Capítulo 4 O Invasor
O ar do meu apartamento parecia errado.
Não era só o mofo abafado de sempre nem o leve cheiro de tinta das paredes rachadas. Não. Aquilo era outra coisa. Algo vivo. Eu congelei na porta, uma mão se fechando instintivamente na alça da bolsa. Todo instinto que eu tinha — de lobo, de vampira, de qualquer parte quebrada de mim que ainda funcionasse — gritava que eu não estava sozinha.
Meus dedos coçavam por uma arma.
O zumbido suave da lâmpada do teto tremeluzia uma, duas vezes, antes de eu alcançar o interruptor. A luz acendeu — fraca e amarelada — e foi então que eu o vi.
Darius Kade.
Sentado com a maior naturalidade no meu sofá de dois lugares afundado, como se fosse o dono do lugar.
O ar ficou preso na minha garganta. Por um segundo, minha mente não conseguiu entender. O Rei Alfa — o homem cujo nome ainda fazia lobos se curvarem em silêncio e vampiros mostrarem as presas em desafio — estava sentado no meu apartamento. Na mesma caixinha minúscula, desmoronando, que eu chamava de casa.
“O-o que diabos você está fazendo aqui?”, consegui sussurrar, minha mão já se fechando em torno da faca de cozinha que eu mantinha perto da bancada.
Ele não se mexeu. Nem sequer pareceu surpreso.
Ele se recostou, um braço musculoso largado com preguiça no encosto do meu sofá, o outro apoiado na coxa. A maldita coisa parecia uma cadeira de criança sob o tamanho dele. Ele era grande demais, poderoso demais, errado demais naquele espaço. A regata preta colava no peito e nos ombros, o tecido esticado sobre músculos que pareciam talhados em pedra.
E as tatuagens... deuses, eu não consegui evitar notar. A tinta preta espiralava do ombro até o antebraço, símbolos e linhas que pareciam antigos, talvez até rúnicos. A pele dele brilhava de leve sob a luz, as sombras aprofundando a cicatriz que cortava a sobrancelha esquerda. Os olhos dele — eu tinha achado que fossem azuis antes, mas agora, na penumbra do meu apartamento, cintilavam num verde frio e predatório.
“Eu perguntei o que diabos você está fazendo aqui”, repeti, mais alto dessa vez, apertando a faca com mais força. “Como você se atreve a invadir o meu apartamento!”, rosnei e acendi a luz.
“Eu mal chamaria isso de apartamento, parece mais um armário de zelador”, disse ele com aquela voz aveludada, e se levantou da minha cama desarrumada. Meu apartamento era pequeno, apertado, e tudo ficava no mesmo lugar: o quarto e, a poucos passos, a cozinha minúscula e um banheiro ainda menor.
A humilhação queimou, quente, no meu peito. “Sai daqui”, rosnei, o som quase feroz. “Sai. Agora.”
Ele não se mexeu.
Aquele sorriso de canto irritante continuou exatamente onde estava.
E então, baixo, como se estivesse comentando sobre o tempo, ele disse: “Por que você fugiu, minha pequena companheira?”
Meu estômago despencou.
Não. Não, não, não.
Minha mão vacilou na faca, o metal tremendo um pouco entre meus dedos. Eu encarei ele, meu pulso rugindo nos ouvidos. “Não”, eu sussurrei, a voz falhando. “Não me chama assim.”
A expressão dele suavizou, quase divertida. “Mas é isso que você é.”
“Eu não sou nada sua.”
“É, sim”, ele disse simplesmente, como se o próprio universo concordasse.
O quarto pareceu menor de repente. O ar, mais pesado. Aquela sensação estranha, elétrica, que eu tinha sentido mais cedo — a que fazia minha pele formigar e meus sentidos se embaralharem — voltou com tudo, de uma vez só. Meu coração batia tão forte que eu achei que podia arrebentar minhas costelas.
Não podia ser.
Não podia.
Porque o homem sentado no meu sofá era Darius Kade, o Rei Alfa. O executor do meu pai. O motivo de eu ter perdido tudo. O motivo de eu ter vivido em medo e sombras por anos.
E, ainda assim, meu corpo — essa coisa traidora que era — reagiu à proximidade dele como se tivesse encontrado algo que nem sabia que estava faltando.
— Eu devia te matar — sibilei, aproximando-me, erguendo a faca de novo. — Você tem uma coragem do caralho de aparecer aqui… depois do que você fez.
O olhar dele oscilou, algo escuro passando por ele.
— Eu não entendo por que você me odeia tanto, por que toda essa hostilidade. Eu não vou te machucar — disse ele, com suavidade.
— Eu te odeio com cada fibra do meu ser. Você pode ter esquecido, mas eu não esqueci, e eu vou vingar meu pai, que você matou — rosnei para ele, tentando me transformar para poder arrancar a garganta dele. E matá-lo ali mesmo, onde estava.
— Eu sei quem você é. Seu pai é um louco… um maníaco, Jack Soren! — disse devagar, e o olhar dele ficou frio.
Meu coração falhou uma batida. Ouvir meu nome nos lábios dele pareceu errado, íntimo demais.
— Não ouse falar dele! — gritei, com a faca tremendo na minha mão. — Você o matou, e me deixou sem casa. Você destruiu a minha vida!
Então ele se levantou, lento, deliberado, e de repente o quarto não era grande o bastante para contê-lo. A presença dele o preenchia, engolindo o ar, tornando impossível respirar.
Ele suspirou, como um homem cansado de explicar o óbvio, e deu um passo à frente.
— Eu e o conselho dos Eldees estamos procurando você… alguns até disseram que você devia ter morrido — ele disse. — Eu não vim aqui para brigar com você.
Isso me fez congelar. Eu sabia que eles estavam procurando.
— Então agora o quê? Quer terminar o que começou?
— Lyra…
— Eu vou fazer você pagar — rosnei, cortando-o. A fúria me atingiu como uma onda. Antes que eu pudesse pensar, avancei.
A faca cortou o ar na direção da garganta dele.
Ele pegou meu pulso no meio do golpe.
Eu lutei, mas acabei derretendo nos braços dele quando comecei a sentir meu corpo esquentar. Ele rosnou; senti quando ele me ergueu e me prendeu contra a parede. Meu corpo reagiu sozinho e enlaçou as pernas na cintura dele. O peito dele estava pressionado com firmeza contra o meu… mas não era a única coisa que me pressionava. Eu sentia a dureza dele se esfregando forte em mim.
Voltei a mim depressa quando o ouvi começar a desafivelar o cinto — ele queria me reivindicar ali mesmo — e eu me debati até conseguir me soltar do aperto dele.
— Não chegue perto de mim! — gritei, e peguei a faca de novo. — Saia! E nunca mais apareça aqui! — ameacei.
— Eu não vou embora sem a minha companheira — ele disse, e ajeitou as roupas. — Você é minha, minha pequena híbrida — falou, antes de se mover e me desarmar outra vez.
A pegada dele era de ferro, inflexível. A faca bateu no chão com um estalo quando tentei me soltar, mas a força dele era desumana. Eu chutei, arranhei, tentei cravar os dentes nele, mas ele só apertou ainda mais o abraço.
Num movimento único e fluido, ele me girou, e antes que eu entendesse o que tinha acontecido — fui erguida, totalmente, para fora do chão.
— Me solta! — gritei, me debatendo.
Ele não soltou.
Um dos braços dele se prendeu firme à minha cintura; o outro, imobilizando minhas mãos contra o peito dele. O corpo dele era calor sólido esmagado contra o meu, o cheiro de cedro e vento de tempestade invadindo meus sentidos. Meus pés ficaram balançando a poucos centímetros do chão enquanto ele me segurava sem esforço — como se eu não pesasse nada.
— Se acalma — ele disse baixo, a voz um rosnado grave no meu ouvido.
— Me põe no chão!
— Não até você parar de tentar me esfaquear.
— Então para de invadir propriedade alheia!
Tentei me torcer de novo, mas ele só ajustou a pegada. A respiração dele roçou meu pescoço — quente, constante, enlouquecedora. Meu pulso disparou.
— Você está sentindo? — ele perguntou, suave.
Eu congelei.
— Não — sussurrei.
Ele se inclinou mais, e as palavras dele foram um sussurro perigoso contra a minha pele.
— Você sente, não sente, Lyra? A atração. O vínculo.
Meu coração se apertou, dolorido.
— Isso é uma piada — falei entre dentes. — Tem que ser.
— Não é.
Eu senti o peito dele subir e descer contra minhas costas, a batida do coração dele firme onde o meu era puro caos.
— O destino às vezes é cruel — ele murmurou. — Você e eu sabemos disso.
O toque dele mandou arrepios pela minha espinha. Era como se um fogo tivesse começado e estivesse queimando sob a minha pele.
— O único destino para o qual eu fui feita é te matar! — cuspi.
— Você machucaria o seu próprio companheiro? — ele sussurrou, a boca a um sopro dos meus lábios.
— Eu te rejeito! — rosnei. Mas não senti o vínculo se romper. Não me surpreendeu; afinal, ele era o Rei Alfa, descendente do Lycan original.
— Você sabe que só eu posso rejeitar você, pequena híbrida — ele disse, o hálito quente abanando meu rosto. — Eu esperei a vida inteira por você.
Ele continuou e esmagou os lábios nos meus. E eu derreti nos braços dele. Eu não tive tempo de voltar à realidade quando a mão firme dele se fechou sobre a minha boca, outra se enlaçou na minha cintura, e eu fui erguida como se não pesasse nada. Meus pulmões gritaram, mas ele me segurou com uma força inabalável. Eu me contorci, chutando e arranhando, tentando achar uma saída, mas não adiantava. Ele era rápido demais, forte demais — uma montanha de músculos, a imagem perfeita de tudo o que eu temia e não conseguia parar de notar.
— Me põe no chão, seu babaca! — eu berrei, pendurada nos ombros dele.
Ele não disse nada enquanto me carregava porta afora.
Eu mal tive tempo de recuperar o fôlego quando o som de motores deslizando sobre o asfalto molhado fez meu sangue gelar. SUVs pretas se alinhavam na rua como predadores cercando um animal ferido, os vidros escurecidos refletindo o brilho opaco das luzes da cidade. Meu coração bateu com força no peito e, instintivamente, eu procurei qualquer coisa — um pedaço de pau, um cano de metal, meus punhos nus. Mas eu não precisava deles.
— Você vai se acalmar — ele murmurou, a voz baixa e tranquila, quase sedutora, mesmo enquanto eu me debatia contra ele.
O cheiro me atingiu então: cedro, fumaça e alguma coisa animal que fez meus instintos híbridos rugirem. Meu pulso disparou quando um arrepio me atravessou de ponta a ponta. Eu deveria odiá-lo. Eu odiava. Ele matou meu pai, me obrigou a me esconder e despedaçou a minha vida. E, ainda assim, sob o aperto dele, uma parte perigosa de mim zumbia, despertando — alerta, faminta, testando.
Abri a boca, não para falar, mas para morder. Meus dentes afundaram no antebraço dele, abrindo um filete fino de sangue. Ele grunhiu, mas não me soltou. Em vez disso, apertou o abraço só um pouco mais. Dor e calor incendiaram dentro de mim — um pouco medo, um pouco raiva, um pouco de algo que eu não ousava nomear.
— Pervertido — sibilei, chutando-o nas costelas, a voz tremendo numa mistura de fúria e frustração. — Tira as mãos de mim!
Os lábios dele se curvaram num sorrisinho leve, divertido.
— Eu não quero nada além de reivindicar você — disse, os olhos verdes cintilando de um jeito perigoso. — É instinto de lobo, híbrida. A minha companheira não pode fugir de mim.
Eu congelei. Companheira. A palavra me atingiu como uma lâmina no peito. Meu corpo reagiu sem o meu consentimento, os músculos se retesando, o pulso martelando contra as costelas. Eu queria me soltar, gritar, dizer que ele não tinha esse direito. Mas uma parte primal de mim, alguma coisa nas profundezas do meu sangue híbrido, tremeu com as palavras dele.
— Você não tem o direito de reivindicar nada — cuspi, mostrando os dentes. — Você matou meu pai! Você… você…
Minhas palavras morreram quando o aperto dele não vacilou. Cada golpe, cada protesto, cada fiapo de resistência era inútil contra ele.
Os motores dos SUVs rugiram, e de repente estávamos nos movendo. Minha cabeça bateu no peito dele enquanto ele me carregava até um dos veículos pretos. Chutei de novo, tentando fazê-lo me largar, mas a pegada dele era de ferro. Eu sentia cada movimento, cada mudança do corpo enorme sob mim, e meus sentidos híbridos gritavam de um jeito que eu não sentia havia anos — alertas, vivos, em pânico.
Dentro do SUV, tentei me contorcer para me soltar, só para descobrir as portas trancadas e as mãos dele me mantendo firme contra o peito. O pânico arranhou minha mente. O cheiro dele estava em toda parte — forte, almíscarado, avassalador. Encostei os dentes no ombro dele de novo, abrindo outra linha vermelha, mais desesperada dessa vez.
— Chega — ele rosnou, baixo e perigoso, e eu senti um arrepio de medo e outra coisa se enroscar dentro de mim. — Se você continuar se mexendo, eu vou reivindicar você bem aqui, no banco de trás do carro.
Eu recuei, respirando com dificuldade, o peito subindo e descendo em ondas frenéticas.
— Você é louco — falei, encarando-o. — Eu não pertenço a você, e nunca vou pertencer!
A risada dele foi suave, mas com uma ponta de perigo, quase um rosnado.
— Você já pertence. E fugir disso só deixa mais excitante.
Eu lutei, mas meus braços pareciam fracos diante do domínio absoluto do aperto dele. Tentei me afastar, empurrá-lo, mas não consegui. Até a minha força híbrida, meus instintos de lobo, minha velocidade de vampira pareciam abafados ali. Ele era uma força da natureza — um predador que o meu sangue reconhecia instintivamente, eu querendo ou não.
