Capítulo 4
Suspiro com os olhos fechados, virando meu corpo para o lado oposto ao que estava, notando uma certa mudança quando minha cabeça repousa em algo mais... resistente. Apertando minhas pálpebras, que pareciam grudadas, abro os olhos, encontrando os olhos de Ravi fixos em mim, enquanto ele mantinha ambos os braços sob a cabeça.
"Bom dia," ele diz sorrindo lentamente, mostrando uma fileira de dentes brancos perfeitos. Droga, ele era mais bonito do que eu lembrava. "Você fala dormindo." Arregalo os olhos, levantando minha cabeça do peito dele, percebendo que eu tinha babado acidentalmente no lugar.
Rapidamente limpo a saliva, sentando na cama.
"Você dormiu aqui também?"
"Este é meu quarto." Meus olhos vagam pelo quarto merecidamente organizado. "E esta é minha cama." Olho para a cama, piscando algumas vezes. "Não gosto de dormir fora da minha cama."
Passo as mãos pelo rosto, lentamente percebendo a situação em que me meti. Não era a melhor, mas também não era a pior.
Ela vagamente lembrava da conversa que teve com ele na noite anterior e como acabou ali. Mas onde estava?
"Desculpa por isso. Sério. Eu não queria—" Eu paro, sem ideia do que dizer.
"Não se preocupe com isso," ele diz se levantando ao mesmo tempo. "A noite para mim não foi tão ruim. Não pareceu tão ruim para nós dois." Um breve sorriso aparece no rosto dele.
Eu o observo caminhar até o banheiro, vestido apenas da cintura para cima. Olho mais de perto para o quarto de paredes simples, procurando por um porta-retratos, se quisesse um, não encontrando nenhum; os poucos objetos não tinham cores, eram opacos, combinando com a textura.
Não parecia ser o quarto de um homem, geralmente o quarto de um homem era bagunçado. Havia roupas sujas e limpas por toda parte, além de muito lixo.
Parecia um quarto de hotel ali.
"Onde é aqui?" Pergunto assim que Ravi sai do banheiro, indo para o que parecia ser o closet, voltando vestindo uma camisa cinza que estava colada ao corpo.
"Aqui...?"
"Onde estamos? Onde você mora?"
Ele dá um meio sorriso.
"Ainda estamos na cidade, se é isso que você quer dizer," ele diz pouco antes de sair do quarto. "Tem uma escova de dentes nova em cima da pia," ele chama do corredor.
O banheiro claramente lembrava um quarto de hotel, sem dúvida. Havia toalhas brancas felpudas apenas esperando para serem usadas. Um grande espelho que permitia ver todas as suas imperfeições, uma banheira magnífica que facilmente caberia duas pessoas e um chuveiro com cinco jatos de água diferentes.
Qualquer um poderia facilmente passar mais de uma hora no chuveiro. Era o paraíso do banho, do qual eu não pensei duas vezes em aproveitar, já que tinha um bom motivo para tomar banho. Me livrar daquele cheiro de suor, vômito e sangue.
Me senti extremamente envergonhada depois do banho, talvez porque usei o sabonete dele e uma das toalhas dele, sem nem pedir permissão. Para não exagerar na hospitalidade, acabei lavando meu cabelo em casa, pois senti que seria trabalho demais.
O cheiro de café e ovos fritos enche o ar enquanto desço os degraus de porcelanato, ignorando o frescor sob meus pés. O cômodo era muito maior do que eu esperava, equipado da melhor maneira possível, sem desviar da simplicidade que a decoração queria demonstrar.
A casa por dentro era grande, espaçosa. Duas famílias conviveriam muito bem ali, não que eu nunca tivesse visto casas desse tamanho, mas cresci com o fardo de que negros, homens ou mulheres, não conseguiam facilmente uma casa assim ou um carro caro.
No final da escada, olho para a esquerda e encontro Ravi andando pelo cômodo. Não penso duas vezes em ir ao encontro dele, parando na porta, esperando que ele me note. E ele me nota, me lançando um sorriso.
"Venha. Pode comer o que quiser." Me aproximo da ilha, balcão, no meio da cozinha retangular. A mesa de madeira com seis cadeiras ao lado era bonita, mas não parecia atraente o suficiente para fazer Ravi usá-la.
Pego duas fatias de pão, cortando as bordas que eu odiava, sentindo os olhos dele em mim. Eu não gostava delas, tinha meu próprio motivo autossuficiente, já que quando criança me forçavam a comer até o talo e isso acabou de uma forma, isso me traumatizou e por um tempo me recusei a comer pão de forma, até aquela manhã.
O olhar de Ravi não era de desaprovação, muito pelo contrário.
"Quer ovos mexidos?" Perguntou distraído pela função.
"Talvez." Ele vai até o fogão, trazendo uma frigideira. "Quantas pessoas trabalham aqui?" Pergunto, tentando não olhar diretamente para o abdômen dele.
Não pude deixar de pensar no que havia acabado de acontecer, especialmente com Ravi na minha frente daquele jeito, seus olhos fixos nos meus, sua presença tão avassaladora. Toda vez que eu olhava para ele, minhas bochechas esquentavam, um rubor tímido se espalhava pelo meu rosto, traindo a intensidade das minhas emoções.
Era como se o simples olhar dele pudesse desvendar meus pensamentos mais profundos, como se eu estivesse completamente exposta diante dele. Eu me sentia vulnerável e, ao mesmo tempo, empolgada por ele poder ver além das palavras e entender a intensidade do que eu estava sentindo.
Meus pensamentos vagavam entre o momento compartilhado, relembrando cada detalhe, cada toque, cada palavra sussurrada. Cada memória acendia uma chama dentro de mim, alimentando o desejo de vivenciar tudo de novo, de mergulhar nas águas profundas desse amor que florescia entre nós.
As bochechas coradas eram uma rendição involuntária, um sinal óbvio do impacto que Ravi tinha sobre mim. Era como se meu rosto fosse um livro aberto, revelando a alegria e a excitação que eu sentia ao estar perto dele.
"Apenas três," ele diz colocando os ovos em uma das fatias de pão. "Eles limpam a casa e lavam a roupa."
"E quem cozinha?"
"Eu." Levanto as sobrancelhas surpreso, não esperando ouvir essa resposta. Ele olha para mim, sorrindo sem mostrar os dentes. "Você está surpresa."
"Hoje em dia, os homens não gostam de cozinhar. Neste século, eles continuam achando que é um dever exclusivo das mulheres."
"Eu não." Ele se senta na minha frente, servindo-se do que estava ali, o que para duas pessoas era comida suficiente. "E mesmo que eu não pensasse assim, não tenho esposa ou namorada para me obrigar a fazer isso."
"Você não tem porque não quer ou... porque não encontrou a pessoa que quer?"
"As duas coisas," ele diz sem nem pensar. "Não preciso de uma mulher tornando minha vida um inferno e cozinhando para mim." Ele suspira, segurando meu olhar. "Desculpe se você é essa mulher."
"Eu não sou." Dou uma boa mordida no pão, com meu estômago agradecido por algo sólido para digerir. "Não... estou tornando a vida de ninguém um inferno, muito menos cozinhando."
Ele apenas continua segurando meu olhar por alguns segundos, até desviar a atenção para o prato dele.
"E você é daqui da cidade?" Pisquei algumas vezes, pensando bem no que deveria responder. Eu não costumava sair por aí contando detalhes da minha vida para estranhos e não sentia que não tinha sido completamente honesta com Ravi, apenas omiti certos detalhes.
"Sim. Eu moro."
"E..." Ele suspira. "Você sempre coloca sua vida em perigo?"
Eu me mexo desconfortavelmente no banco.
"Foi um acidente."
"O carro eu sei, eu praticamente vi o acidente." Ele se inclina para frente. "Mas e os comprimidos?"
Automaticamente me lembro da conversa que tivemos antes de dormir. Da promessa que ele me forçou a fazer.
"Isso não vai acontecer de novo, Ravi," murmuro. "Eu não vou mais..." Minhas tentativas de suicídio tinham sido todas fracassadas, não havia mérito em nenhuma e eu duvidava que, se tentasse de novo, teria a mesma "sorte".
"Sinceramente?" Imediatamente olho para ele, me sentindo como uma criança ouvindo um sermão, já que pelo tom de voz dele, era isso que parecia. "Espero que ninguém mais faça o que eu fiz ontem." Respiro fundo, assentindo imediatamente. Dito isso, ele se levanta, saindo da cozinha e retornando no mesmo minuto com minha bolsa.
Agradeço com um breve sorriso, abrindo imediatamente minha bolsa em busca do meu celular. O sorriso lentamente desaparece do meu rosto quando noto que há vinte chamadas perdidas dele, além de mensagens. Acabei decidindo abrir uma das mensagens, o que fez ele perceber que eu estava online, ligando para mim imediatamente.
Hesitante, atendo a ligação, sem olhar diretamente para Ravi.
"Você não atendeu nenhuma das minhas ligações," ele acusa.
"Tive um problema com o carro," forço as palavras para fora da minha boca. "Depois acabei dormindo em um hotel." Minto.
"Por que não chamou o seguro?"
"Era tarde e... eu estava cansada."
Breve silêncio. Ravi se levanta, tirando a comida do balcão.
"Você tem trabalho. Já sabemos quem é o cara que estamos procurando."
"Acho que quero umas férias."
"Não," ele diz com uma voz firme. "Quero você nessa operação." Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele desliga. Jogo meu telefone de volta na bolsa, olhando para Ravi.
"Eu tenho que ir," murmuro.
"Eu percebi." Me levanto, ajudando-o com a tarefa. "Não precisa, eu consigo lidar com isso." Ele pega a margarina da minha mão, segurando meus dedos por uma fração de segundo. "Precisa de uma carona?"
Eu não sabia exatamente onde estava, consequentemente não saberia como sair dali.
"Agradeceria se me deixasse naquele posto."
"Vou pedir para eles fazerem isso."
Claro que ele não tiraria alguns minutos da vida dele só para ajudar a estranha a voltar para a vida dela, embora eu quisesse passar mais alguns minutos com ele antes de voltar à minha dura realidade, onde eu era uma policial disfarçada em operações, que ainda vivia com seus tios tóxicos.
