Capítulo 2 Liberdade
Foi numa dessas sextas que tudo mudou. Estava no portão com Lulu, a cachorrinha da família, quando o ronco das motos rasgou o ar. Três máquinas potentes, reluzentes, com três figuras que pareciam ter saído de um filme. Lulu, claro, disparou em direção a eles, latindo como se fosse a dona do pedaço. Quase tive um infarto. A cachorrinha correndo no meio da rua, eu gritando o nome dela, e os três motoqueiros diminuindo a velocidade. Um deles desceu da moto e, quando tirou o capacete, o mundo meio que parou. Cabelos loiros que brilhavam, olhos claros, era de tirar o fôlego. Pegou Lulu com um cuidado que não esperava, fazendo carinho na cabeça dela como se fosse um velho amigo.
— Calma, garota — disse, caminhando em minha direção com Lulu nos braços.
Consegui apenas estender os braços para receber a cachorra. Nossos dedos se tocaram no momento da "troca", e juro que senti uma corrente elétrica subir pelo braço.
— Obrigada — murmurei, baixando os olhos porque olhar diretamente para ele estava sendo impossível.
— De nada, coelhinha — disse o loiro, colocando o capacete de volta.
O apelido saiu tão natural que senti o rosto pegar fogo na mesma hora.
Percebi os outros dois: o ruivo tinha um sorriso travesso e olhos verdes, enquanto o moreno observava tudo com uma expressão mais séria, mas igualmente atraente. Todos pareciam saídos de uma revista, com seus cabelos bagunçados pelo vento e aquele ar de quem não pedia permissão para nada.
Eles subiram nas motos, aceleraram em direção à casa deles, me deixando parada feito uma estátua. Lulu se mexeu nos meus braços, me trazendo de volta à realidade, mas meu coração ainda disparava como se tivesse corrido uma maratona.
Eu sabia que eles não prestavam, todo mundo sabia. Viviam cercados de garotas diferentes, sempre rindo, sempre conquistando. Mesmo assim, bastava ouvir aquele “Coelhinha” para eu derreter por dentro.
Fiquei olhando o bilhete por alguns segundos, sem saber se ria, se assustava ou se achava tudo aquilo uma loucura. “Ser deles?” O que eles queriam dizer com isso?
Antes que pudesse pensar mais, uma batida seca soou na porta.
— Bruna? — era a voz da minha tia.
— Já vou! — respondi rápido, escondendo o bilhete dentro da gaveta da penteadeira.
A porta se abriu devagar. Minha tia apareceu com aquele sorriso doce de sempre, e atrás dela, meu tio Miguel, sério como sempre, com o olhar firme e a postura rígida.
— Feliz aniversário, querida — disse minha tia, me abraçando com carinho.
Quando nos afastamos, percebi que o tio Miguel me observava com aquele olhar atento, quase avaliador. Seus olhos logo pararam na pulseira.
— Quem te deu isso? — perguntou, a voz grave soando quase como uma ordem.
Olhei para o pulso e depois para ele.
— Eu… não sei, tio. Quando saí do banho, encontrei a caixa em cima da penteadeira.
— Não sabe? — ele arqueou as sobrancelhas. — Nada aparece do nada, Bruna.
Minha tia tentou amenizar, tocando o braço dele.
— Miguel, não assuste a menina. Hoje é o aniversário dela.
Ele soltou um suspiro, mas não desviou os olhos de mim.
— Não estou assustando. Só estou dizendo para ter cuidado. Presentes assim raramente vêm sem intenção.
Fiquei ali, sem saber o que responder. A pulseira parecia mais pesada agora.
— É só uma pulseira, tio — murmurei, tentando parecer despreocupada.
Ele inclinou um pouco a cabeça, pensativo, mas não insistiu.
— Que assim seja — disse por fim, num tom seco. — Só não esqueça: o mundo não é tão inocente quanto parece.
Minha tia segurou minhas mãos e sorriu de um jeito que aliviou o clima.
— Esquece isso, querida. É o seu dia. Temos um bolo esperando lá embaixo.
Assenti, ainda com o coração apertado.
Assim que eles saíram, sentei-me na beira da cama. O tecido leve do vestido rosa se acomodou na pele, e a pulseira reluzia sob a luz suave do quarto. Toquei de novo as três letras. C, P e L. Um arrepio percorreu meu braço. Era medo, curiosidade ou… expectativa? Nem eu sabia dizer.
Respirei fundo e desci as escadas. O cheiro de bolo recém-assado tomou conta do ar. Minha tia estava sorridente, e tio Miguel, sentado à mesa, observava em silêncio, como sempre.
Sobre a mesa, um bolo simples de frutas e um copo de água me esperavam.
— Parabéns pra você, nesta data querida… — começaram a cantar. Minha tia empolgada, e ele acompanhando num tom mais contido.
Senti um calor bom no peito. Por um momento, tudo parecia normal.
— Obrigada — disse baixinho, sorrindo.
— Faz um pedido, querida — disse minha tia, aproximando a vela acesa.
Fechei os olhos. Senti o calor da chama e o peso do que eu queria.
“Liberdade.” Foi o que pedi em silêncio.
Soprei a vela. A chama se apagou, e um fio de fumaça subiu devagar, dançando no ar, leve, como se carregasse meu desejo junto com ela
