Capítulo 5

ZURI

— Talvez você pudesse fingir uma doença mortal e contagiosa — sugeriu Nessa, com um suspiro dramático no dia seguinte, enquanto eu andava de um lado para o outro sob uma varanda sombreada. — Uma coisa apavorante. Tipo... varíola de lobo. Ou cio venenoso.

— Isso não existe — murmurei.

— Bom, poderia existir. Você é forte — Nessa sorriu, envolvendo meus bíceps com as duas mãos. — É só começar a espumar pela boca da próxima vez que o Torin vier.

— Muito régio — respondi, sem expressão.

— A gente podia te tirar escondida do território — ofereceu Mira, a mais jovem das minhas assistentes, de olhos arregalados e absolutamente séria. — Eu conheço um contrabandista perto dos penhascos do leste que uma vez escondeu a família inteira em barris de peixe em conserva.

— Zuri em conserva — eu disse. — É assim que a história vai se lembrar de mim.

Elas riram baixinho. Eu não. Não ririam se soubessem o que Torin tentou fazer ontem à noite. Eu não queria contar a ninguém. Porra, eu queria conseguir esquecer eu mesma. Só de pensar, eu tremia.

Leona, minha assistente mais séria, cruzou os braços.

— O que você devia fazer é ir para a Academia de Lobisomens. Os herdeiros machos de matilhas mais fortes vão o tempo todo. Eles aprendem a liderar. A lutar. A negociar. Treinamento de Alfa de verdade.

Eu pisquei.

E então ri uma vez — amargo e cortante.

— Tá. Só que a lei da Academia diz que só machos podem estudar lá.

A boca de Leona se contraiu.

— É uma lei idiota.

— Leis idiotas ainda são aplicadas — resmunguei, me levantando e voltando a andar. — Mesmo que eu tentasse ir, iam me barrar nos portões antes que eu pudesse mostrar o primeiro rosnado.

— Mas não valeria a pena? — perguntou Mira. — Se você tivesse treinamento, ninguém poderia te obrigar a se casar com ninguém. Nem o Torin.

Eu parei de andar.

Aquela palavra de novo. Obrigada.

Olhei para além da varanda, na direção das montanhas que nos separavam da Academia. O lugar para onde os garotos iam para se tornar líderes de verdade.

— Eles nem me levariam a sério — eu disse, mais para mim do que para elas. — Não até eu fazer com que levassem.

As meninas ficaram em silêncio. E, pela primeira vez, eu também.

Porque talvez a ideia não fosse tão ridícula assim.

Mais tarde naquela tarde, eu entrei na sala de guerra do meu pai, com as mãos cerradas atrás das costas. Ele estava sozinho, debruçado sobre relatórios do território. O cabelo com mechas prateadas estava preso para trás; o rosto, marcado por um tipo de exaustão que só Alfas carregavam — como se sustentassem o mundo inteiro na coluna. Mas isso não me amoleceu.

Ele ergueu o olhar, surpreso.

— Zuri. Você não deveria estar descansando?

— Eu não vim aqui para descansar — eu disse.

Ele me avaliou, sem dúvida reparando nas olheiras, no jeito duro com que eu me mantinha.

— Isso é por causa da festa de noivado de ontem à noite?

— De certa forma.

Eu dei um passo à frente, até ficar diretamente do outro lado dele, e juntei as mãos à frente do corpo como uma diplomata na corte.

— Eu quero que você me mande para a Academia de Lobisomens.

Ele piscou, uma vez. Duas. Depois recostou devagar, unindo as pontas dos dedos.

— Zuri—

— Eu sei o que as leis dizem — interrompi, com gentileza, mas firme. — Só machos. Só herdeiros. Só futuros Alfas. Mas essas leis foram escritas antes de nascer uma loba como eu.

Ele soltou um suspiro baixo, de advertência.

— Você está falando de rebelião.

— Eu estou falando de lógica — eu disse. — Estou falando de estratégia.

Uma pausa.

Então eu insisti. “O senhor viu do que eu sou capaz. Minha loba… ela é mais forte do que qualquer uma da nossa linhagem. A Academia poderia me ajudar a controlar essa força. Lapidar. Elevar. Eu voltaria não só como a Luna da alcateia, mas como uma guerreira treinada, disciplinada. Uma companheira mais valiosa para o Torin — mais desejável. Uma futura Luna que poderia de fato ficar ao lado dele, não atrás. Talvez até me ajude a… amadurecer mais.”

Ele não respondeu. A mandíbula dele tremulou.

Mas eu ainda não tinha terminado.

“Ou”, continuei, a voz mais suave agora, “talvez eu conheça alguém melhor na Academia. Um Alfa mais forte, de uma linhagem mais poderosa. Alguém cuja aliança ofereceria à nossa alcateia mais proteção do que Torin jamais poderia. E sem a ameaça de ser tomado à força.”

O olhar dele saltou para o meu, mais afiado agora. Eu tinha a atenção dele. Eu tinha tocado num nervo que importava. Torin era um monstro garantido. Uma ameaça conhecida que meu pai acreditava conseguir administrar, se o apaziguassem. Mas a ideia de eu escolher outro Alfa? Um mais forte. Mais inteligente. Um que talvez visse nossa alcateia em dificuldade como uma para se aliar, não madura para ser reivindicada.

“Estou oferecendo dois possíveis desfechos. Ambos fortalecem a nossa alcateia.”

Ele não disse nada, mas eu vi no aperto do maxilar, no estreitar dos olhos, no jeito como medo e ambição guerreavam dentro dele. Ele se levantou e foi até a janela. A janela que eu passei a conhecer como a janela de pensar dele. Isso era bom. O silêncio se arrastou, mas eu não interrompi. Deixei o peso das minhas palavras se assentar entre nós.

“Você fala como uma líder”, ele disse por fim, e um fiapo de esperança floresceu no meu peito. “E, ainda assim, me desafia como uma criança.”

E, assim, ele sumiu — mas eu não estava pronta para desistir. A agressão da noite passada ainda estava fresca na minha mente. Eu me perguntei o que ele diria se eu contasse o que Torin tentou.

“Eu estou tentando me salvar, pai”, implorei, “antes que não reste nada para salvar.”

Ele se virou, os olhos se estreitando. “Se isso é para evitar Torin—”

“É para evitar a aniquilação”, retruquei. “A sua. A minha. A da alcateia. O senhor acha que Torin vai se dar por satisfeito comigo? Com este território? O senhor viu o que ele fez na festa. Ele tratou aquelas execuções como presentes.”

A expressão do meu pai escureceu. Pela primeira vez, pareceu que ele concordava.

Amoleci o tom de novo. “O senhor quer nos proteger. Deixe eu lhe dar mais opções para fazer isso. Deixe eu ir. Deixe eu mostrar que posso ser mais do que apenas moeda de troca.”

Ele suspirou, longo e cansado, esfregando as têmporas.

“Eu tomei minha decisão”, ele disse, mais para si mesmo do que para mim. “Torin voltará em três meses.”

“E se eu não estiver aqui quando ele voltar?”

Isso o fez congelar.

Ele se virou devagar, me encarando como se já não reconhecesse a garota diante dele.

Eu não vacilei.

“Você será marcada como traidora”, ele disse. “Sua mãe, a alcateia—”

“Eu não estou indo embora, pai. Eu estou pedindo que o senhor me mande. Deixe eu fazer isso do seu jeito. Deixe eu levar o seu nome para aquele lugar e provar para eles que filhas podem ser tão poderosas quanto filhos.”

Outro silêncio longo.

“Eles não podem saber que você é uma mulher, Zuri”, ele disse antes de olhar para mim. “Um olhar para você e você será barrada nos portões.”

Eu sorri — um sorriso de verdade dessa vez. Um que a minha loba compartilhou. Ele não estava dizendo não.

“Deixe isso comigo.”

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