Capítulo 5: Quer rejeitá-la

-Serena-

Eu tinha ouvido dizer que Rogan Cane era poderoso, inteligente, ardiloso e forte. Então eu nunca pensei que ele tivesse dificuldade para falar, mas era como se ele fosse um disco riscado, preso num looping. Eu não entendia, e então ele simplesmente sumiu. Pra onde diabos ele tá indo? E por que diabos eu me importei? Eu precisava sair daqui! Puxei as amarras, mas elas não cederam. Provavelmente eram fortes o bastante pra conter um lobisomem, o que dizia muita coisa.

—Anda! —rosnei, puxando de novo.

Eu até tentei me inclinar mais perto de uma das amarras pra usar os dentes, mas não conseguia me dobrar o bastante, porque elas me mantinham firmemente no lugar.

—Porra!

Eu precisava sair daqui, mas como?

-Rogan-

—O quê? —rosnei quando cheguei longe o suficiente daquele quartinho de enfermaria do caçador.

Nós não vamos rejeitar ela.

—Vamos, sim! Você esqueceu quem ela é? —retrucquei, cruzando os braços.

Eu conseguia ver meu lobo andando de um lado pro outro na minha mente, balançando a cabeça em desaprovação. Eu também não podia dizer que estava muito satisfeito com ele.

Eu sei quem ela é.

—Então vamos acabar com isso.

Ele balançou a cabeça de novo e soltou um rosnado que fez meus ouvidos zumbirem. Esperei um momento, mexendo levemente a cabeça, até o zumbido passar.

—Não faz essa merda de novo!

Então não rejeita ela!

—Ela é a inimiga!

Ela é a nossa companheira.

Eu quase ri, porque isso era absurdo. Ele não percebia que ela e eu nunca íamos encontrar um ponto em comum?

—Ela não passa de uma puta dor de cabeça pra gente! —disparei.

Ele rosnou pra mim de novo, mas não alto o suficiente pra fazer meus ouvidos zumbirem.

Talvez você queira enlouquecer, mas eu não.

—Não tem garantia nenhuma disso —eu disse.

Ir contra a Deusa sempre tem consequências. Ela não é uma mulher que perdoa.

—Não me diga —murmurei.

Passou pela sua cabeça, enquanto a gente observava ela, que pode haver um motivo pra ela ser nossa?

—Nossa, não sua —corrigi, deixando claro que eu não ia permitir que ele ficasse possessivo com ela.

Responde a minha pergunta.

Ele claramente discordava de mim e não se importava se eu aceitava ela ou não.

—Ela pode ser um teste —sugeri.

Um teste pra ver se a gente é mesmo digno de ser líder.

—Ou um teste pra ver se a gente é leal à nossa espécie.

Ele bufou, claramente irritado com o jeito que eu estava distorcendo as coisas, mas eu simplesmente não conseguia enxergar pelo ponto de vista dele. Os caçadores quase tinham levado a gente à extinção.

Ninguém questiona a nossa lealdade.

—Ou talvez a Deusa questione —rebati.

Talvez ela queira ver se a gente consegue julgar com justiça.

—Não me diga que você tá mesmo pensando em conhecer ela —falei, e as palavras soaram absurdas até pros meus próprios ouvidos.

Ela é a nossa companheira. Ela merece mais. Ela merece uma chance de mudar.

—Mudar? —eu gritei. —Não!

Por que não?

—Você realmente acha que ela teria feito o mesmo? Ela tava lá pra matar a gente! —rosnei.

Então vamos ser melhores do que ela.

“Desde quando ser a pessoa madura ficou tão importante pra você? Não é a primeira vez que a gente precisa decidir o destino de um caçador, e no passado a gente sempre concordou sobre o que fazer com eles”, eu disse.

E os que nos ajudaram?

Fiquei em silêncio com a pergunta dele.

Eles arriscaram a vida.

Suspirei e esfreguei os olhos. “Isso foi há dez anos”, eu disse.

Talvez a gente tenha a chance de mudar isso desta vez. Como nossa companheira, ela merece uma oportunidade.

Balancei a cabeça, já sabendo que ele não ia me deixar rejeitá-la sem que eu tentasse de verdade.

Eles podem mudar. A gente já viu isso.

Eu assenti. A gente tinha visto. Foi graças àqueles caçadores que a gente sequer soube onde atacar. Eu era jovem naquela época — tinha só vinte e três anos. Talvez eu tivesse ficado mais frio com o passar dos anos, menos disposto a perdoar. Mas dava pra me culpar?

“Eu…”

Ela é jovem, fácil de manipular. Vamos pelo menos tentar.

O relógio de identificação dela mostrava a idade: vinte e quatro. Talvez eu tivesse sido injusto em julgá-la tão rápido, mas como não ser? Eu vi o ódio nos olhos dela, o deboche.

Ela não sente como a gente. Ela não sabe o quanto a gente é importante pra ela. Dê tempo. Ela vai perceber.

Com humanos era diferente quando escolhiam seus parceiros. Eles podiam perder os sentimentos com facilidade e escolher outra pessoa. Lobos não podiam.

“Acho que a gente está perdendo tempo”, eu disse.

Eu estou disposto a provar que você está errado.

“Claro que está, porque isso significa mais tempo com a mulher que você considera nossa companheira.”

Ele quase pareceu sorrir. Talvez a gente não tenha uma segunda chance se rejeitar ela.

Não, segundas chances geralmente eram pra quem tinha perdido sua companheira de um jeito infeliz — acidentes terríveis ou morte. Rejeitar a própria companheira raramente rendia uma segunda chance, a não ser que a primeira tivesse sido abusiva ou horrível de alguma forma.

E então?

“Nós escolhemos nossa companheira”, eu disse. “A gente precisa cumprir nossa promessa.”

As coisas mudaram.

“Como é que eu vou explicar isso pro Eric?”, perguntei.

Seja honesto.

“Mais fácil falar do que fazer”, suspirei, esfregando os olhos de novo pra aliviar a dor de cabeça que só piorava.

Ele vai entender.

“Não, ninguém vai. Não com uma caçadora”, eu disse.

Dê um tempo pra ela.

“Eu não posso… me desculpa.”

Rogan!

Eu o bloqueei com uma muralha mental, tentando me isolar da voz dele o máximo que eu conseguia. Eu sabia que não ia durar muito, mas talvez fosse tempo suficiente pra eu rejeitar a caçadorazinha. Voltei furioso pro quarto dela, mas, quando cheguei, encontrei uma enfermeira desmaiada no chão e a cama vazia.

Corri até a enfermeira pra ver se ela estava viva. Estava. Então vasculhei o quarto com os olhos e percebi uma janela aberta mais adiante. Fui até ela depressa, mas não consegui ver a caçadorazinha. Eu sentia o cheiro dela ainda no ar, mas, se ela já tivesse ido longe demais, a floresta que ela escolheu pra se esconder ia mascarar tudo.

“Você não vai longe”, eu sussurrei, antes de pular pela janela e ir atrás dela.

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