Capítulo 3: Atacando
-Serena-
A gente não podia simplesmente pular pelas janelas e atacar todo mundo dentro da casa. Meu grupo era composto por seis pessoas, contando comigo, e uma das primeiras coisas que ensinaram no treinamento foi que entrar em combate corpo a corpo com um lobisomem macho, adulto e no auge, era caminho certo pra morte. Então a gente precisava ser mais esperto.
Minha equipe estava espalhada ao redor da casa, cada um mantendo o alvo na mira. Com os fones no ouvido, a gente conseguia manter comunicação constante.
“A gente atira?”
Vince estava do outro lado da casa, com uma visão melhor do Rogan do que eu. Eu estava empoleirada numa árvore, do lado de fora do muro que cercava a mansão, enquanto o resto do time estava no chão ou em árvores como a minha, buscando os melhores pontos de observação.
“Não”, respondi.
“A gente mata ele!”
“Espera”, eu disse, continuando a observar as pessoas lá dentro.
Alguém serviu uma bebida pro Rogan, e a conversa continuou. Logo, a futura esposa dele — ou companheira, como eles chamavam — se levantou. Ela pareceu dispensar todo mundo e foi embora. Mantive os olhos no Rogan, que continuava falando com o Eric, com uma calma irritante.
“Agora?”
“Não, 121. Espera.”
“Por quê?” ele perguntou, com uma pontinha de impaciência na voz.
“Porque eu não vou arriscar você acertar o errado”, rosnei de volta.
“Eu sou o melhor atirador.”
“Espera até ter uma visão limpa dele.”
Eu sabia que o Vince era o nosso melhor atirador, mas ele também tinha a paciência de uma criança. Balancei a cabeça, sem tirar os olhos do Rogan. Pouco depois, ele e o Eric se levantaram e apertaram as mãos, antes de o Rogan seguir pra dentro da casa.
“Fica pronto, 121. Ele vai sair.”
“Até que enfim!”
Eu vi o Vince saltar da árvore e correr pra um lugar melhor, pra ter uma visão mais clara. Tirei meus óculos de visão e desci da árvore, pegando uma das minhas armas enquanto contornava a casa até chegar ao portão. Dei uma olhada por ele. Vince agora estava do outro lado do muro, tendo usado a árvore pra pular. Ele se escondia atrás de uma estátua no jardim da frente.
Peguei um movimento pelo canto do olho e virei a cabeça, vendo a Elisa mexendo no sistema de senha do portão. Ela piscou pra mim e, logo em seguida, o portão se abriu, exatamente quando nosso alvo pôs o pé pra fora. Vince mirou, e eu vi que ele tinha o Rogan exatamente onde queria, mas, no instante em que ele atirou, um dos homens do Rogan o empurrou, fazendo os dois caírem com tudo em cima do nosso alvo errado.
“Merda!”, eu gritei. “121!”
O Vince precisava sair dali. Mesmo que ele tivesse acertado um deles, os outros dois — incluindo o Rogan — já estavam se levantando, com os olhos brilhando naquele amarelo perigoso que significava que estavam com sede de sangue. O olhar do Rogan encontrou o Vince no escuro rapidinho, e ele puxou a própria arma. Apesar de serem animais, eles adoravam armas e estavam mais do que dispostos a usar aquilo contra a gente.
Eu atirei antes que o Rogan pudesse disparar, acertando o braço dele no exato momento em que ele buscava cobertura, abrindo a porta da casa e arrastando o homem ferido pra dentro. Enquanto isso, o outro companheiro deles abriu fogo contra nós.
“121!”, eu berrei.
“Comandante, e agora?”, a Elisa gritou.
Olhei pra ela enquanto as balas zuniam ao nosso redor. “Carro! Vai! Eu vou pegar o 121”, ordenei.
A Elisa assentiu e disparou na direção do outro carro. Usei meu relógio pra mandar a mesma mensagem pro resto da equipe: a gente precisava sair daqui. Esperei o tiroteio dar uma trégua antes de começar a revidar, ganhando uma chance de chegar até onde eu tinha visto o Vince pela última vez. Encontrei ele caído de bruços na grama, envolto na escuridão. Quando eu o virei, vi sangue escorrendo de um ferimento no peito.
“121?”
Encostei dois dedos no pescoço dele, mas não tinha pulso. “Merda!”, eu gritei.
Naquele exato momento, mais tiros passaram zunindo por mim, lascando a estátua ao nosso lado. Eu me encolhi, feita uma bola apertada, esperando o tiroteio parar. Quando finalmente parou, reagi atirando, mas percebi que reforços tinham chegado para ajudar Rogan. Agora eu estava em desvantagem absurda. Parei de atirar e voltei a me esconder. Eu tinha outra arma e duas facas, mas não adiantariam muito contra tanta gente. Com aquele número todo, eu me senti praticamente morta.
— Sai daí, caçadorazinha. Você não vai conseguir se esconder.
Era Rogan, me provocando, e eu mordi com força a parte de dentro da bochecha. Eu nunca me renderia.
— Você não vai sair viva de qualquer jeito — ele acrescentou.
Ele não estava errado. Pressionei três dedos num bolsinho pequeno no meu peito e puxei uma pílula minúscula. Era veneno, acabaria comigo em segundos — melhor do que o destino de ser capturada. Mas, se eu fosse cair, eles também iam. Coloquei a pílula na boca, mas não a mordi para liberar o veneno. Em vez disso, deixei-a bem guardada debaixo da língua e peguei minha outra arma, uma em cada mão.
— Queria poder dizer que foi divertido, mundo — sussurrei. — Mas não foi.
Saí de trás da estátua, atirando na direção deles. Todos procuraram cobertura enquanto eu continuava disparando. O portão não estava muito longe, e comecei a avançar na direção dele, sabendo que eu podia ficar sem munição antes de alcançar algum lugar seguro. Mesmo assim, fui em frente, esvaziando rápido a primeira arma, sem tirar os olhos dos inimigos à minha frente. Depois esvaziei a outra e, assim que ouviram o clique da câmara vazia, eles se aprontaram. Eu me virei no instante em que os tiros recomeçaram, me jogando em direção ao portão, mas levei um disparo na lateral. Caí com força no chão, rastejando como soldado para trás da parede antes de, por fim, conseguir me pôr de pé.
Eu manquei adiante, pressionando a mão contra o ferimento, tentando alcançar o carro que tínhamos deixado mais afastado. Eles não iam esperar muito por mim. Eu só tinha alguns minutos antes de não haver ajuda nenhuma. Continuei mancando, mas, quando os tiros voltaram a zunir ao meu redor, senti uma dor aguda no ombro antes que eu conseguisse me abrigar atrás de um carro. Tropecei e caí de barriga no chão de novo. A dor era cegante, e eu lutei para manter o foco. Fiquei ali, ofegando, tentando puxar ar.
Eu precisava morder a pílula. Era o único pensamento claro na minha cabeça. Devagar, movi a pílula para a posição certa, pronta para mordê-la, quando, de repente, alguém me agarrou pelo pescoço e me puxou para trás. Dedos forçaram minha boca, arrancando uma dor aguda, e eu vi de relance a pílula se afastando, caindo longe de mim.
Não...
Fui empurrada contra o chão, gemendo alto, e então vi um par de botas pretas à minha frente. Deixei o olhar subir das botas para as pernas, até finalmente parar em olhos verde-escuros me observando. Um sorriso sombrio se abriu nos lábios de Rogan, mas, logo em seguida, o sorriso sumiu tão de repente que me deixou confusa. Ele se agachou diante de mim, me analisando de um jeito que eu não conseguia entender. Então, sem aviso, ele agarrou meu cabelo e puxou minha cabeça para trás.
Rogan aproximou o rosto, prendendo os olhos nos meus. Eu mal conseguia sentir a dor no couro cabeludo, abafada pela sensação de queimação na lateral direita e no ombro. Parecia fogo puro correndo pelas minhas veias, me deixando tonta e incapaz de focar em Rogan. Ele estava borrado, e eu soube que estava prestes a perder a consciência.
— Você não vai morrer — eu o ouvi dizer, embora a voz dele soasse quase como um eco.
— Alfa, o que você quer fazer com ela? — perguntou outra voz.
Rogan me soltou e se levantou enquanto eu ficava ali, começando a me apagar aos poucos, ouvindo as vozes deles.
— Vamos levar ela pro Martin. Ele dá um jeito nela.
Não, eu vou estar morta antes que me levem até alguém. O pensamento me trouxe um conforto estranho, bem antes de eu ser erguida do chão.
