Capítulo 2 Fugindo do passado
Eu não esperei que ele falasse. Nem cheguei a pensar.
Empurrei-o para longe com as duas mãos, com força suficiente para fazê-lo cambalear, e virei nos calcanhares antes que o choque sumisse do rosto dele. Eu não me importava com a expressão que ele trazia, nem se ele gritava atrás de mim; tudo o que eu sabia era que eu precisava correr.
Meu pulso trovejava nos ouvidos enquanto eu disparava em direção aos elevadores. De repente, o prédio pareceu pequeno demais, sufocante demais, o ar espesso com o cheiro dele — cedro esfumaçado, chuva e alguma coisa antiga que fazia minha pele formigar. Meu coração se recusava a desacelerar. Minha mente berrava para eu sair dali. Eu apertava o botão do elevador de novo e de novo, a luz piscando em vermelho, mas as portas continuavam teimosamente fechadas.
Quando criei coragem de olhar por cima do ombro, eu o vi vindo na minha direção, passadas largas, ombros largos tensos sob o casaco escuro, os olhos fixos em mim como se eu fosse algo frágil que ele não podia se dar ao luxo de perder.
— Senhorita, espere! — A voz dele era grave, ressonante, uma ordem que vibrava direto nos meus ossos.
Não. Eu não podia ouvi-lo. Não ele.
Eu me virei, a respiração aos trancos. Os elevadores eram lentos demais; eu sentia ele se aproximando, então girei para a escadaria e escancarei a porta, subindo os degraus de dois em dois, de três em três. Minhas pernas ardiam, mas a adrenalina amortecia a dor. A escadaria devolvia o eco das minhas pisadas e da voz dele chamando meu nome, cada vez mais perto a cada andar.
— Por favor, espere!
Agora ele soava irritado. Ou desesperado. Eu não sabia dizer qual.
Eu irrompi no saguão e não parei de correr. A segurança gritou atrás de mim quando eu me enfiei pelas portas de vidro, e o ar da cidade me estalou no rosto. A chuva despencava, fria e cortante, colando meu cabelo na pele. Eu não me importei. Eu precisava de distância. De espaço. De qualquer coisa que não cheirasse a ele.
O asfalto estava escorregadio sob meus sapatos quando eu sprintava em direção à entrada do metrô. Eu conseguia ouvir o eco fraco dos passos dele atrás de mim — ele estava me seguindo. O próprio Rei Alfa estava me seguindo.
A ironia quase dava vontade de rir, se meu coração não estivesse se despedaçando dentro do peito.
Eu já tinha sonhado com esse momento antes — não o encontro, mas o confronto. Naqueles sonhos, eu era forte, controlada, inabalável. Eu o encarava e dizia exatamente o que pensava dele. Dizia que ele tinha arruinado tudo, que eu tinha visto meu lar queimar por causa dele.
Mas no instante em que eu o vi — vi de verdade — meu corpo me traiu.
Meu pulso o reconheceu antes de a minha mente reconhecer. Minha loba — a coisa partida dentro de mim — ficou imóvel, como se estivesse esperando por aquilo. E então veio aquele puxão, aquele calor insuportável no meu peito, se espalhando por mim como fogo em capim seco.
Eu não podia aceitar. Eu não aceitaria.
Não ele. Não Darius Kade.
O homem que assassinou meu pai.
O homem cujo nome fazia matilhas se curvarem e estremecerem, cuja palavra podia começar ou terminar guerras. O Rei Alfa — meu maior inimigo, minha maldição.
Eu alcancei a entrada do metrô e desci as escadas aos trancos, quase escorregando nos degraus molhados. O rugido de um trem se aproximando ficou mais alto. Por favor, só me deixa conseguir.
As portas ainda estavam abertas quando cheguei à plataforma. Eu me joguei para dentro, quase caindo contra o ferro mais próximo. Meus pulmões queimavam, e eu me virei a tempo de vê-lo surgir no pé da escada.
Por um segundo, nossos olhos se encontraram.
Mesmo do outro lado da multidão, mesmo através da chuva e do barulho, eu vi — confusão, reconhecimento e mais alguma coisa. Algo cru.
Ele começou a vir na minha direção.
— Espere!
As portas apitaram.
— Por favor... — ele começou, mas a voz foi cortada quando as portas se fecharam. Ele bateu uma mão no vidro no exato instante em que o trem deu um solavanco e seguiu em frente.
A imagem se gravou a fogo na minha mente: Darius Kade, o Alfa mais poderoso vivo, parado numa plataforma lotada do metrô, a chuva escorrendo pelo rosto, olhando para mim como se tivesse acabado de perder algo que não entendia.
E eu — coração martelando, peito apertado, encarando de volta como um animal encurralado.
O trem ganhou velocidade, e ele desapareceu no borrão do túnel.
Eu afundei num assento, agarrando a borda com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Meu coração batia tão rápido que doía. Meus pensamentos eram uma confusão — lampejos do passado colidindo com o presente.
O sangue do meu pai no chão. O fogo. Os gritos. Os olhos frios dele observando tudo queimar.
Eu pressionei as mãos contra as têmporas.
— Não — sussurrei para mim mesma. — Não, não pode ser ele. Não pode.
Meu reflexo na janela parecia pálido, assombrado. O barulho ritmado das rodas se dissolvia num ruído branco.
O que era aquela sensação?
Por que meu peito doía como se algo vital tivesse sido arrancado dele? Por que eu me sentia… vazia, perdida, mesmo tendo escapado dele?
Darius Kade.
O homem que matou meu pai.
O homem que reduziu nossa casa a cinzas e me obrigou a viver escondida.
E, ainda assim, vê-lo de novo provocou em mim algo que eu não conseguia explicar. Não era medo. Não era ódio. Era algo pior. Algo que arranhava os limites da minha sanidade.
Eu sabia exatamente o que era.
O vínculo.
Fechei os olhos, lutando contra a náusea que subia pela minha garganta. O trem continuava sacolejando e, em algum momento entre uma estação e outra, percebi que não fazia ideia de para onde estava indo.
O nome da estação que piscava na tela acima das portas não era o meu destino. Meu estômago afundou. “Ah, pelo amor de Deus.” Eu tinha pegado o trem errado. Perfeito.
Segui por mais duas estações antes de saltar para fora e fazer a transferência para a linha certa, cada segundo que passava deixando meus nervos ainda mais à flor da pele. Eu não conseguia me livrar da sensação de que ele ainda estava perto, de que, se eu olhasse por cima do ombro, encontraria aqueles olhos glaciais me encarando no meio da multidão.
Quando cheguei ao meu bairro, o céu já tinha escurecido por completo. A chuva tinha se transformado numa garoa fina, agarrando-se ao meu cabelo e aos meus cílios. Cruzei os braços ao redor do corpo e apressei o passo pela calçada rachada, tentando ignorar os postes de luz que piscavam.
“Lyra!”
Eu me sobressaltei — mas não era a voz de Darius.
Quando ergui os olhos, Fred acenava para mim do outro lado da rua, com o capuz erguido e uma sacola de compras em uma das mãos. O alívio me invadiu com tanta força que eu quase ri.
“Fred”, murmurei, correndo até ele.
Fred é o tipo de homem cujo calor atrai as pessoas. Seus olhos são de um cinza-azulado marcante, afiados e perceptivos, como se estivessem sempre olhando dentro da minha alma. Há sempre uma leve sombra de barba em seu rosto, dando a ele um ar rústico; como de costume, estava vestido de forma casual, mas arrumada: jeans escuros, jaqueta de couro e botas.
Ele sorriu ao me ver. “Oi, estranha. Você está acabada. A entrevista de emprego deu errado?”, perguntou, passando a mão pelo cabelo loiro-acinzentado e macio, molhado pela chuva.
“Pode-se dizer que sim”, resmunguei. Meu pulso ainda estava rápido demais, minhas mãos frias demais.
Ele me lançou um olhar compreensivo. “Vem, vamos tirar você da chuva.”
Fred era um dos poucos lobos perto de quem eu conseguia tolerar estar. Nós nos conhecemos na faculdade, quando eu ainda achava que podia viver como todo mundo. Ele era uma das poucas pessoas que nunca me trataram como uma estranha. A maioria dos lobos me evitava no instante em que percebia que havia algo de errado. Híbridos não têm o cheiro certo para eles. Eles sentiam isso, a sutil anormalidade que se agarrava ao meu sangue, o eco de duas naturezas que não deveriam coexistir.
Nosso cheiro é… errado. Não é totalmente lobo, nem totalmente humano, mas algo entre os dois, algo que nunca se assenta. Alguns dizem que cheiramos a decomposição, a sangue derramado e esquecido.
A maioria dos lobos olha para mim e não vê nada além de uma abominação. Uma mestiça. Uma coisa quebrada.
E eles não estão errados.
Híbridos como eu não se transformam. Não temos um lobo interior, nenhuma voz sussurrando em nossa cabeça, nenhuma garra ou pelo para chamar de nosso. Podemos correr, nos curar, sentir — mas nos falta a alma daquilo que os torna completos. Somos ecos de dois mundos que nunca deveriam ter se misturado.
Mas eu sou pior.
Não sou só meio lobo. Sou meio vampira.
Uma criatura nascida da noite e do sangue. O tipo de híbrido que até as lendas se recusam a reconhecer. O tipo que não deveria existir.
Ninguém sabe. Nem Fred. Ninguém. Eu não posso contar. Porque, se contasse, até alguém como ele, um lobo bondoso, se voltaria contra mim.
Sou o produto de um amor que nunca deveria ter existido, e meus pais perderam a vida por causa disso: meu nascimento matou minha mãe, e meu pai foi executado.
Não era raro espécies sobrenaturais se envolverem com humanos, porque, na maioria dos casos, a prole acabava sendo humana, vampira ou lobisomem; um cruzamento verdadeiro era raro. No meu caso, mais ainda — até onde sei, talvez eu seja a única.
Era a maldição de ambos os mundos e o pertencimento a nenhum deles.
E agora o homem que transformou minha vida num pesadelo, o próprio Rei Alfa, tinha olhado para mim como se soubesse. Como se ele também sentisse isso.
