Capítulo 6 Uma gaiola de luxo
Ele não apenas me jogou na cama — ele me arremessou.
O impacto mandou um choque pelo meu corpo; o ar escapou dos meus pulmões enquanto eu me arrastava para trás, as mãos tateando, desesperadas, qualquer coisa que pudesse servir de arma. A cama enorme afundou sob o peso dele, mesmo sem ele ter se aproximado ainda; era grande demais, macia demais, errada demais. Meu pulso rugia nos ouvidos.
— Encosta em mim e eu te mato — cuspi, as palavras tremendo entre a desafio e o medo. Minhas costas bateram na cabeceira de mogno entalhada e eu não me importei com o quão pequena ou indefesa eu pudesse parecer; eu preferia morrer lutando a deixá-lo achar que tinha vencido.
Darius ficou ao pé da cama, a luz dourada e fraca do lustre projetando sombras duras no rosto dele. O cabelo preto estava levemente desgrenhado pela luta, o maxilar travado, os músculos se movendo sob a camisa preta como se contivessem um poder mal contido.
— Eu não vou encostar em você — ele disse, a voz baixa e firme, e ainda assim a aspereza nela fez meu coração falhar uma batida. — Não até você querer.
Eu ri, amarga.
— Esse dia nunca vai chegar.
Ele deu um passo mais perto, lento e deliberado, como um predador entretendo a própria presa.
— Veremos.
Minha respiração engasgou, apesar de mim. A voz dele tinha suavizado, descendo para algo perigoso e magnético.
— Você é minha companheira, Lyra — continuou. — Você não tem nada a temer aqui.
— Só por cima do meu cadáver.
— Não me tente. — Ele abriu um meio sorriso.
Meu peito subia e descia. Cada palavra que saía da boca dele me fazia querer arranhá-lo.
— O que te dá o direito de me arrastar pra cá? Você acha que, só porque é o Alfa, pode simplesmente—
— Sim.
Aquela única palavra, calma, absoluta, me acertou como um tapa.
Minha voz quebrou na respiração seguinte.
— Você é inacreditável.
— Você está sangrando — ele disse em vez disso, acenando com a cabeça para o meu braço.
Olhei para baixo. Eu não tinha notado o arranhão que tinha feito quando lutei com ele antes, só uma linha fina de vermelho no meu antebraço. Puxei o braço quando ele estendeu a mão na minha direção.
— Não encosta em mim.
— Eu não estava pedindo permissão.
— Pois eu não estou dando.
Por um instante, o silêncio se esticou entre nós, pesado, elétrico. O olhar dele se prendeu ao meu, indecifrável e em chamas ao mesmo tempo. Algo cintilou ali, algo antigo e instintivo que fez meu estômago se revirar.
Ele foi o primeiro a quebrar o momento, endireitando-se.
— Mara vai cuidar de você.
— Eu não preciso da sua—
— Você precisa descansar — ele disse, ríspido, me cortando de novo.
Eu fuzilei o olhar dele, as mãos se fechando em punhos.
— Você não me diz do que eu preciso ou deixo de precisar, você nem me conhece.
A boca dele se curvou, não num sorriso, mas em algo muito mais perigoso.
— Não conheço?
Aquilo me fez congelar.
Ele deu um passo lento para a frente.
— Você pode lutar comigo se quiser — disse, baixinho. — Pode me odiar. Mas entenda isto… — Ele se inclinou mais perto, a voz caindo num sussurro baixo e áspero. — Você não é minha prisioneira, pequena híbrida… a menos que você mesma se faça uma.
Minha respiração travou. As palavras atingiram algo fundo dentro de mim, algo antigo e selvagem que estava adormecido havia tempo demais.
Eu queria dar um tapa nele. Queria sair correndo.
Mas, em vez disso, fiquei ali parada, o coração martelando, consciente demais do calor que emanava do corpo dele, de como o espaço entre nós parecia carregado — perigoso, magnético, vivo.
Ele se virou e foi em direção à porta sem olhar para trás. — Descanse. A gente conversa de manhã.
— Eu não vou ficar aqui!
Ele parou, o mais leve dos sorrisos puxando o canto da boca. — Você é livre para ir embora — disse. — Se conseguir passar pelos portões.
Por um instante, o ar entre nós estalou. Eu conseguia sentir, a força do vínculo, o fio invisível nos amarrando. Eu odiava aquilo. Odiava ele. Odiava a maneira como meu corpo parecia me trair a cada respiração que enchia meus pulmões com o cheiro dele.
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo e soltando o ar. — Você está exausta. Com raiva. Assustada. Nada disso vai te ajudar agora.
— Eu não preciso da sua ajuda — sibilei.
— Talvez não — ele disse, me lançando um olhar com algo indecifrável. — Mas você precisa descansar. E comer.
Ele se virou para a porta de novo.
— Espera — eu disse, seca. — Aonde você vai?
— Garantir que você não tenha a menor chance de escapar — ele respondeu.
Então, antes que eu pudesse me mexer, ele saiu do quarto. A porta se fechou com um clique pesado, e eu conhecia aquele som.
Ele tinha me trancado.
Eu me virei, observando o quarto — não, a suíte. Era enorme. Maior do que o meu apartamento inteiro, provavelmente. Detalhes dourados percorriam as paredes cor de creme, cortinas de veludo emolduravam janelas altas, e a cama no centro era grande o bastante para quatro pessoas.
Tudo cheirava a ele.
Engoli em seco, odiando a forma como meu corpo reagia a aquilo.
Madeira, fumaça e um almíscar selvagem. O cheiro se agarrava aos lençóis, às cortinas, até ao maldito ar. Meus dedos roçaram o veludo das cortinas, rico, pesado e perfeitamente conservado. O quarto tinha facilmente o triplo do tamanho do meu apartamento na cidade.
— Este é o quarto dele — sussurrei, a compreensão surgindo.
Claro que era. Os toques masculinos estavam por toda parte: os paletós sob medida pendurados numa cadeira, o leve aroma de uísque vindo do decantador sobre a cômoda, as botas perto da porta. O lugar inteiro respirava Darius.
Fui até a sacada e puxei a maçaneta com força. Não se mexeu. Trancada por fora. Meu estômago se revirou.
Em seguida, tentei a porta principal. Trancada também.
— Claro — murmurei, entre dentes. — A hospitalidade do grande Rei Alfa: prisão de luxo.
O pânico pinicou sob minha pele, frio e rastejante. Se Darius sabia quem eu era… se ele realmente me reconheceu, então era só questão de tempo até o Conselho dos Anciãos saber também. E, se eles soubessem—
Esse pensamento me atravessou com um choque de puro terror.
Eles não podiam saber. Não podiam.
Se me encontrassem, se percebessem o que eu era, não seria apenas a minha vida que estaria em risco. A coisa que vivia dentro de mim, a criatura presa ao meu sangue, jamais seria autorizada a existir. O Conselho havia executado pessoas por muito menos.
Eu me obriguei a respirar, andando de um lado para o outro. Eu precisava pensar. Eu precisava de um plano.
Cerrei os punhos com tanta força que as unhas cravaram nas palmas. “Você vai pagar pela morte do meu pai”, murmurei. “Eu vou garantir que pague.”
Mas a raiva não conseguia afogar o medo, nem a crescente sensação de claustrofobia que me apertava, vindo de todas as paredes.
Tentei a porta de novo, sacudindo a maçaneta, batendo o ombro contra ela uma vez, mas nada. Carvalho maciço, reforçado. Fui até as portas da sacada, puxando as maçanetas com toda a minha força. Trancadas. Seladas.
O pânico começou a se agitar no meu peito, lento e sufocante.
Meus olhos se prenderam à porta contígua perto da lareira. Eu a empurrei e abri: um closet. Ou talvez chamar aquilo de closet fosse minimizar. Era uma butique. Prateleiras de camisas finas, jaquetas e ternos sob medida. Fileiras de sapatos polidos à perfeição. Tudo tinha o cheiro dele, limpo, marcado, inebriantemente masculino.
Virei o rosto, enojada comigo mesma por ter notado.
Outra porta levava a um banheiro mais parecido com um spa pequeno. As paredes eram de mármore, o chão aquecido sob meus pés descalços, uma luz âmbar suave derramando-se sobre uma banheira funda de pés em garra já cheia de água fumegante e pétalas de rosa. Um roupão de seda pendia ali perto.
Ele tinha planejado aquilo. Se eu não quisesse matá-lo por ter assassinado meu pai, eu me comoveria com a consideração.
Ele tinha mandado preparar para mim.
Meu coração se apertou com essa constatação, não com calor, mas com confusão. Que tipo de sequestrador oferece conforto? Que tipo de monstro te carrega para longe só para te oferecer um banho?
Agarrei a borda da banheira, meu reflexo tremulando na água.
“Isso não faz sentido”, sussurrei.
Não fazia. Nada daquilo fazia.
Ele tinha me chamado de sua companheira, mas aquilo não podia estar certo. Darius Kade, o Rei Alfa, era implacável. Meu pai foi morto por ele simplesmente porque ele e minhas mães estavam apaixonados.
E agora o destino, um destino cruel, distorcido, tinha decidido me prender a ele?
Não. Eu não aceitaria.
Voltei para o quarto, encarando a luz fraca da lua que se derramava pelas cortinas. Eu conseguia ouvir passos tênues do outro lado da porta, guardas postados do lado de fora. Eles nunca me deixariam sair daqui andando.
Mas eu encontraria um jeito. Eu tinha que encontrar.
Desviei o olhar e avancei de volta para o cômodo principal. O tapete grosso abafava meus passos, mas o silêncio pesava sobre mim de todos os lados. Parecia errado estar ali, como pisar em território proibido.
Havia algo no ar que fazia o monstro dentro de mim se remexer, inquieto, sussurrando que este lugar, este homem, eram ao mesmo tempo perigo e pertencimento.
Não. Eu não ia ceder. Eu não podia.
Voltei até a porta e soquei de novo. “Darius!”
Silêncio.
“Eu juro pela Deusa da Lua, se você não abrir essa porta—”
Ainda nada.
Bati na porta outra vez, o som ecoando no espaço cavernoso. Minha voz falhou. “Você não pode me manter aqui! Está me ouvindo? Não pode!”
Quando nenhuma resposta veio, o peso de tudo me acertou em cheio. Meus joelhos cederam, e eu afundei no chão. O ar estava denso, pesado, vibrando de leve com energia. Talvez fosse o vínculo de companheiros; talvez fosse a própria mansão.
Eu já não sabia.
Apertei as palmas contra o peito, tentando desacelerar a respiração. “Ele sabe quem você é”, sussurrei para mim mesma. “Eles também sabem.”
Um tremor me atravessou. O monstro dentro de mim, aquele que eu passei anos reprimindo, se mexeu em reconhecimento, sussurrando: Corra.
Levantei de novo, forçando minha mente a clarear. Vasculhei as janelas, as saídas de ar, até a lareira. Tinha que haver um jeito de sair.
A varanda dava para a floresta, escura, interminável, espessa de neblina. A queda era alta, mas, se eu me transformasse, eu poderia sobreviver. Talvez. Se eu conseguisse arrebentar a fechadura.
Puxei a maçaneta outra vez até meus dedos doerem. Não se mexeu. Pensei em jogar uma cadeira através do vidro, mas algo me dizia que era reforçado — afinal, era o quarto do Rei Alfa. Nada aqui quebraria com facilidade.
Derrotada, me larguei na beirada da cama, encarando a lareira tremeluzente. Sombras dançavam pelas paredes.
Aquilo não era um lar. Era uma fortaleza.
E eu era sua prisioneira.
Mas as palavras de Darius ecoavam na minha cabeça. Você não tem nada a temer aqui.
Era mentira. Tinha que ser.
Pensei no rosto dele quando eu o acusei de matar meu pai — o lampejo de culpa, ou talvez surpresa, que atravessou sua expressão antes de a máscara voltar ao lugar. Ele seria capaz? Não. Eu não podia me deixar acreditar nisso. Um lobo implacável como ele sentir remorso?
E agora a deusa, com seu senso de humor retorcido, tinha me atado a ele.
Enterrei o rosto nas mãos.
Por muito tempo, eu só fiquei ali, ouvindo o tique-taque fraco de um relógio invisível. A casa estalava, viva no próprio silêncio. Em algum lugar além das paredes, eu conseguia sentir a presença dele, constante, poderosa, observando. O vínculo pulsava de leve, me puxando como um batimento.
Ele disse que não tocaria em mim até eu querer.
Não precisava.
O vínculo já estava fazendo o trabalho por ele.
Eu me pus de pé e fui até a janela outra vez. A lua pairava baixa, prateada e cruel. Meu reflexo me encarou de volta — cansada, furiosa, com medo, mas não quebrada.
Ainda não.
Meu olhar derivou para a floresta além dos portões de ferro. Em algum lugar lá fora, a liberdade me esperava, fria, selvagem e perigosa. Mas era melhor do que aquela prisão dourada.
Apertei a mão contra o vidro. “Antes do amanhecer”, prometi a mim mesma.
Antes do amanhecer, eu já teria ido embora.
