Capítulo 5 A Mansão do Rei Alfa

O comboio cortou os arredores escurecidos da cidade, os faróis rasgando a neblina. O som dos motores roncava como trovão nos meus ouvidos enquanto eu estava no banco de trás com Darius.

— Abra essa porta e me deixe sair! — rosnei pela centésima vez, mas minhas palavras foram engolidas pelo zumbido da escolta.

Ele não respondeu. Nem sequer olhou para mim. A pouca luz do painel recortava sua mandíbula marcada, a expressão esculpida em pedra, uma mistura de paciência e aviso. O cheiro dele, pinho e aço e algo mais antigo do que eu conseguia nomear, grudava no ar e arranhava minha sanidade.

Cerrei os punhos. Eu não me importava com quem ele era, Rei Alfa ou não; eu não ia deixar que ele me tratasse como um saco de farinha.

— Você sempre sequestra mulheres que não consegue controlar? — sibilei.

Isso provocou uma reação: uma risada quieta e sombria, baixa no peito.

— Só as que tentam me esfaquear — ele disse.

Meus olhos arderam.

— Você invadiu a minha casa.

— Você não me deixou escolha.

— Eu não quero nada com você!

Ele finalmente me olhou, só tempo suficiente para eu captar a curva discreta da boca dele, que não era bem um sorriso.

— Você vai mudar de ideia cedo ou tarde, híbrida — disse.

— Para de me chamar assim!

Ele não parou.

O comboio saiu da estrada principal, entrando num caminho ladeado por pinheiros enormes, que pareciam ter séculos. A névoa engrossou até se comprimir contra as janelas como fumaça. Eu estreitei os olhos, tentando enxergar além do vidro escurecido, mas só conseguia distinguir sombras.

Dirigimos pelo que pareceu uma eternidade. O ar ficou mais frio. Meu coração martelava no peito.

Por fim, através do nevoeiro, surgiram enormes portões de ferro, negros e ornamentados, entalhados com o sigilo de uma cabeça de lobo coroada por espinhos. Eles se abriram sem emitir um som, as correntes pesadas se separando como se obedecessem a uma mão invisível.

Além deles, apareceu uma propriedade imensa, sua silhueta rompendo a bruma como algo arrancado de um pesadelo e de um sonho ao mesmo tempo.

A mansão era colossal, antiga, suas paredes de pedra escura se estendendo para cima, noite adentro, as janelas brilhando num dourado tênue. Bosques de pinheiros a cercavam por todos os lados, e o ar cheirava a terra molhada e chuva. A longa entrada reluzia sob os faróis, paralelepípedos escorregadios de umidade.

— Onde a gente está? — exigi, me virando no banco.

— Em casa — ele respondeu.

— Na sua, não na minha.

— Isso depende — disse, simples assim.

— Depende do quê?

Antes de responder, ele me puxou e me colocou no colo. Os dedos dele roçaram a parte de trás da minha coxa quando ele apertou a pegada para me impedir de me debater.

— Depende de você parar de lutar contra mim.

Eu fiquei imóvel, encarando a janela em vez dele.

— Você é insuportável.

— Já me chamaram de coisa pior.

Os veículos pararam diante da grande escadaria da mansão. Criados — pelo menos uma dúzia — estavam à espera, enfileirados em ordem impecável, de cada lado dos largos degraus de pedra. Homens de terno escuro, mulheres de vestidos cinza, todos com a cabeça baixa em respeito enquanto o Alfa saía do carro.

Darius abriu a porta e saiu, me carregando sem esforço. Eu me debati em protesto.

Tentei chutá-lo de novo, para me soltar à força, mas ele nem sequer se mexeu.

— Mara — ele chamou, a voz carregada de autoridade.

Uma mulher idosa deu um passo à frente, inclinando-se levemente.

— Boa noite, Vossa Majestade — disse a mulher mais velha, o cabelo prateado preso com cuidado em um coque.

— Mara — Darius disse, com a voz firme. — Está tudo pronto?

— Sim, Alfa — respondeu ela com um pequeno aceno. Os olhos dela se voltaram para mim, arregalando-se um pouco, mas ela não disse nada. Anos de serviço deviam ter lhe ensinado que o silêncio era a resposta mais segura.

— Ótimo — ele respondeu, ajustando minha posição no ombro, uma mão enorme me mantendo presa. Eu me debati violentamente, socando e acertando cotoveladas nas costas dele. — Me põe no chão! Eu juro que vou te matar!

— Você vai me agradecer depois — ele murmurou, quase com ternura, embora o aperto em mim não afrouxasse.

— Me põe no chão! Eu sei andar!

Ele não diminuiu o passo ao subir os degraus.

— Você só vai fugir.

— Com certeza vou!

Isso arrancou dele outra risada baixa.

— Exatamente.

Os criados nem piscaram. Seus olhares subiram por um instante, só uma vez, ao verem ela se debatendo contra ele, mas nenhum deles ousou dizer uma palavra. O silêncio deles era sufocante, reverente, como se ele carregasse uma deusa ou uma maldição nos braços.

Meu cabelo era um emaranhado selvagem ao redor do rosto. Minha jaqueta velha escorregava de um ombro, e minha respiração vinha em rajadas furiosas. Senti o cheiro de fumaça de pinho e chuva quando as pesadas portas da frente se abriram.

O interior roubou o pouco ar que eu ainda tinha.

Lá dentro, a opulência escorria de cada superfície.

O piso era de mármore puro, branco, com veios dourados, polido a um brilho tão intenso que eu conseguia ver o reflexo do lustre acima. Cristais pendiam em camadas em cascata, captando a luz do fogo nas paredes e espalhando-a pelo salão em estilhaços cintilantes. Retratos de homens e mulheres em trajes régios alinhavam as paredes — alfas, percebi. Os olhos pintados me seguiam enquanto Darius atravessava o grande saguão.

Era demais. Perfeito demais. Silencioso demais.

Continuei socando as costas dele.

— Eu disse pra me soltar!

— Pare de me bater.

— Eu vou parar quando—!

Dei um grito quando a palma dele bateu na minha bunda.

— S-seu... seu desgraçado!

As botas de Darius ressoaram no piso polido enquanto ele continuava me carregando escada acima, ainda jogada sobre o ombro dele como se eu não pesasse nada. Eu soquei as costas dele, mas era como bater numa parede de pedra e músculo.

— Me põe no chão! — eu gritei, me contorcendo, chutando, arranhando a camisa dele.

— Pare de se debater — ele disse, com uma calma enlouquecedora. — A menos que você queira que eu te derrube de cabeça.

— Ainda seria melhor do que estar aqui com você! — retruquei.

Ele riu — baixo, grave, um som que me fez estremecer sem querer.

— Duvido, lobinha.

— Me põe no chão, seu maníaco! — rosnei.

Ele me ignorou completamente, atravessando as portas de um dos quartos.

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