Capítulo 2

ZURI

Que diabos estava acontecendo? Olhei para os meus pais para medir como eu deveria reagir, mas as expressões deles permaneciam tão estoicas como sempre.

O sorriso de Torin se alargou. “Justiça. Rápida e pública. É importante que meus futuros súditos vejam que sua companheira protege o que é dela.”

Meu corpo se eriçou com o jeito como ele disse aquilo. Dela. Eu não queria ser dele se era assim que ele tratava as pessoas.

“Eles estão famintos”, rebati. “Não estão invadindo.”

“Eles estavam invadindo perto da fronteira sul”, disse Torin, a voz carregada de orgulho. “Achei que você apreciaria a justiça. É importante começar nossa união com uma mensagem clara.”

Meu maxilar se contraiu. “Uma mensagem para quem, exatamente?”

“Para o mundo”, ele disse, simples. “Que você é minha, e que esta alcateia está protegida. E que ninguém ousaria pôr os pés aqui sem saber o tipo de fim que vai ter.” Ele se virou para mim, os olhos cintilando. “Quer dar o primeiro golpe? Como um agrado de aniversário?”

A multidão murmurou. Meus pais sorriram, sem jeito, aplaudindo como se cabeças fossem um presente razoável. Então dei um passo à frente devagar, os olhos fixos na loba desgarrada grávida. A mulher sustentou meu olhar — não suplicando, mas desafiando? Talvez me desafiando a ser diferente.

Virei para Torin. “Sabe o que eu realmente queria de aniversário?”

Ele sorriu. “Peça.”

“Menos assassinato. Mais bolo”, brinquei. “E talvez um barril de uísque.”

Alguém na multidão pigarreou. Minha mãe sussurrou meu nome, em aviso. Torin inclinou a cabeça, divertido.

“Ela é uma desgarrada”, disse ele, apontando a espada para ela. “Você sente pena?”

Olhei para a mulher, cujos olhos estavam selvagens de desafio e fúria. “Eu me sinto enjoada.”

Torin deu de ombros, preguiçoso. “Fraqueza, então. Vamos trabalhar isso”, disse, aproximando-se de mim, nossos rostos a centímetros um do outro. “Junto com essa sua boquinha bonita.”

Eu me virei para ir embora. Não havia mais nada a dizer — nada mais que eu conseguisse suportar. Mas a mão de Torin se fechou em torno do meu pulso antes que eu desse um passo.

“Fique”, ele disse, baixo e firme. “É importante que você veja. Que todos eles vejam que você está vendo.”

O aperto não chegava a machucar, mas fez minha loba se agitar — orelhas para trás, dentes à mostra. Meus pais me lançaram aquele olhar para eu obedecer, e eu obedeci. Fiquei ali, cada centímetro de mim em chamas enquanto os homens dele arrastavam os desgarrados até os tocos de madeira, com as mãos amarradas atrás das costas como oferendas.

A desgarrada grávida não gritou. Não implorou como os outros. Ela encarou a frente, orgulhosa e imóvel. Eu me forcei a assistir.

Não esqueça isso, eu disse a mim mesma. Nem ouse desviar o olhar.

Quando a lâmina desceu, foi rápido. Impiedoso. O corpo dela desabou com um baque nauseante que ecoaria nos meus ossos por anos.

Vieram aplausos, principalmente do grupo de Torin. Eu não bati palmas.

“Ele não precisava fazer isso.” A voz de Fallon era quase um sussurro na minha cabeça. O choque atravessava ela tanto quanto a mim.

“Você ainda acha que ele é um ótimo partido?”, perguntei, amarga. “Ainda acha que ele é a chave para a nossa força?”

“Ele é… Ele é um Alfa. É isso que eles fazem, o que foram ensinados a fazer. Isso não significa que ele não tenha coração—”

“Não tem coração?”, repeti. “Fallon, ele me ofereceu a cabeça daquela mulher como presente de aniversário. E você ainda espera que ele só seja incompreendido?”

Ela se calou e, pela primeira vez, eu não saboreei isso.

“Nós poderíamos mudá-lo”, ela disse depois de um instante, e eu senti a dor nela, a decepção. “Mostrar a ele como governar sem—”

“Você viu ela”, eu disse, os olhos ainda presos ao toco manchado de sangue. “Ela não implorou. Não chorou. Ela só olhou para mim como se soubesse que eu assistiria à morte dela e não faria nada.”

“Você não teve escolha—”

“É isso que eles vão dizer, não é?”, retruquei. “Que eu não tive escolha. E aí, quando ele começar a enforcar mais gente do nosso povo, vão dizer a mesma coisa.”

A tristeza de Fallon se enrolou para dentro, silenciosa e recuando. “Ele deveria ser a nossa chance. O nosso par. O nosso futuro.”

“Então que o futuro apodreça”, eu disse, afastando-me da multidão, dos aplausos, do vermelho espirrado. “Porque eu nunca vou ser dele.”

Meu pai deu um passo à frente, aplaudindo um pouco entusiasmado demais, a voz retumbando: “Agora, vamos celebrar esta união abençoada! Que o festival comece — música, comida e bebida para todos!”

A multidão se mexeu como um bando de pássaros assustados, ávida para voar em direção à distração. Uma banda atacou algo alegre e completamente inadequado. Meus pés se moveram, mas eu não tinha certeza para onde eu estava indo até me dar conta de que estava dentro do grande salão de jantar, com o aroma de lavanda e pato assado denso no ar. Sentei perto da mesa principal, rígida como a cadeira de madeira entalhada sob mim.

Torin ocupou o assento ao meu lado, tão perto que o joelho dele roçou no meu por baixo da mesa. O olhar dele não tinha me deixado.

Mantive os olhos fixos no cálice de prata à minha frente. Não bebi. Não comi. Meu apetite tinha sido decapitado junto com os renegados.

— Você não está sorrindo — disse Torin, servindo-se de uma taça de vinho cor de sangue. — Achei que aniversários eram para alegria.

— Acho que a gente só tem definições diferentes da palavra.

— Não conheci muitas mulheres tão bem instruídas quanto você — ele riu, como se eu estivesse fazendo charme, e não furiosa. — Você vai crescer nisso. Em nós. Agora você é afiada… resistente. Mas é isso que te torna interessante.

Minha loba se agitou de novo, desconfortável sob a minha pele. As orelhas dela se contraíram, e um rosnado baixo reverberou dentro de mim, logo abaixo da superfície. Olhei para meus pais. Eles usavam expressões ensaiadas — rostos cuidadosamente talhados em polidez. Mas eu ainda via. A tensão nos cantos da boca. O lampejo de inquietação.

Eles tinham assistido à mesma coisa que eu. Eles tinham visto. E escolheram desviar o olhar. Voltei-me para Torin, que ainda me observava como se eu fosse o prato favorito dele e ele não tivesse decidido se ia me devorar ou me guardar para depois.

— Você está encarando — eu disse, baixo.

O sorriso dele se alargou.

— Admirando.

— Não — resmunguei, percebendo os olhos dele se estreitarem só um pouco, mas eu não estava nem aí.

Torin se levantou e me ofereceu a mão com o charme ensaiado de um homem acostumado a ser obedecido. A multidão assistia, expectante e eufórica. Hesitei apenas um instante antes de colocar minha mão na dele. Ou eu dançava com o monstro, ou fazia uma cena que me custaria mais do que a dignidade.

Os músicos mudaram para uma valsa lenta. Filhos da puta. Fizeram de propósito. Torin me puxou para perto — mais perto do que o necessário — e eu enrijeeci quando a palma dele se pressionou inteira contra a curva das minhas costas. Um pouco perto demais da minha bunda.

— Você parece que está indo para a batalha — ele disse, com os lábios perto da minha orelha. — Relaxa, Zuri. Você é minha agora. Isso é uma celebração.

Ainda não sou sua. pensei, me movendo rígida nos braços dele, resistindo à vontade de enfiar uma cotovelada na garganta dele. Ele dançava bem, claro. Tudo nele era preciso demais. Calculado demais.

— Você não é como as outras — ele disse, casual demais. — A maioria das mulheres é macia. Delicada. Você é… — os olhos dele me percorreram — forte.

Eu não disse nada.

— Você treina com guerreiros, não é? — ele continuou, claramente divertido. — Dá pra ver nos seus ombros. No jeito que você se mexe. Todo esse músculo. Ângulos afiados. — A mão dele traçou um caminho lento, sugestivo, das minhas costelas até a curva do meu quadril. — Mesmo assim… você tem bons quadris. Fortes. Para parir.

Eu quase tropecei.

Ele riu disso, como se fosse algum tipo de piada doentia.

— Uma mistura estranha de masculino e bonito. Não era o que eu esperava. Mas suponho que a Deusa da Lua trabalhe de formas incomuns. Além disso, passei incontáveis anos procurando minha companheira destinada, mas você vai ser um ótimo substituto.

Eu cerrei a mandíbula com tanta força que achei que meus dentes iam rachar. Minha loba não queria nada além de rasgar aquele rosto bonito e esculpido com as garras.

— Você vai me dar herdeiros fortes quando estiver madura o suficiente — ele disse, simples, como se estivéssemos falando de gado.

Se o fato de eu ainda não ter começado meu ciclo mantiver ele longe, vou ter que rezar para que nunca venha.

— Mas você vai ter que amolecer, Zuri — ele continuou. — Toda essa aspereza… não fica bem.

— É mesmo? — consegui dizer, cada palavra seca.

— Você realmente não gosta de mim, né? — ele perguntou, quase se divertindo.

— Eu nem conheço você — respondi, calma.

— Exceto pelo fato de ele ser um maluco lunático que gosta de matar mulheres e os filhos não nascidos delas — rosnou Fallon.

Ele me girou uma vez e então me puxou mais para perto. A mão dele deslizou para mais baixo nas minhas costas, os dedos roçando na pele.

Ele se inclinou, o hálito roçando minha bochecha.

— Quando a gente estiver casado e acasalado, você vai entender. Falar o que pensa à vontade, responder, e minar seu Alfa… isso não vai ser tolerado. O dever de uma mulher é simples: lealdade, submissão e dar à luz filhotes.

Meu estômago revirou, mas eu obriguei meu rosto a permanecer neutro. A sala girava em comida, risadas e música, mas tudo desapareceu atrás do zumbido da raiva pressionando minhas costelas.

— Além disso — ele continuou —, poder fica melhor num homem, não acha?

Abri a boca para retrucar, mas me contive. Porque, se eu abrisse a boca, eu não ia parar. Então eu sorri. Quase nada. Ele pareceu satisfeito.

— Bom. Eu odiaria pensar que uma divergência causaria um problema entre as alcateias.

Quando a dança terminou, eu me desculpei com elegância e fui direto para o meu quarto. Eu não sabia como nem quando, mas um dia Torin se arrependeria de achar que eu podia ser enjaulada.

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