Capítulo 3 3
General Narrando
Fala tu, rapaziada! Na moral, aquela mina dança pra caramba! Eu estava era besta, sem saber para onde olhar. Meu mano, que tinha encostado ao meu lado, percebeu que eu estava vidrado na ruiva e começou a rir da minha cara.
— Qual foi, General? Nunca viu mulher bonita dançando, não? — ele provocou.
Virei o rosto devagar e lancei aquele olhar que costuma fazer os engraçadinhos lembrarem que têm mais o que fazer.
— Vai procurar uma ocupação, menor. Está muito desocupado pro meu gosto.
Ele soltou uma gargalhada, mas não insistiu. Ainda bem, porque eu precisava prestar atenção naquela apresentação. Ou, pelo menos, era isso que tentava convencer a mim mesmo.
A ruivinha se movimentava pelo salão com uma leveza impressionante. Em determinado momento, ficou na ponta dos pés e começou a girar, uma vez atrás da outra, com uma precisão que me deixou de boca aberta.
Caramba!
Por alguns segundos, achei que ela fosse perder o equilíbrio, mas a mulher parecia ter nascido sabendo fazer aquilo. Terminou a sequência com uma postura impecável, como se executar aqueles movimentos fosse a coisa mais simples do mundo.
O salão inteiro aplaudiu.
Eu também, claro. Não ia ficar parado fingindo que não tinha gostado.
Quando as crianças entraram para participar da apresentação, percebi uma mudança no rosto dela. Juliana abriu um sorriso enorme e passou a incentivar os pequenos com gestos delicados, demonstrando orgulho por cada movimento que faziam.
Era bonito de ver.
Algumas crianças estavam tímidas, outras pareciam não caber dentro de si de tanta felicidade. Tinha até um molequinho que se atrapalhou com os próprios pés, mas a professora se aproximou, disse alguma coisa que não consegui ouvir e o ajudou a voltar para a posição.
O pequeno terminou a apresentação sorrindo.
E foi ali que senti aquele orgulho que nem sempre consigo explicar.
A nossa comunidade precisava de iniciativas assim. Precisava de lugares onde as crianças pudessem descobrir talentos, fazer amizades e aprender coisas novas. Nem todo mundo tinha condições de pagar aulas particulares, comprar materiais ou levar os filhos para atividades longe de casa.
A ONG ajudava a diminuir essas barreiras.
Eu sabia que ainda havia muito a fazer, mas ver aquela criançada feliz me lembrava de que nem tudo se resumia aos problemas que eu precisava resolver diariamente.
Pelo menos, nisso eu estava conseguindo fazer alguma diferença.
Enquanto acompanhava a movimentação, percebi que Juliana também estava atenta a cada criança. Não parecia estar ali apenas para cumprir horário e receber o pagamento no fim do mês. Ela realmente gostava do que fazia.
E aquilo me chamou a atenção tanto quanto a beleza dela.
Quase tanto, vai.
Porque, quando a ruiva saiu por alguns instantes e voltou usando outra roupa, confesso que minha concentração foi embora de novo.
A mulher tinha presença, atitude e sabia exatamente como ocupar um palco. A nova apresentação começou, e o público voltou a se animar. Teve aplauso, assobio e gente filmando cada movimento.
Eu fiquei no meu canto, acompanhando tudo com um sorriso discreto.
Paguei pau mesmo!
A ruiva dançava muito. Não tinha como negar.
Em determinado momento, peguei meu celular e tirei uma foto dela durante a apresentação. Queria guardar aquela lembrança, talvez para rever depois e lembrar da noite em que conheci a professora que estava dando o que falar na ONG.
Pelo menos, foi essa a justificativa que dei a mim mesmo.
A verdade é que Juliana tinha despertado minha curiosidade de um jeito que eu não esperava.
Era bonita, talentosa e parecia completamente à vontade diante de tanta gente. Não ficava procurando aprovação, não precisava chamar atenção de propósito e tampouco parecia intimidada por quem estava assistindo.
Eu gostava de mulheres que sabiam se portar e não precisavam fingir ser quem não eram.
Só que ainda não sabia absolutamente nada sobre ela.
E, antes de tirar conclusões, precisava conversar com a professora.
Quando a apresentação terminou, as famílias começaram a se despedir, enquanto os funcionários da ONG organizavam o espaço. Eu ainda precisava ficar por ali, porque havia assuntos administrativos para resolver.
Os professores preparavam relatórios sobre as atividades, os responsáveis pela organização tinham algumas informações para me apresentar e também existiam questões relacionadas ao orçamento dos projetos.
Era a parte menos divertida da noite, mas fazia parte das minhas responsabilidades.
Fiquei conversando com o coordenador e resolvendo algumas pendências. De vez em quando, meus olhos procuravam a ruiva pelo salão, até que finalmente a encontrei perto da saída.
Ela estava acompanhada de uma pessoa que parecia ser bastante próxima dela. Os dois conversavam descontraidamente, e Juliana gesticulava enquanto contava alguma coisa.
Foi então que reparei melhor na roupa que ela usava.
Era um conjunto curto, moderno e perfeitamente adequado ao estilo dela. A ruiva tinha personalidade até na maneira de se vestir, e parecia não estar nem um pouco preocupada com os olhares curiosos que recebia.
Eu, por outro lado, precisei me lembrar de que estava em um ambiente de trabalho.
Controla essa cara, General!
Não queria parecer um adolescente que nunca tinha visto uma mulher bonita na vida.
Voltei a prestar atenção no coordenador, que me explicava alguns detalhes sobre as próximas atividades. Quando terminamos, ele chamou Juliana, que estava se despedindo do pessoal.
Ela se aproximou para entregar a documentação.
E, meus amigos, foi nesse momento que percebi uma coisa: a ruiva era ainda mais bonita de perto.
O sorriso fácil, os olhos atentos e a postura confiante davam a impressão de que ela não se intimidava com facilidade. Também havia algo divertido na expressão dela, como se estivesse sempre pronta para responder a qualquer provocação.
O coordenador fez as apresentações.
Juliana parou diante de mim, segurando um envelope.
— Boa noite! Sou a Juliana, a nova professora de balé da ONG. Trouxe o relatório desta semana, com as atividades realizadas e algumas observações sobre as turmas.
Estendeu o envelope na minha direção.
Eu deveria ter respondido alguma coisa inteligente. Poderia ter perguntado sobre as aulas, elogiado o trabalho com as crianças ou simplesmente agradecido pela documentação.
Mas, por um breve instante, fiquei ocupado demais olhando para ela.
— General — respondi, estendendo a mão para cumprimentá-la.
Ela apertou minha mão com firmeza.
Eita!
Eu não esperava aquilo.
Pela aparência delicada e pelos movimentos leves que tinha acabado de ver, imaginei que o cumprimento seria tímido. Só que Juliana apertou minha mão sem hesitar, olhando diretamente para mim.
Nada de baixar a cabeça, desviar os olhos ou demonstrar nervosismo.
A ruiva tinha atitude.
— Prazer em conhecê-lo, General — disse ela, mantendo o sorriso.
— O prazer é meu.
Finalmente consegui formar uma frase completa. Já era um avanço.
Ela soltou minha mão e ajeitou o envelope que eu segurava.
— O relatório está organizado por turma. Também incluí algumas sugestões para as próximas atividades. Depois, se tiver alguma dúvida, pode conversar comigo ou com o coordenador.
Assenti, tentando prestar atenção no que dizia.
— Certo. Vou dar uma olhada.
— Ótimo. Bom, eu preciso ir. Boa noite, General.
— Boa noite, Juliana.
Ela se despediu com a mesma tranquilidade com que havia chegado. Não tentou prolongar a conversa, não ficou esperando algum elogio e muito menos demonstrou estar impressionada com minha presença.
Simplesmente virou as costas e foi embora.
Fiquei acompanhando seus passos por alguns segundos, até perceber que meu parceiro estava novamente ao meu lado, segurando o riso.
— Rapaz, tu está perdido! — ele comentou.
— Perdido está você, que não tem nada melhor para fazer além de reparar na minha vida.
— Eu? Estou quietinho. Só achei engraçado tu ficar todo sério quando ela chegou.
— Vai arrumar o que fazer, moleque!
Ele riu e saiu antes que eu inventasse alguma tarefa para ocupar seu tempo.
Olhei para o envelope em minhas mãos.
O relatório.
Era isso que eu precisava ler. Informações sobre as aulas, as turmas e as atividades desenvolvidas. Trabalho sério, importante e que merecia minha atenção.
Só que minha cabeça insistia em voltar para a mesma pessoa.
Juliana.
A ruiva tinha me cumprimentado como se eu fosse qualquer outro homem, entregado os documentos e ido embora sem olhar para trás.
E, por algum motivo, aquilo me deixou ainda mais curioso.
Eu estava acostumado a perceber quando alguém tentava chamar minha atenção. Também sabia identificar quando uma pessoa se aproximava por interesse ou porque queria alguma coisa.
Com Juliana, ainda não tinha entendido nada.
Ela parecia ter vindo para trabalhar, ensinar as crianças e seguir a própria vida. Não demonstrou interesse em descobrir quem eu era além do necessário, não tentou me agradar e nem ficou fazendo perguntas sobre minha posição na comunidade.
Aparentemente, eu era apenas o homem que precisava receber o relatório.
E isso era novidade.
Guardei o envelope com cuidado e respirei fundo.
Não fazia sentido ficar tão intrigado por uma mulher que eu tinha acabado de conhecer. Muito menos criar expectativas antes de descobrir quem ela era de verdade.
Mas uma coisa eu podia admitir: queria vê-la novamente.
Queria conversar com ela sem aquela movimentação toda, entender suas ideias para a ONG e descobrir se aquela língua afiada que eu imaginava combinava com o sorriso provocador.
Talvez fosse apenas curiosidade.
Talvez fosse a atração que tinha surgido assim que a vi dançar.
Ou talvez Juliana fosse o tipo de mulher que não se impressionava facilmente, e meu orgulho estivesse tentando entender por quê.
Seja como fosse, uma coisa era certa: aquela professora tinha deixado uma impressão difícil de ignorar.
Peguei meu celular, olhei rapidamente a foto que havia tirado durante a apresentação e balancei a cabeça, rindo sozinho.
— Bonita demais essa ruiva...
Apaguei a tela e guardei o aparelho.
Ainda tinha muita coisa para resolver naquela noite, e não pretendia deixar que uma mulher desconhecida me distraísse das minhas responsabilidades.
Pelo menos, não mais do que já tinha distraído.
Porque, enquanto caminhava para fora da ONG, uma ideia se formou na minha cabeça.
Eu ainda ia encontrar Juliana muitas vezes por ali.
E, da próxima vez, pretendia prestar atenção em cada palavra que ela dissesse.
Só esperava que a ruiva não resolvesse me colocar no meu devido lugar antes mesmo de eu conseguir conhecê-la melhor.
Embora, pensando bem, aquela possibilidade também tivesse seu encanto.
