A Bolsa Que Roubaram Dela

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Noah · Atualizando · 12.1k Palavras

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Introdução

Livia Batista aprendeu cedo que papel nenhum e neutro quando passa pela mao certa. Como consultora da comissao de etica da OAB/SP, ela vive de conferir datas, assinaturas, anexos e pequenas mentiras que gente importante acha pequenas demais para serem notadas.

Quando Bianca Azevedo Prado, herdeira de uma das familias juridicas mais poderosas de Sao Paulo, copia um trecho de uma defensora publica para entrar num programa do Tribunal de Justica, Livia faz o que qualquer parecerista honesta faria: recomenda a desclassificacao.

O problema e que o erro de Bianca nao e novo. A virgula copiada, o ponto fora do lugar e a arrogancia da familia puxam um fio enterrado desde 1968, quando Amara Batista, avo de Livia, ganhou uma bolsa integral de Direito e perdeu tudo por uma acusacao sem assinatura.

Os Azevedo Prado dizem que abriram portas para quem merecia.

Livia tem cinco documentos para provar que eles roubaram a primeira porta.

Capítulo 1

Eu risquei o nome de Bianca Azevedo Prado antes de terminar o cafe.

Nao foi um gesto bonito. Nao teve tremor na mao, musica de fundo, nem aquela sensacao limpa de justica que as pessoas imaginam quando falam de etica em voz alta. Foi uma linha seca, feita com caneta preta, no campo em que eu deveria escrever: candidata apta.

Escrevi outra coisa.

Inapta por copia substancial sem atribuicao.

Depois acrescentei o detalhe que ia doer mais do que a palavra copia.

Reproduz inclusive erro de pontuacao constante no texto original.

Na tela do meu computador, o parecer da candidata brilhava em azul frio. Era uma das pecas do processo seletivo para o Programa Jovens Juristas do Tribunal de Justica, uma vitrine de estagio institucional que abria gabinete, recomendacao, foto em revista juridica e, para certas familias, mais uma moldura na parede. A OAB/SP analisava a parte de etica documental. Eu analisava documentos.

Bianca tinha enviado um ensaio sobre acesso a justica, linguagem simples e defensoria publica. Bonito, se fosse dela. O paragrafo mais forte vinha de um artigo publicado dois anos antes por uma defensora publica de Guarulhos. Ate o ponto e virgula torto estava la. Ate a quebra estranha antes de "portanto", que nenhum revisor deixaria passar duas vezes por acidente.

Eu abri o PDF original, depois o arquivo de Bianca, lado a lado. O mesmo folego. A mesma pausa. A mesma palavra "desassistida" usada como se fosse descoberta pessoal.

No rodape do ensaio, Bianca agradecia "a tradicao familiar de servico publico" e dizia que aprendera em casa a respeitar a palavra escrita. Aquilo me fez encostar na cadeira. Nao por ironia literaria. Por processo. Quem invoca etica como patrimonio costuma achar que a propria assinatura purifica o que vem antes dela.

Eu destaquei os trechos com amarelo. Depois destaquei de novo em rosa as partes copiadas com defeito. A tela parecia um laudo pequeno: ali, a frase original respirava; ali, a candidata tinha cortado a fonte; ali, a pontuacao errada denunciava a faca.

Rafael Reis apareceu na porta da minha sala com uma pasta contra o peito.

Ele tinha vinte e seis anos, olheiras de concurseiro e a mania util de desconfiar de impressoras. Trabalhava comigo havia um ano e ja entendia que, no nosso setor, uma folha fora de ordem era quase sempre uma confissao atrasada.

— De novo? — perguntou.

— De novo o que?

Ele olhou para o brasao discreto no cabecalho do processo.

— Sobrenome comprido.

Eu fechei a tampa da caneta.

— Sobrenome nao passa em comissao.

— Em tese.

Rafael nao sorriu. Ele sabia que eu odiava quando alguem dizia "em tese" dentro de um predio onde tese virava favor, favor virava despacho e despacho virava carreira.

Empurrei a copia impressa para ele.

— Confere as paginas 4 e 5. Quero print do original, link arquivado, hash do arquivo e ata interna de verificacao.

— Voce ja achou?

— Achei a frase. Quero o caminho inteiro.

Ele pegou as folhas, leu por alguns segundos e soltou o ar pelo nariz.

— Ela copiou ate a virgula depois de "exclusao".

— Nao. Copiou o erro. A virgula nem deveria estar ali.

Na mesa ao lado, uma pilha de processos esperava decisao. Filho de conselheiro que omitira advertencia, candidato que inventara atividade voluntaria, estagiaria que assinara declaracao pronta sem ler. Nada daquilo era novo. O que era novo era o sobrenome na capa e a maneira como meu corpo reconheceu perigo antes da minha cabeca admitir.

O silencio dele mudou. Havia silenciamentos comuns no trabalho: cansaco, prudencia, tedio. Aquele era outro. Era o silencio de quem acabava de perceber que gente rica tambem deixava digitais, so que esperava que ninguem tivesse coragem de recolher.

Meu telefone vibrou sobre a mesa. Primeiro uma notificacao de e-mail da secretaria da comissao. Depois outra, privada, com o nome que eu nao via desde um evento beneficente no Largo Sao Francisco.

Bianca Azevedo Prado.

Assunto: pequeno esclarecimento.

Eu nao abri.

Terminei o parecer. A linguagem precisava ser cirurgica, sem adjetivo que virasse munição contra mim. Nada de "desonesta". Nada de "fraudeira". Apenas fato, fonte, pagina, data, comparacao. Uma pessoa pode gritar contra opiniao. Contra datas, ela precisa gritar mais alto.

No rodape, escrevi que a recomendacao era pela exclusao da candidata e comunicacao ao orgao responsavel pelo edital. Salvei no sistema. Respirei uma vez.

Entao meu celular pessoal tocou.

Numero desconhecido. DDD 11. Eu deveria deixar cair. Era o que o manual nao escrito recomendava quando uma familia influente aparecia num processo ainda quente.

Atendi.

— Doutora Livia Batista? — A voz feminina vinha macia demais. — Aqui e Bianca Azevedo Prado. Espero nao estar incomodando.

Olhei para o nome dela riscado no papel.

— Se e sobre procedimento em analise, fale com a secretaria.

— Nao. E pessoal. Minha avo gostaria de convidar voce para almocar.

Meu estomago ficou duro.

Eu nao disse nada.

Bianca continuou, agora com uma doçura treinada:

— Dona Celina Prado leu seu nome. Ela acha que nossas familias tem uma historia antiga mal resolvida. Talvez seja a hora de conversar como mulheres civilizadas.

La fora, Rafael voltava pelo corredor com as copias na mao. No vidro da porta, vi meu proprio rosto: pele escura, cabelo preso baixo, blazer simples, a expressao de quem aprendeu a nao parecer surpresa diante de gente que comprava surpresa dos outros.

— Que historia? — perguntei.

Bianca riu baixo.

— A senhora sabe, doutora. Sua avo e a bolsa.

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