Capítulo 1 Feliz aniversário, Coelinha

Bruna Marques

Acordei com o sol batendo direto no meu rosto, atravessando a cortina que nunca fechava direito. Revirei os olhos, ainda meio sonolenta e suspirei, me esticando na cama com preguiça. Hoje não era um dia qualquer. Era o meu aniversário de 18 anos.

Fiquei alguns segundos olhando para o teto e me lembrei dos meus doze anos, de quando senti o chão desaparecer sob meus pés. Meus pais morreram em um acidente de carro em uma noite chuvosa e, de repente, perdi o riso fácil, a leveza de cada dia e a liberdade que sempre conhecera.

Passei a morar em um condomínio fechado, um dos mais caros da cidade. Ruas largas, portões altos. Todo aquele luxo só me fazia sentir mais sozinha, mais deslocada.

A única pessoa da família que podia cuidar de mim era a tia Vera, e Miguel, o marido dela. Conservador até doer, acreditava que uma moça deveria ser invisível, muda e sem vontade própria.

Miguel tinha uma lista mental do que uma "jovem decente" deveria ser: não podia me exibir, não podia levantar a voz, mesmo quando tinha razão. Não podia questionar, jamais. Era como se ele quisesse me transformar numa boneca de porcelana, linda de se ver, mas sem vida própria.

E a pior parte? A proibição total de sair sozinha. Desde que cheguei lá, virei praticamente uma prisioneira. Cada saída precisava ser negociada, justificada, supervisionada. Amigos? Que amigos? As tardes se arrastavam entre tarefas domésticas, livros aprovados por Miguel e um silêncio que pesava nos ombros como chumbo.

Com o tempo, aprendi a aceitar. Não porque quisesse, mas porque lutar já não fazia sentido. Aquela casa, com suas regras sufocantes e seus olhares duros, era o único abrigo que me restava.

Joguei as cobertas para o lado e levantei. Peguei uma toalha, prendi o cabelo num coque malfeito e fui direto para o banheiro.

O espelho me mostrou uma versão meio amassada de mim mesma: olhos inchados, marcas do travesseiro no rosto. Ri sozinha e liguei o chuveiro. A água demorou para esquentar, então deixei cair um pouco da fria mesmo. Arrepiei dos pés à cabeça, mas era bom, ajudava a acordar de vez.

Entrei no box e fechei a porta de vidro, sentindo o vapor começar a se formar. Passei as mãos pelo rosto, deixando a água escorrer pelos ombros.

Depois do banho, enrolei a toalha no corpo, fui até o guarda-roupa, abri a porta e peguei o vestido rosa de alcinhas com flores azuis que estava pendurado no cabide, o meu preferido.

Quando me olhei no espelho, ajeitando as alcinhas sobre os ombros, vi que em cima da penteadeira havia uma caixa toda embrulhada em papel perolado, com um laço de cetim cor-de-rosa. Me aproximei e toquei a caixa. A superfície era lisa e brilhante. Com cuidado, desfiz o laço. O papel deslizou fácil, revelando outra caixinha menor, de veludo branco. Respirei fundo antes de abrir e, quando levantei a tampa, meus olhos brilharam.

Lá dentro, repousava uma pulseira de prata, tão polida que refletia a luz do quarto em pequenos brilhos prateados. Era delicada, de elos finos e trabalhados, mas o que realmente chamava atenção eram os três pingentes pendurados nela: C, P e L. Cada letra era cravejada com minúsculas pedrinhas de cristal, cintilando a cada movimento.

Passei os dedos devagar pelos pingentes, tentando adivinhar o significado daquelas letras. Então vi um pequeno envelope branco ao lado da caixa. Senti o coração bater mais rápido. Peguei-o com as mãos trêmulas e abri. A caligrafia firme e inclinada me fez prender a respiração:

"FELIZ ANIVERSÁRIO, COELHINHA. EM BREVE VOCÊ SERÁ NOSSA. NOSSA PARA PERTENCER. NOSSA PARA AMAR."

Meu corpo inteiro estremeceu. “Coelhinha”. Só três pessoas me chamavam assim: Caio, Patrick e Luan. Meus vizinhos.

Os irmãos Silva Rocha. Ah, esses sim faziam tio Miguel perder o sono! Moravam na casa mais bonita e cara do lugar, viviam sozinhos e transformavam as noites de sexta numa festa que fazia o condomínio inteiro se irritar. Os vizinhos reclamavam, mas nunca dava em nada; dinheiro tem dessas magias. Tio Miguel os chamava de "demônios".

Sou apaixonada por eles desde os quinze anos. Três idiotas bonitos, charmosos e completamente mulherengos.

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