Capítulo 1
ZURI
Hoje eu completei dezoito anos e, em vez de encher a cara de bolo e guloseimas, decidi trocar isso por um olho roxo e o lábio cortado. Perfeito.
— De novo! — rosnei, circulando meu oponente, um guerreiro parrudo duas vezes maior do que eu e com metade da minha inteligência.
Kevi sorriu por entre os dentes ensanguentados.
— Tem certeza, aniversariante?
Dei uma cotovelada nas costelas dele.
— Para de me chamar assim e luta.
Eu preferia estar aqui, no meio de suor e hematomas, onde eu não precisava sorrir, fazer reverência nem pensar no futuro sendo me passado adiante como uma bebida envenenada numa taça de prata. Abaixei, varri as pernas de Kevi e o joguei de costas com um baque satisfatório. Rapidamente, montei nele.
— Morto — declarei, apoiando uma mão no peito dele, estendendo minhas garras até o pescoço.
A pequena plateia riu. Estendi a mão para ajudá-lo a se levantar, mas o momento foi arruinado pela voz estridente e gelada que congelava o sangue mais rápido do que qualquer mordida de renegado.
— Zuri Yiva Elowen!
Minha mãe estava na beira do fosso, com a expressão de quem acabara de flagrar alguém profanando um altar. Vestida de sedas e joias, Luna Eloise se portava com a mesma medida de realeza e reprovação.
— O que significa isso? — ela sibilou. — Lutando? No dia da sua cerimônia de noivado?
Aquela palavra me atingiu com mais força do que qualquer golpe. Noivado. Uma gaiola dourada disfarçada de destino. Eu preferia beber veneno a pronunciá-la.
Fallon, minha loba, se mexeu dentro de mim, a voz dela um ronco baixo na minha mente. “Talvez não seja a maldição que você acha. Um companheiro poderia destrancar o que precisamos. Poder. União. Uma chance real de defender a matilha.”
“Defender eles dele?”, perguntei. “Do próprio monstro a quem estão nos entregando?”
Ela não respondeu. Talvez não quisesse. Eu nunca conheci o Alfa Torin, mas as histórias sobre ele eram horríveis demais para terem sido inventadas. Ele não mostrava misericórdia em aspecto nenhum da vida. Certa vez, decapitou um servo por derramar vinho na mesa dele. Não era de admirar que tivesse trinta e cinco anos e não tivesse companheira. Se eu fosse a companheira dele, eu correria como o diabo. Eu preferia virar renegada a ficar presa a um tirano. Infelizmente, não era uma escolha minha — mas isso não significava que eu não pudesse mostrar o quanto aquilo me deixava infeliz.
— Tecnicamente, ainda é meu aniversário, então eu posso lutar se eu quiser.
Minha mãe ignorou a piada.
— E se o Alfa Torin tivesse chegado mais cedo? O que ele teria pensado ao ver a noiva dele rolando na terra como um vira-lata qualquer?
— Espero — eu disse, seca — que ela não seja alguém que ele consiga pisar.
A mandíbula de Luna Eloise se contraiu.
— A força de uma mulher está na graça, não nos punhos.
— Diz isso para os meus oponentes.
Minha mãe agarrou meu braço.
— Chega de esperteza. Venha. Temos mal uma hora para fazer você ficar apresentável.
Tentei resistir, mas o aperto da minha mãe era enganosamente forte.
— Não discuta comigo. Você vai fazer isso. Vai vestir o vestido. Vai sorrir. E vai se lembrar de que a decisão do seu pai é final. Nós precisamos dessa aliança.
Minha voz baixou.
— Não, ele precisa dessa aliança. Eu só sou, por acaso, o sacrifício.
Os dedos da minha mãe se fecharam ainda mais.
— Chega. Não vamos ter um dos seus surtos hoje. O dever de uma mulher é servir à matilha, não desafiar seu Alfa.
Arranquei meu braço.
— Talvez, se mais mulheres desafiassem seus Alfas, a gente não estaria desfilando garotas na frente de tiranos sedentos de sangue como se fosse época de acasalamento num mercado de carne.
Houve um momento de silêncio — espesso, tenso e glorioso. Até o vento pareceu parar, incrédulo.
Minha mãe esfregou as têmporas, resmungando baixinho.
— Eu disse ao seu pai para não deixar você ler todos aqueles livros e assistir aos guerreiros treinarem.
Ela se virou para mim.
— Vamos falar da sua atitude depois. Agora, você vai tomar banho, vestir o que eu separei e se comportar.
Eu funguei, com desdém.
— Se esse vestido for rosa e cheio de laços, eu vou botar fogo nele.
Minha mãe virou-se nos calcanhares.
— Você vai fazer o que esperam.
E, assim, minha manhã de treino e controle foi arrancada de mim, substituída por rendas e expectativas. Deram-me banho como se eu estivesse sendo preparada para o enterro. De certo modo, parecia mesmo mais um funeral. A morte da Zuri de pensamentos livres e armas na mão, e o nascimento de uma máquina submissa de reprodução.
A mando da minha mãe, as atendentes esfregaram e se desdobraram em cuidados, puxando meu cabelo com força demais, resmungando sobre os hematomas que estavam demorando a sarar. Como se hematomas fossem motivo de vergonha. Eu tinha conquistado cada um deles. Fiquei diante do espelho, mal me reconhecendo.
Minha pele, de um castanho profundo e rico, brilhava sob camadas de óleos e purpurina que minha mãe insistia que me deixavam mais “mulher” e “apresentável”. Meu afro tinha sido torcido num intrincado coroado de cachos, enfeitado com finas presilhas de prata — elegante, régio e sufocante. O vestido cintilava como ônix molhado, escorrendo sobre as curvas das minhas coxas grossas e abrindo sutilmente na barra. Era lindo. E não era eu.
— Deslumbrante — disse minha mãe, radiante como se tivesse ganhado alguma coisa. — O Alfa Torin não vai saber o que o atingiu.
— Rezo para que seja uma espada — murmurei.
Minha mãe me ignorou e ajustou uma corrente de ouro que repousava logo acima da minha clavícula, o pingente em forma do brasão da nossa matilha. Um símbolo de lealdade. De legado. De coleira.
— Eu sei que você não gosta disso — disse minha mãe, a voz suave pela primeira vez naquele dia. — Mas você parece o que precisa parecer. Isso importa.
Minha mãe me encarou pelo espelho. Havia hesitação não só nos olhos, mas nas mãos, que pareciam tremer.
— Só lembre que isso é bom para a matilha.
Um sino soou do pátio — longo, grave e cerimonial.
— Ele chegou — sussurrou minha mãe, a mão demorando no meu ombro como uma marca a ferro.
Eu me virei, afastando-me do espelho.
Que o espetáculo comece.
A multidão reunida silenciou quando a caravana do Alfa Torin entrou — carruagens negras puxadas por monstros de pelagem branca, com dentes demais e coleira de menos. Os guardas dele desmontaram primeiro, a armadura tinindo, os olhos frios. E então Torin apareceu. Ele era…
— Lindo — eu e Fallon dissemos ao mesmo tempo. Eu rapidamente esfreguei o rosto para apagar o ardor nas bochechas antes que eu me denunciasse.
Ele era alto, bonito de um jeito “com certeza já matou alguém por espirrar”. O cabelo era longo e prateado, como se o sangue dele tivesse nascido já morto. Vestia couro preto e uma pele de lobo que ainda tinha os olhos presos. Sutil. Ele sorriu, e a multidão soltou o ar, aliviada. Ninguém morreu. Ainda.
Eu não consegui evitar admirar a maneira como ele se portava ao se aproximar. O poder, a aura. Eu me derreteria se isso combinasse comigo.
— Ele é forte — murmurou Fallon. — Ele poderia nos deixar mais fortes.
— Ele poderia nos deixar mortas — retruquei. — Você acha que acasalar com um psicopata é algum tipo de ascensão?
— Eu acho que é sobrevivência — ela disse. — Ele pode ser a chave para destrancar o que nós somos. O que fomos feitos para ser.
— Nos acorrentando a ele?
— Não é uma corrente — respondeu Fallon, baixinho. — É um vínculo. E já está começando.
Meu estômago se revirou. Não de medo, nem de ódio — mas de algo pior. Algo quase como esperança.
— Você quer ele — percebi. — Você quer isso de verdade.
— Eu quero força — ela rosnou. — Eu quero proteger o que importa. Você quer botar tudo abaixo, mas cinzas não vão salvar o nosso povo.
— E se ajoelhar também não.
Fallon se calou, mas eu senti o olhar dela em mim. Esperando. Meu pai o recebeu com pressa, e o jeito como os olhos de Torin varreram o lugar foi como o de um predador olhando de cima para a presa. Então ele olhou para mim.
O rosto dele se iluminou. Não com gentileza — havia algo mais… possessivo no modo como o olhar dele deslizou sobre mim. Como se eu já fosse dele.
— Lady Zuri — ele chamou, naquela voz baixa e teatral que fazia bardos suspirarem e inimigos esvaziarem as entranhas. — Você é mais radiante do que eu imaginei.
— Não se acostume — respondi, tentando aliviar o clima. — Eu só me arrumo uma vez por ano.
— Zuri — alertaram meu pai e minha mãe, ao mesmo tempo.
Torin soltou uma risada baixa.
— E feliz aniversário também. — Ele se inclinou para beijar minha mão. Foi… língua?
Eu o encarei, sem saber se eu devia fazer uma reverência, uma mesura ou simplesmente começar a gritar. Optei por um aceno rígido.
— Eu vim trazendo presentes — disse ele, dando um passo para o lado com um floreio.
Foi quando eu os vi. Três renegados — esfarrapados, amarrados e ensanguentados — arrastados para a frente pelos homens de Torin. Um mancava. Um tinha um ferimento recente atravessando o rosto. O terceiro… uma mulher, parecia mal consciente… e muito grávida.
Meu fôlego travou. Meu sangue virou gelo.
Torin fez um gesto para eles com um sorriso, como se estivesse apresentando vinhos raros ou um novo conjunto de cães de caça.
— Foram pegos invadindo o território no caminho até aqui. Achei apropriado te dar algo significativo.
Ele puxou a espada.
Eu falei antes que pudesse me impedir:
— Você está me dando execuções de presente?!
