Capítulo 2: Planejamento
-Rogan-
A sala estava bem silenciosa enquanto eu me sentava de frente para minha noiva. Ela sustentou meu olhar com calma; a força do sangue que corria nas veias dela era evidente na firmeza daqueles olhos límpidos. Para muita gente era difícil encarar um alfa como eu, mas carregar o título de alfa não garantia, por si só, a presença necessária para intimidar. Meu poder vinha da força que eu tinha por dentro e do treinamento duro que enfrentei.
“Quer mais café?” Quem perguntou foi a mãe da minha noiva. As duas vinham de linhagens poderosas e tinham dinheiro mais do que suficiente para nunca precisar se preocupar com nada. O pai dela também estava ali. Aquilo era só um encontro formal para a gente se conhecer, e mesmo assim não tivemos um minuto a sós. Esse jeito antiquado era típico. Alfas, no geral, detestam mudanças.
“Sim, por favor”, eu disse, oferecendo à mãe dela um sorriso simpático, o que a fez corar.
Eu costumava causar esse efeito nas mulheres, embora raramente usasse isso a meu favor. Eu tinha coisas mais importantes para fazer do que me envolver em casos sem importância. Estendi a xícara enquanto ela me servia mais café, tentando quebrar aquele silêncio estranho e incômodo.
Esse encontro poderia ter avançado muito mais rápido se Julianna e eu tivéssemos tido a chance de trocar algumas palavras a sós, mas eu entendia o pai dela — mesmo sendo meu amigo — não permitiria. Ele só tinha a Julianna. Ele e a companheira dele não tinham conseguido ter outros filhos, e eu reconhecia o quanto ele era protetor.
“Você tem certeza de que vai conseguir acabar com essa guerra de uma vez por todas?”, Eric me perguntou.
Eu me virei para Eric e assenti. “Tenho”, eu disse.
“Vamos não falar de negócios”, a companheira dele interrompeu. “Não foi pra isso que viemos.”
“Isso aqui tudo é negócio, mãe”, Julianna respondeu.
A mãe dela olhou para ela, chocada — e eu também —, mas depois eu não consegui evitar um sorriso. Pelo visto, eu tinha subestimado a Julianna. Ela entendia aquela situação muito melhor do que eu tinha imaginado.
“Ela está certa”, eu concordei.
Ela se virou para mim, tão calma quanto sempre, e eu fiquei satisfeito em saber que teria uma luna ao meu lado que não só entendia a natureza da nossa união, como também a gravidade do que estava em jogo.
“Então, quando vai ser a cerimônia?”, ela perguntou.
Meu sorriso aumentou diante da confiança dela. “Daqui a uma semana, espero”, respondi, virando-me para o pai dela. “Ainda precisamos acertar alguns detalhes.”
Ele concordou com a cabeça.
“Então tá”, Julianna disse, surpreendendo todo mundo ao se levantar.
Com o cabelo longo, bem claro, quase branco, e os olhos azuis marcantes, ela estava deslumbrante num vestido preto que valorizava perfeitamente a silhueta fina. Mesmo assim, eu mantive o olhar firme, encarando os olhos dela, curioso com aquela decisão repentina de se pôr de pé.
“Se vocês só precisam resolver algumas coisas com o meu pai, então acredito que eu não sou mais necessária. A gente se vê daqui a uma semana”, ela disse.
E então ela simplesmente foi embora. Eu a acompanhei com o olhar, surpreso, percebendo que meu beta, Rhys, e meu terceiro no comando, Marcus, também observavam, igualmente chocados. Quando voltei o olhar para Eric e a companheira dele, vi os dois me encarando com preocupação, provavelmente achando que eu tinha me ofendido com o comportamento da filha deles. Na verdade, eu estava impressionado.
“Eu acho que ela não está errada”, eu ri baixinho.
“Peço desculpas, Alfa Rogan”, disse Eric.
Eu balancei a cabeça e fiz um gesto displicente com a mão. “Sua filha é esperta. Eu gosto disso.”
“Ela gosta de falar o que pensa”, ele respondeu.
“Mais um motivo pra admirar”, eu disse.
Ele pareceu se acalmar um pouco com minhas palavras, embora eu sentisse que ele temia que eu estivesse apenas tentando ser educado por causa da ligação que nossas alcateias logo teriam.
“Ela não vai agir com desrespeito de novo”, Eric me garantiu.
Eu apenas sorri. “Surpreendentemente, eu não me importo tanto.”
Ele me olhou, surpreso, mas eu mantive o sorriso. “A gente tem coisas mais importantes pra se preocupar.”
Ele assentiu, entendendo aonde eu queria chegar.
“Os caçadores têm ficado quietos ultimamente, mas eu sei que eles não vão continuar assim”, eu disse.
“Não, eles nunca continuam.” Uma expressão sombria tomou o rosto dele.
“Meu objetivo é capturar alguns desses caçadores e arrancar deles a localização de onde vêm”, declarei.
“Eles sempre carregam veneno”, Eric avisou.
“Eu sei, mas eu preciso de mais informação. A gente não tem os mesmos espiões que tinha antes”, expliquei.
Ele suspirou e esfregou os olhos, cansado. “Não, eu sei.”
“Precisamos localizar as bases deles. Temos que destruir tudo de uma vez por todas.”
“E como você quer fazer eles aparecerem?”, ele perguntou.
“A cerimônia.”
“Você quer arriscar tantas vidas, inclusive a da minha filha?”, ele questionou.
Eu balancei a cabeça. “Vai ser uma cerimônia pequena. A gente não vai fazer nada extravagante. Vamos manter nossos guerreiros escondidos e prontos pra atacar quando for necessário.”
Eric não pareceu gostar muito do meu plano, mas eu percebia que ele reconhecia que talvez fosse a nossa melhor opção.
“Ela é tudo o que eu tenho”, ele disse.
“E eu vou garantir que ela fique segura”, eu assegurei.
“A gente não sabe quantos eles podem mandar.”
“Eles operam em grupos menores pra se manterem ocultos. Eles entendem que a gente tem vantagem no combate corpo a corpo. Se mandarem um grupo grande, a gente vai perceber rápido demais, e eles vão perder.”
“E se eles tiverem mudado de tática?”, ele rebateu. “Faz um ano que a gente não enfrenta um ataque grande deles.”
“Eles não mudaram. Gente como os caçadores é incapaz de se adaptar.”
Eric não pareceu totalmente convencido, mas por fim assentiu. “Então tá. Vamos nos encontrar de novo amanhã pra montar um plano de verdade.”
Eu assenti. “Como você quiser. Você sabe onde me encontrar.”
Ele assentiu de volta, e nós dois nos levantamos para apertar as mãos. Em seguida, eu fiz um leve aceno de cabeça para a companheira dele, respeitando os limites não ditos. Alfas eram muito territoriais com suas companheiras, e tocá-las sem permissão era um bom jeito de perder uma mão ou… um coração.
Eu fiz um gesto no ar, sinalizando para o meu beta e para o terceiro no comando me seguirem, e começamos a sair da casa. No entanto, quando pisamos na varanda, uma luz estranha chamou minha atenção. Eu pisquei, confuso, antes de perceber que havia um ponto vermelho no meu peito.
“Alfa!”
