Capítulo 3 Um amigo
— Tem certeza de que está bem? — ele perguntou. — Você está tremendo.
Olhei para baixo e percebi que ele tinha razão. Minhas mãos tremiam. — Eu estou bem — menti de novo.
— Tá certo. Mas se precisar de qualquer coisa, você sabe que eu estou aqui por você. — A voz de Fred saiu suave, quase hesitante.
Por um momento, eu não consegui falar. Minha garganta se fechou, meu peito ficou mais pesado a cada respiração. Todo o ar que eu vinha prendendo desde que fugi de Darius finalmente escapou num soluço trêmulo. Antes que eu pudesse me impedir, dei um passo à frente e me enterrei nos braços de Fred.
Ele não questionou. Não recuou nem exigiu explicação. Ele só me segurou. Forte, quente, firme. O cheiro dele, constante e terroso — madeira de cedro, chuva e um fundo metálico bem leve — me envolveu como uma âncora. Era reconfortante, familiar, como a mata depois de uma tempestade. Pela primeira vez naquela noite, eu deixei minha guarda cair.
Eu me senti tão pequena naquele momento, tão estupidamente frágil. Eu não deveria ser. Eu deveria ser intocável, a garota que tinha sobrevivido à morte, à rejeição e a anos se escondendo de matilhas que me despedaçariam se soubessem o que eu realmente era. Mas agora? Agora eu era só uma coisa quebrada, tremendo nos braços de alguém gentil demais para me deixar cair.
Quando enfim me afastei, enxugando os olhos, ele me deu aquele sorriso suave, o mesmo que sempre conseguia fazer o mundo parecer um pouco menos cruel.
— Vamos — ele disse. — Você precisa de uma bebida.
Hesitei, mas ele acrescentou: — Por minha conta. Você está com cara de que tá precisando.
Ele não estava errado. Meu corpo ainda vibrava de adrenalina, minha mente girando entre confusão e raiva e algo perigosamente perto de saudade. Então eu assenti.
— É — murmurei. — Eu preciso de uma bebida.
O pub não ficava longe. Ficava na esquina da Mason Street, brilhando quente e dourado contra a noite fria. Eu tinha passado tempo suficiente lá para conhecer cada rangido das tábuas do assoalho, cada zumbido de risadas que preenchia aquelas paredes. O pai de Fred era o dono, um homem bom que tinha me acolhido quando eu estava desesperada por trabalho. Ele nunca fez perguntas demais; só me entregou um avental e disse: “Não me faça me arrepender de contratar uma híbrida”.
Aquele emprego tinha me salvado mais de uma vez.
Quando entramos, o velho ergueu o olhar de trás do balcão e abriu um sorriso. — Noite, Lyra. Fred. Vocês dois estão com cara de encrenca.
Fred riu. — Ela é a encrenca. Eu só tô fazendo o papel de acompanhante.
Eu sorri de leve e me sentei em um dos banquinhos. O pai de Fred me serviu uma dose sem perguntar o que eu queria; ele conhecia o meu de sempre. Uísque, pouco gelo. Algo que queimasse o bastante para me fazer sentir viva.
O pub estava quase vazio, salvo por alguns clientes habituais lá no fundo. Dei um gole longo; a ardência se espalhou pelo meu peito como fogo, e eu me permiti respirar pela primeira vez a noite inteira.
Fred me observou em silêncio por um tempo. Os olhos dele sempre tinham uma gentileza que às vezes me deixava desconfortável. Lobos raramente eram gentis — não comigo. Mas Fred era diferente. Talvez por isso eu gostasse de estar perto dele.
Depois de duas doses, minha cabeça ficou leve. O mundo amoleceu nas bordas. Fred manteve a conversa simples, falando do trabalho, da faculdade e das reformas novas que o pai dele estava planejando para o pub. Eu ri algumas vezes, embora não chegasse bem aos meus olhos.
Quando finalmente saímos, a cidade tinha ficado quieta outra vez. As ruas brilhavam de leve com os restos da chuva.
Ele me acompanhou até em casa sem dizer muito, com as mãos enfiadas nos bolsos, nossos passos ecoando no mesmo ritmo. Quando chegamos ao meu prédio, ele parou. Eu me virei para encará-lo.
— Tem certeza de que está bem? — ele perguntou, baixinho.
Eu assenti, mas ele não pareceu convencido.
Então, sem aviso, ele me puxou para outro abraço. Esse foi diferente, mais apertado, mais demorado. A voz dele saiu baixa, quase áspera contra o meu cabelo. — Eu tô falando sério, Lyra. Se você precisar de qualquer coisa, se tiver alguma coisa errada... você pode vir falar comigo. Sempre.
Aquele calor se espalhou por mim de novo, frágil e perigoso. Sorri contra o peito dele. “O que eu faria sem você, Fred?”
Ele soltou uma risadinha, mas quando levantei o olhar, a expressão dele já não era brincalhona. Era séria. Intensa. Os olhos dele desceram para a minha boca.
Eu congelei.
Antes que eu conseguisse reagir, ele se inclinou, fechando a distância entre nós. O instinto entrou em ação, afiado e em pânico. Virei o rosto a tempo, e os lábios dele roçaram na minha bochecha.
“Fred—”
Ele se afastou imediatamente, o maxilar tenso, os olhos oscilando com algo parecido com constrangimento. “Desculpa. Eu só— droga, Lyra, eu não consigo continuar fingindo que não sinto isso.”
Meu estômago se revirou. “Fred…”
“Eu te amo.” As palavras saíram cruas. Ele passou uma mão pelos cabelos, frustrado. “Eu te amo desde a faculdade. Eu quis te contar umas cem vezes, mas não queria te assustar.”
Meu coração bateu dolorosamente. Eu não sabia o que dizer.
Ele continuou, a voz tremendo, mas determinada. “Eu quero que você seja a minha companheira escolhida.”
O mundo pareceu parar.
“A sua… o quê?”
“Minha companheira escolhida”, ele repetiu, mais baixo dessa vez. “Você não precisa ser a minha companheira destinada, Lyra. Eu não me importo com isso. Eu só quero você.”
Engoli em seco, as mãos se fechando em punhos. “Fred, você não fala sério. O que acontece quando você encontrar a sua companheira verdadeira? Quando aquele vínculo te atingir, você vai se arrepender disso.”
“Eu vou rejeitar ela”, ele disse, sem hesitar.
“Fred!”, sibilei, dando um passo para trás. “Você não pode simplesmente dizer isso. Uma companheira é uma bênção.”
Ele riu com amargura. “Uma bênção? Talvez para os outros. Mas eu já fiz a minha escolha.”
“Você não está pensando com clareza”, eu disse, com a voz falhando. “Você sabe o que eu sou.”
Os olhos dele suavizaram. “Sim. Eu sei. E não me importo.”
Balancei a cabeça. “Deveria.”
O silêncio dele me disse que ele já sabia o que eu queria dizer. A mãe dele era uma loba tradicional, rígida, orgulhosa e impiedosa quando o assunto eram as linhagens da matilha. Se ela descobrisse que o filho queria uma híbrida, uma que nem sequer conseguia se transformar, ela perderia a cabeça. A matilha o renegaria. Ele seria expulso, marcado como renegado, caçado.
“Eu não me importo com o que eles pensam”, Fred disse de novo, teimoso. “Eu te amo, Lyra.”
“E eu me importo”, eu disse baixinho. “Você não entende o que essa vida significaria. Você perderia tudo. Sua família, seu status, sua matilha. Eu não vou ser o motivo de você jogar tudo isso fora.”
Ele me encarou, a dor cintilando no rosto. “Você fala como se não merecesse ser amada.”
Sorri fraco. “Talvez eu não mereça. Não o tipo de amor que você está oferecendo.”
Ele parecia querer discutir, mas eu ergui a mão e depositei um beijo na bochecha dele, interrompendo-o.
“Você é um bom homem, Fred”, sussurrei. “E um dia vai deixar alguém muito feliz. Mas não pode ser comigo.”
Por um longo momento, ele não se mexeu. Então assentiu devagar, forçando um sorriso pequeno. “Boa noite, Lyra.”
“Boa noite”, sussurrei de volta, indo em direção ao meu prédio.
Destranquei a porta do meu condomínio e entrei. O lugar estava escuro e frio, as paredes rachadas, o teto pingando um pouco por causa da tempestade da semana passada. Mas era meu. Meu santuário.
Quando me encostei na porta, as lágrimas que eu tinha segurado finalmente vieram.
A confissão de Fred me abalou mais do que eu queria admitir. Eu não merecia a gentileza dele, o amor dele. Ele me via como alguém que valia a pena salvar, mas não conhecia a verdade — o que eu realmente era. Se soubesse, correria o mais longe possível.
E pior do que isso…
Mesmo enquanto eu pensava nele, meu coração me traiu de novo. Não era o rosto de Fred que eu via por trás das pálpebras fechadas.
Era o de Darius Kade. Eu tinha que sair desta cidade.
A voz dele, o jeito como ele me olhava, aquele chamado assombrado que não deveria existir.
“Droga”, sussurrei para a escuridão. “Sai da minha cabeça.”
E não importava o quão longe eu corresse…
Eu sabia que Darius me encontraria de novo.
