção a todos.

Era impossível não abrir um sorriso diante daquela cena.

Os menores estavam todos arrumadinhos para a apresentação. As meninas usavam suas roupinhas de balé, com os cabelos presos e os sapatinhos preparados para a dança. Alguns meninos também participariam de outras atividades, e todos pareciam ansiosos para mostrar o que tinham aprendido.

Fiquei um bom tempo conversando com eles.

Queriam saber onde eu tinha estado, contavam as novidades e falavam sem parar sobre as aulas. Pelo que ouvi, estavam adorando a nova professora.

— A tia Ju é um amor, General! — uma das meninas comentou, toda animada.

— Ela ensina a gente direitinho! — outra completou.

— E ela dança muito! Você precisa ver!

Olhei para os pequenos, divertido com tanta empolgação.

— É mesmo? Então quero ver se vocês aprenderam tudo direitinho. Nada de esquecer os passos na hora da apresentação, hein!

Eles começaram a rir, prometendo que fariam bonito.

Então era essa tal de tia Ju.

A professora nova.

Guardei a informação e fui procurar um lugar de onde pudesse acompanhar tudo. Escolhi um cantinho com uma boa visão do salão, onde não atrapalharia a movimentação das famílias e conseguiria observar a apresentação com tranquilidade.

Também era um lugar de onde poderia sair facilmente caso surgisse algum imprevisto. Mania minha, eu sei, mas certos hábitos não desaparecem só porque você está participando de um evento infantil.

Aos poucos, o espaço ficou cheio. Os moradores chegaram, os responsáveis procuraram lugares para assistir e as crianças se organizaram para começar.

Quando anunciaram o início da apresentação, cruzei os braços e fiquei observando.

Primeiro, algumas crianças fizeram suas demonstrações. Aplaudi junto com os outros moradores, porque era impossível não reconhecer o esforço daqueles pequenos. Alguns ainda estavam aprendendo, outros já demonstravam bastante desenvoltura, mas todos pareciam felizes por estar ali.

Então chegou a vez da professora.

E foi naquele momento que minha noite mudou completamente.

Uma ruivinha tatuada entrou no salão.

Rapaz...

Que mulher bonita!

A primeira coisa que notei foi a confiança com que ela caminhava. Não parecia preocupada com os olhares, nem precisava fazer esforço para chamar atenção. Tinha uma presença marcante, daquelas que fazem qualquer ambiente parecer pequeno.

O cabelo ruivo emoldurava o rosto, as tatuagens apareciam discretamente e ela tinha um corpo bonito, acompanhado de uma postura que denunciava o quanto estava acostumada a dançar.

Tentei manter a expressão tranquila, como se aquela mulher fosse apenas mais uma pessoa no salão.

Mas, sinceramente?

Não estava dando muito certo.

Ela começou a falar com as famílias, agradeceu a presença de todos e explicou um pouco sobre o trabalho desenvolvido com as crianças. Eu deveria ter prestado atenção em cada palavra, principalmente porque queria conhecer melhor a responsável pelas aulas.

Só que minha concentração resolveu tirar folga.

Eu estava ocupado demais tentando entender como alguém conseguia ser tão bonita sem sequer parecer se esforçar para isso.

— General, você está ouvindo? — um dos caras que estava perto de mim perguntou baixinho.

Desviei os olhos da ruiva e olhei para ele.

— Estou, pô.

Ele ergueu uma sobrancelha, claramente desconfiado.

— Então o que ela acabou de falar?

Fiquei em silêncio por dois segundos.

— Vai cuidar da tua vida, rapaz.

O infeliz começou a rir, e eu precisei me controlar para não mandar o sujeito procurar alguma coisa útil para fazer.

A culpa não era minha se a professora tinha aparecido ali parecendo ter saído diretamente de um sonho.

Quando a música começou, porém, entendi que a beleza dela não era a única coisa capaz de chamar atenção.

Juliana se posicionou no centro do espaço e, assim que os primeiros acordes preencheram o salão, transformou completamente a expressão.

A mulher que, poucos segundos antes, conversava descontraidamente com os moradores parecia ter deixado o mundo inteiro do lado de fora.

Cada movimento era preciso. Os braços acompanhavam a música com leveza, os passos se encaixavam perfeitamente no ritmo e havia uma delicadeza impressionante na maneira como ela ocupava o espaço.

Não era apenas uma apresentação bonita.

Era paixão.

Dava para perceber o quanto amava aquilo que fazia. Ela dançava com uma entrega que prendia a atenção de todos, e as crianças a observavam com um orgulho que não precisava de explicação.

Fiquei parado, acompanhando cada movimento.

Caramba...

Aquela mulher era um espetáculo!

E eu, que tinha ido à ONG pensando apenas em conhecer a nova professora e conferir o trabalho realizado com os pequenos, estava ali, completamente distraído.

Quando a apresentação terminou, o salão explodiu em aplausos. As crianças correram para perto dela, os responsáveis elogiaram o desempenho dos pequenos e Juliana recebeu os cumprimentos com um sorriso que parecia iluminar o rosto inteiro.

Eu deveria ter pensado no trabalho, nas pendências e nos problemas que ainda me esperavam.

Em vez disso, fiquei tentando encontrar uma desculpa para me aproximar.

Não era comum uma mulher despertar minha curiosidade daquele jeito logo no primeiro encontro. Muito menos uma desconhecida que eu ainda nem tinha tido a oportunidade de cumprimentar.

Respirei fundo e descruzei os braços.

Precisava parar de agir como um adolescente diante da primeira paixão.

Eu era o General. Tinha responsabilidades, conhecia bem a minha realidade e não costumava perder tempo com situações que não podia controlar.

Pelo menos, era isso que eu dizia a mim mesmo.

Porque, naquele instante, enquanto observava a ruivinha sorrindo para as crianças, uma certeza começou a se formar na minha cabeça.

Eu precisava conhecer Juliana.

Não apenas porque ela era bonita, nem porque dançava como se tivesse nascido para aquilo.

Queria entender quem era a mulher por trás daquela presença marcante, descobrir de onde vinha tanta determinação e saber o que a tinha levado até a minha comunidade.

Naquela noite, eu ainda não fazia ideia de quantas certezas aquela professora seria capaz de colocar em dúvida.

Só sabia que, depois de dois meses longe de casa, tinha voltado esperando encontrar os mesmos problemas de sempre.

Não imaginava que acabaria encontrando uma ruiva capaz de me fazer esquecer, por alguns instantes, até mesmo o motivo de ter ido àquela apresentação.

E isso, meus amigos, era só o começo.

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