Capítulo 4 4
Juliana Narrando
Meus amores, boa noite para quem é de boa noite! Porque hoje eu estou daquele jeito: cansada, mas feliz, bonita e pronta para esquecer um pouquinho das responsabilidades. Afinal, ninguém é de ferro, né? Até professora de balé merece uma noite de diversão sem precisar contar até oito, corrigir postura ou pedir para alguém parar de correr pelo salão.
Hoje foi mais um dia de aula finalizado com sucesso. A criançada estava impossível, como sempre, mas eu não trocaria aqueles pequenos por nada. Cada dia que passa, fico mais feliz por ter aceitado trabalhar na ONG. As crianças estão evoluindo, os pais são uns amores comigo e a coordenação parece satisfeita com o resultado das atividades.
É gratificante demais perceber que aquele projeto está fazendo diferença. Tem criança que chega à aula tímida, quase sem levantar os olhos, e depois de algumas semanas já está se apresentando na frente de todo mundo, cheia de confiança. Isso me deixa com o coração quentinho.
Claro que também existem os pequenos que passam metade da aula conversando, a outra metade inventando passos e, quando chega a hora de prestar atenção, resolvem perguntar se podem ir ao banheiro.
Eu amo todos, mas haja paciência!
Ainda bem que sou uma mulher preparada para enfrentar desafios. Dou conta de crianças agitadas, de pais cheios de perguntas e até de adultos que acham que podem falar comigo de qualquer maneira.
Aliás, por falar em adultos sem noção, preciso contar uma novidade.
Desde que comecei a trabalhar na Maré, algumas mulheres resolveram fazer de mim o assunto favorito das conversas. Primeiro foram os olhares atravessados, depois vieram as piadinhas e, por último, começaram aquelas indiretas que todo mundo finge que não são para ninguém, mas faz questão de soltar quando a pessoa está passando.
Meus amores, eu posso até ser distraída para certas coisas, mas sonsa eu não sou!
Na primeira vez, ignorei. Na segunda, continuei cuidando da minha vida. Na terceira, porém, resolvi deixar um aviso bem educado.
— Minhas queridas, podem falar o que quiserem, porque minha vida não é segredo de Estado. Agora, só não inventem de encostar em mim, porque eu luto melhor do que danço.
O silêncio que veio depois foi maravilhoso.
Uma delas até abriu a boca para responder, mas desistiu quando percebeu que eu estava olhando diretamente para ela.
Eu não procuro confusão, mas também não tenho vocação para saco de pancadas de ninguém. Passei anos aprendendo defesa pessoal, e não foi para ficar intimidada por causa de comentário maldoso.
Se querem conversar, conversem. Se não gostam de mim, tudo bem. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Só não confundam minha educação com falta de atitude.
Depois daquele episódio, as piadinhas diminuíram um pouco. Não vou dizer que desapareceram completamente, porque sempre existe alguém precisando ocupar a própria cabeça com a vida alheia, mas pelo menos pararam de fazer tanta questão de me provocar na cara.
E eu segui plena.
Meu trabalho está sendo bem-feito, as crianças estão aprendendo e os pais não têm do que reclamar. Fora dali, minha vida pessoal não diz respeito a ninguém.
Simples assim.
Agora, se vocês acham que eu vou passar a noite em casa pensando nas mulheres que não gostam de mim, estão muito enganados. Hoje tem baile, minha bi está aqui me perturbando desde cedo e eu pretendo aproveitar cada segundo!
Suellen chegou à minha casa com uma disposição que, sinceramente, deveria ser estudada pela ciência. A mulher parecia ter tomado três energéticos antes de sair de casa.
Eu ainda estava terminando de me arrumar quando ouvi a voz dela no quarto.
— Bora, amiga! Tu não vai fazer nada, não? Porque eu sei que, se depender de ti, a gente vai acabar assistindo televisão até amanhecer.
Revirei os olhos enquanto ajeitava o cabelo diante do espelho.
— Tu é chata, hein, bi? Pelo amor de Deus! Parece até que está recebendo por hora para me apressar.
— E estou recebendo, sim. Recebo em forma de sofrimento quando tu resolve inventar desculpa para não sair.
— Ah, vai te catar!
Ela começou a rir.
Suellen era assim: não conseguia ficar cinco minutos quieta quando decidia alguma coisa. E, quando colocava na cabeça que nós sairíamos, podia chover canivete que ela continuaria insistindo.
A verdade é que fazia um tempinho que eu não frequentava um baile. Entre as aulas, os planejamentos e a adaptação à nova rotina, meus dias estavam cheios. Quando chegava em casa, tudo o que queria era tomar banho, comer alguma coisa e descansar.
Mas hoje eu estava precisando sair.
Precisava ouvir música alta, encontrar gente, rir das besteiras da minha bi e dançar até meus pés pedirem socorro.
— Está bom, mulher! Eu vou! — anunciei, finalmente.
Suellen apareceu na porta com um sorriso vitorioso.
— Eu sabia!
— Sabia nada. Tu me infernizou até conseguir o que queria.
— Detalhes, querida. O importante é que vamos sair.
Ela se sentou na beirada da cama e me observou terminar de me arrumar. Depois, estreitou os olhos e abriu aquele sorriso que eu conhecia muito bem.
Pronto. Lá vinha bomba.
— O bofe, querida... acha que eu não vi o chefão te secando?
Parei por um instante.
Não porque tivesse ficado nervosa, claro. Apenas estava tentando descobrir por que minha melhor amiga fazia tanta questão de transformar qualquer homem bonito em assunto de reunião.
— Na apresentação, né? — perguntei, fingindo desinteresse. — E no dia em que a gente estava almoçando no bar também. Eu percebi, tá?
Suellen levou a mão ao peito, teatral.
— Meu Deus! Então tu viu!
— Claro que vi, criatura. O homem estava olhando tanto que quase esqueceu como se pisca.
Ela começou a gargalhar.
— Só pega patrão de patente alta, hein, amiga!
— Uai, querida, trava na beleza, meu amor! Eu não tenho culpa se os homens resolvem olhar. Agora, querer me colocar no bolso é outra história. Eles podem até imaginar, mas quem decide alguma coisa sou eu.
— Mulher, tu não vale nada!
— Nunca disse que prestava.
Nós duas caímos na risada.
Era disso que eu gostava na nossa amizade. Podíamos falar sobre qualquer assunto sem precisar medir cada palavra, porque uma conhecia a outra o suficiente para entender quando era brincadeira e quando o assunto era sério.
Suellen sabia das minhas experiências amorosas, das decepções que já tinha enfrentado comigo e da minha falta de paciência para homens que confundiam interesse com direito de mandar.
Eu já tinha aprendido que não precisava aceitar qualquer relacionamento só para não ficar sozinha.
Gostar de alguém era bom, mas gostar de mim mesma era indispensável.
E, depois de algumas experiências que prefiro deixar no passado, minha decisão era simples: se o homem chegasse com promessas vazias, ciúmes exagerados e tentativas de controlar minha vida, eu mostraria a saída sem precisar desenhar.
Não estava procurando marido, namorado ou candidato a dono dos meus horários.
Eu queria viver.
E, se algum dia aparecesse alguém capaz de caminhar ao meu lado sem tentar me diminuir, ótimo. Caso contrário, eu continuaria dançando sozinha, porque também sabia aproveitar a própria companhia.
— Agora chega de conversa! — Suellen anunciou, levantando-se. — Quero muito brilho e muita jogação hoje!
— Adoro! Mas primeiro deixa eu terminar de me arrumar, porque não vou sair daqui parecendo que fui atropelada por um caminhão.
Olhei para a roupa que tinha separado e sorri.
Já sabia exatamente o que queria vestir.
Escolhi uma produção que valorizava meu corpo, combinei os acessórios e finalizei tudo com uma maquiagem caprichada. Nada exagerado demais, mas também não estava indo ao mercado comprar pão.
Hoje eu queria me sentir maravilhosa.
Quando saí do quarto, Suellen me olhou de cima a baixo e arregalou os olhos.
— Ui, querida! Está indo para o crime? Que mulher é essa?
Comecei a rir.
— Kkkkk! Tu não me chamou para sair? Agora aguenta!
— Amiga, tu está bonita demais! Mas depois não reclama se aparecer um monte de homem querendo conversar.
— Conversar pode. O problema é achar que eu sou obrigada a dar atenção.
— Está certa! Educação é uma coisa, interesse é outra.
Apontei para ela, satisfeita.
— Finalmente falou alguma coisa que presta!
— Ah, sua ingrata!
Rimos mais uma vez.
Suellen também estava pronta, com uma produção que ela insistia em chamar de básica. Meus amores, se aquilo era básico, eu não queria nem imaginar o que ela considerava uma produção para arrasar.
A mulher estava linda, toda arrumada, cheirosa e com aquele sorriso de quem pretendia aproveitar até a última música.
— Vamos logo, porque já são dez horas! — ela reclamou.
— Mulher, tu que passou metade da noite me apressando e agora está parecendo que vai perder um voo.
— Eu quero chegar cedo para aproveitar tudo!
— Então anda, criatura!
Pegamos nossas bolsas, conferimos se estava tudo certo e seguimos para o estacionamento.
Entramos no carro, colocamos uma música para tocar e começamos a cantar como se estivéssemos fazendo um show particular. Suellen errava metade da letra, inventava a outra metade e ainda tinha coragem de dizer que eu estava desafinada.
Depois de aproximadamente vinte minutos, chegamos ao local do baile.
E, meus amores, estava lotadíssimo!
A movimentação já era grande do lado de fora. Havia grupos de amigos conversando, casais chegando juntos e gente se cumprimentando como se não se visse havia anos.
O som podia ser ouvido antes mesmo de entrarmos, e eu senti aquela animação conhecida tomando conta de mim.
Era exatamente o que precisava.
Entramos, cumprimentamos algumas pessoas e seguimos para o bar.
— Primeiro, uma tequila! — anunciei.
Suellen me olhou com uma expressão de aprovação.
— Agora sim estou reconhecendo minha amiga!
Peguei o copinho, virei a bebida e fiz uma careta discreta por causa do gosto forte. Minha bi começou a rir, e eu mostrei a língua para ela como uma criança.
— Não ri, desgraçada!
— Não estou rindo, querida. Estou admirando sua elegância.
— Vai admirar a parede!
Ela quase derrubou a própria bebida de tanto rir.
Ficamos conversando por alguns minutos, observando o movimento e escolhendo onde ficaríamos para dançar. Eu já estava me preparando psicologicamente para passar horas reclamando dos meus pés no dia seguinte quando Suellen segurou meu braço.
— Amiga...
Pelo tom de voz, percebi que vinha alguma coisa.
Olhei para ela.
— Que foi?
Ela apontou discretamente para a área do camarote.
— Olha quem está ali.
Virei o rosto na direção indicada.
E foi nesse instante que minha vontade de dançar pareceu desaparecer por alguns segundos.
Não.
Não, não, não.
Aquilo só podia ser brincadeira do destino.
Lá estava ele.
O dono da Maré.
General.
Bonito, bem vestido, cercado por alguns conhecidos e com aquela postura de homem que parecia estar acostumado a ser notado assim que entrava em qualquer lugar.
Só que havia um detalhe que me incomodava profundamente.
Ele estava olhando na minha direção.
E, pelo jeito, já tinha me reconhecido.
Fechei os olhos por um instante e respirei fundo.
— Fudeu...
Suellen apertou meu braço, tentando conter o riso.
— Amiga, pelo amor de Deus, olha a tua cara!
— Minha cara está ótima.
— Está nada! Parece que viu uma conta vencida!
— Pior, querida. Vi um problema chegando de camarote.
Ela soltou uma gargalhada.
— Tu não disse que não estava nem aí para ele?
— E não estou!
— Então por que está querendo se esconder atrás de mim?
Olhei para ela, indignada.
— Eu não estou querendo me esconder. Estou apenas analisando o ambiente.
— Aham. Analisando o ambiente com vontade de entrar dentro da minha bolsa.
— Suellen, eu juro que vou te abandonar aqui.
— Vai nada. Tu me ama.
Infelizmente, ela tinha razão.
Voltei a olhar discretamente para o camarote e percebi que General continuava por ali. Não sabia se ele estava acompanhado de amigos, se tinha ido resolver algum assunto ou se simplesmente decidira aproveitar a noite.
E, sinceramente, não precisava saber.
Eu estava ali para dançar, me divertir e passar um tempo com minha melhor amiga. Não tinha intenção de transformar meu baile em uma reunião de trabalho, muito menos em uma entrevista para descobrir o que o chefão queria comigo.
Só que havia um pequeno problema.
Minha curiosidade também tinha resolvido aparecer.
Será que ele iria falar comigo?
Será que me reconheceria de longe?
E, principalmente, será que teria a ousadia de vir até mim?
Balancei a cabeça, afastando aqueles pensamentos.
Juliana, pelo amor de Deus! Tu veio dançar, não escrever uma novela na própria cabeça.
— Vamos para a pista — anunciei, puxando Suellen pela mão.
Ela sorriu, satisfeita.
— Isso! Quero ver se tu vai continuar toda convencida quando ele chegar perto.
— Ele não vai chegar perto de mim.
— Vamos apostar?
— Não vou apostar nada, porque não estou interessada.
— Claro, querida. E eu sou uma bailarina profissional.
Mostrei o dedo do meio para ela, rindo, e seguimos em direção à pista.
A música estava boa, o ambiente animado e eu não pretendia desperdiçar aquela noite pensando em homem nenhum.
Quando começamos a dançar, deixei o ritmo tomar conta do corpo. Suellen se soltou imediatamente, cantando, rindo e fazendo os passos mais exagerados que conhecia. Eu acompanhei, feliz por finalmente ter um momento para mim.
Por alguns minutos, consegui esquecer o trabalho, as provocações das mulheres da comunidade e o olhar insistente do General.
Mas só por alguns minutos.
Porque, quando virei o rosto durante uma mudança de música, encontrei novamente aquele homem olhando na minha direção.
Dessa vez, ele não desviou os olhos.
E eu, que nunca fui de abaixar a cabeça diante de ninguém, sustentei o olhar.
Não sorri.
Não fiz sinal.
Apenas ergui uma sobrancelha, como quem perguntava silenciosamente qual era o problema.
General respondeu com um sorriso discreto.
Ah, não.
Aquele homem estava mesmo achando que poderia me provocar daquele jeito?
Pois estava muito enganado.
Voltei a dançar, decidida a mostrar que não me intimidava com sua presença. Se ele quisesse conversar, poderia vir. Eu não iria interromper minha diversão para facilitar a vida de ninguém.
Suellen percebeu a troca de olhares e se aproximou do meu ouvido.
— Amiga, ele está vindo!
Meu coração deu uma batida mais forte, mas tratei de manter a expressão tranquila.
— E daí?
— E daí que eu quero assistir de camarote!
— Tu é uma fofoqueira!
— Sou sua melhor amiga. Tenho direitos!
Revirei os olhos, mas não consegui segurar o sorriso.
Continuei dançando enquanto observava General se afastar do camarote e começar a atravessar o salão.
Pronto.
A noite, que até então prometia ser apenas diversão, estava prestes a ficar muito mais interessante.
E eu só conseguia pensar em uma coisa:
Se aquele homem viesse com gracinha, descobriria que eu não era uma das mulheres acostumadas a concordar com tudo o que ele dizia.
Bonito ele era.
Interessante, talvez.
Mas conquistar minha atenção de verdade seria outra história.
E, meus amores, eu estava prestes a descobrir se o chefão da Maré sabia conversar com uma mulher que não tinha o menor interesse em ser controlada.
