Capítulo 3
ZURI
Eu não desejei uma boa viagem a Torin e ao séquito dele quando partiram. Rezei para que alguma coisa ruim acontecesse. No instante em que cheguei ao meu quarto, arranquei o vestido, quase rasgando a seda ao meio. O colar arrebentou e caiu no chão com um tilintar metálico. Chutei os saltos, fiquei andando de um lado para o outro, rosnando por entre os dentes. Minha loba avançou dentro de mim, empurrando contra a minha pele, exigindo para sair — para correr, ou lutar, ou destruir alguma coisa.
— É essa a minha vida agora? — sibilei, agarrando um travesseiro e batendo-o contra a parede. — É isso que eu tenho que aceitar?
Soquei a penteadeira. E depois de novo. A dor era boa. De verdade. Não como o resto da noite. Minhas garras tremeluziram na ponta dos dedos. Minha respiração veio pesada.
Então ouvi a porta ranger.
Virei, os dentes à mostra, o coração disparado.
Meus pais estavam ali, em silhueta na entrada. O rosto da minha mãe era indecifrável. Meu pai parecia cansado — mais velho do que eu jamais me lembrava de ter visto.
Nenhum dos dois disse nada. Nenhum dos dois tentou me impedir. Eu continuei até a penteadeira não ser nada além de um monte de madeira.
— Eu não quero isso — falei, por fim, a voz tremendo de fúria. — Eu não vou querer isso.
— Do jeito que você está se comportando, Torin pode tirar a oferta da mesa — meu pai suspirou. — Ele acha que toda essa insolência me deixa fraco.
— Eu? Fraco? Aquele homem—
— Você não tem escolha, Zuri — meu pai interrompeu. Os nervos dele, aos poucos, perdendo a batalha contra a paciência.
Eu encarei o olhar dele; a queimadura atrás dos meus olhos já não era só raiva, era traição.
— Por que não? — rosnei. — Porque você já apertou a mão dele? Me prometeu como se eu fosse uma cesta de presente?
Ele enrijeceu por um instante antes de a autoridade da aura de Alfa dele pressionar o quarto como uma nuvem de tempestade.
— Você esquece com quem está falando.
Eu dei um passo à frente. E empurrei. Minha própria aura explodiu — afiada, elétrica, trovejante. Ela se chocou contra a dele como um desafio, o ar entre nós zumbindo com a colisão. Um aviso. Uma recusa.
Os olhos dele se arregalaram, só um pouco.
Minha loba rosnou dentro de mim.
— Você quer que eu fique quieta e bonita enquanto ele mata gente no dia do meu aniversário e me diz como eu tenho que parir filhotes pra ele? — perguntei, erguida, mesmo com os membros tremendo. — Eu não vou me amarrar a um homem que se orgulha de massacrar.
O rosto dele endureceu de novo, mas ele não revidou com o poder. Ele não precisava.
— Então você vai condenar a nossa matilha — ele disse, seco. — Eu não vou permitir isso.
— Você acha que era isso que a Deusa queria? — perguntei, a voz trêmula. — Você acha que ela me criou para ser propriedade de alguém?
Ele puxou o ar devagar pelo nariz, do jeito que sempre fazia quando tentava não perder o controle.
— Se você recusá-lo, Zuri, isso vai ser visto como um insulto. Um desafio. A matilha de Torin é três vezes maior do que a nossa — não temos guerreiros para nos proteger do tipo de retaliação que viria.
— Eu posso protegê-los. Ou, pelo menos, posso aprender — eu disse, quase desesperada. — A gente pode treinar. A gente pode ficar mais forte.
Aquela conversa era diária entre nós.
— Se a gente treinar todo mundo e não só os homens, então—
— Isso é impossível, Zuri — meu pai interrompeu. — Mal temos gente suficiente como é, e campo de batalha não é lugar para uma mulher.
— Mas você me deixa treinar?
O rosto dele ficou duro.
— “Deixar” é a palavra-chave — meu pai disse. — A maioria dos pais nem consideraria a ideia.
Silêncio.
Então a voz dele baixou — fria, definitiva:
— A decisão está tomada. Quando seu ciclo começar, ou no próximo Festival de Inverno na Academia, o que acontecer primeiro, você vai aceitar a proposta do Alfa Torin. O Conselho vai comparecer, e a união será selada com a bênção deles.
O chão podia ter desabado sob meus pés e eu não teria notado. O festival de inverno tinha acabado de passar; isso significava que eu tinha um ano. Pelo menos um ano antes de ser acorrentada àquele monstro.
— Feliz aniversário pra mim — eu disse, amarga, a voz pouco acima de um sussurro.
Uma sombra do homem doce que ele já fora atravessou o rosto dele antes de suspirar e ir embora, como se a conversa tivesse acabado. Como se eu tivesse acabado.
Eu não me mexi. Não chorei. Só fiquei ali, em pé, no meio dos restos de seda e lascas de madeira, os punhos cerrados ao lado do corpo. Eu nem percebi que tinha desabado no chão até a mão da minha mãe tocar meu ombro. Os olhos dela estavam cheios de algo que eu não consegui decifrar. Pena? Vergonha? Culpa? Nada disso importava. E nada disso mudava porra nenhuma.
— Eu não preciso de seja lá o que você está tentando me dar agora, mãe — rosnei. — É assim que fica quando vocês leiloam a única filha.
— Chega — ela retrucou, mas a voz saiu trêmula. — Seu pai já decidiu. O Alfa Torin é forte. A nossa matilha precisa dessa aliança.
Eu me virei, arqueando uma sobrancelha.
— Então você se casa com ele.
Os olhos dela faiscaram, mas, em vez de raiva, vi lágrimas se formando antes que ela conseguisse desviar o rosto. As mãos tremiam ao lado do corpo. E, pela primeira vez naquela noite, ela pareceu mais velha. Menor.
— O papel de uma mulher é fortalecer a matilha. Não questionar o seu Alfa — disse, quase mecanicamente. — Se você não obedecer, pode acabar como...
Ela parou, e eu ouvi um soluço baixo. Eu fui até ela para tentar acalmá-la. Segurei-a firme, mesmo que uma parte de mim quisesse largá-la, deixá-la cair, fazê-la sentir alguma coisa de verdade. Mas eu não fiz isso.
— Eu também a vi — falei, em voz baixa. — Ela não implorou. Ela me encarou como se eu já fosse uma delas.
— Ela estava grávida — sussurrou, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa. — Ela nem estava lutando. Naquele momento, eu não vi uma rogue. Só vi uma mãe e o filho que ela carregava.
Então ela me olhou — olhou de verdade. Os olhos vermelhos, os lábios tremendo enquanto mais lágrimas escorriam pelo rosto.
— Eu vi o seu futuro se você não tomar cuidado, Zuri.
E então ela se virou e fugiu pelo corredor, os soluços engolidos pelo silêncio. Eu quis ir atrás e gritar que eu nunca seria aquilo. Em vez disso, caminhei até o outro lado do quarto, escancarei as portas da sacada e deixei o vento frio me bater no rosto.
Lá fora, além das fronteiras, havia rogues e monstros.
Mas aqui dentro?
Havia jaulas tão cruéis quanto.
E a pior parte? Elas eram construídas por pessoas que diziam me amar.
Eu me lembraria do olhar daquela rogue.
E eu me lembraria disso.
Não por vingança.
Mas por clareza.
Porque, acontecesse o que acontecesse depois... não seria a fraqueza que me definiria.
Seria o fogo.
Mais tarde naquela noite, Fallon se agitou o bastante para me acordar.
— Intruso!
Rolei para fora da cama, batendo forte no chão, bem na hora em que uma mão cortou o ar onde estaria a minha garganta. Eu me ergui num salto, dentes à mostra, corpo baixo. Fallon rugia no meu peito, a adrenalina pulsando. Avançamos juntos.
Mas ele estava pronto.
Um golpe brutal acertou meu lado, e eu cambaleei. Outra mão se fechou no meu pulso, torcendo até eu gritar, e então ele me prensou contra a parede. O ar fugiu dos meus pulmões. Porra! Ele era forte.
— Você é rápida — a voz murmurou junto ao meu ouvido. — Eu gosto disso.
Aquela voz. Aquele cheiro.
Torin.
Eu congelei, cada nervo se acendendo de fúria. Que porra ele estava fazendo aqui?
— Você invadiu o meu quarto? — sibilei. — Não conseguiu sangue suficiente hoje?
Ele soltou uma risada sombria, me mantendo presa ali com um braço enquanto o outro deslizava pelo meu lado, os dedos roçando a curva do meu quadril.
— Você não veio se despedir. Isso doeu. Ainda mais porque vão ser três meses inteiros até eu poder ver você de novo.
Ele recuou o bastante para percorrer meu corpo com os olhos. Eu me xinguei por não ter colocado mais roupa para dormir. Só essa camisola. Sem sutiã. Sem calcinha. Eu bem que podia estar nua.
Ele gemeu.
— Além disso, eu queria ver você... sem as sedas. Sem a multidão. Sem o seu pai olhando.
Eu me debati contra a imobilização e ele riu, um rosnado baixo, divertido.
— Você não devia estar aqui — falei entre os dentes.
— Você é cheia de fogo, lobinha — ele sorriu. — Só saiba que o fogo também pode ser domado.
A mão dele acariciou o lado do meu rosto, descendo até meus seios e depois para a lateral da minha perna. Fallon rosnou dentro de mim, mas isso só fez o sorriso dele se alargar.
— Mas uma pessoa também pode se queimar — eu rosnei.
— Talvez a gente devesse testar isso — disse ele, os olhos cintilando de perigo enquanto a mão descia mais e escorregava para baixo da minha camisola.
