Capítulo 7 Noite de Restriant

O silêncio no quarto era sufocante, quebrado apenas pelo estalo fraco do fogo e pelo tique-taque ritmado de algum relógio invisível. Esperei por horas, à escuta de passos, do ranger da porta, de qualquer coisa que me dissesse que ele estava perto de novo. Mas não houve nada. Só eu e esta gaiola dourada que tinha o cheiro dele.

Depois de andar de um lado para o outro até quase conseguir ouvir o eco das minhas batidas do coração, eu me obriguei a respirar e a fazer um balanço. Eu precisava pensar como uma sobrevivente, não como uma vítima. Eu já tinha sobrevivido a coisa pior. Eu podia sobreviver a isso.

Meus olhos percorreram o quarto outra vez, captando detalhes que eu não tinha notado antes. Era tudo perfeito demais, cuidadoso demais. Os móveis entalhados brilhavam como se tivessem sido polidos até o limite. As cortinas, de veludo bordô profundo, caíam em dobras pesadas até o chão. O lustre acima cintilava como estrelas capturadas, espalhando luz pelas paredes com acabamento dourado.

E, por toda parte, aquele cheiro — o cheiro dele — pairava denso no ar: cedro, fumaça, almíscar selvagem e um leve fundo metálico de dominância. Era impossível escapar, infiltrando-se nos meus pulmões, no meu pulso, nos meus pensamentos. Eu odiava como meu corpo respondia, como algum instinto enterrado se mexia e sussurrava: companheiro.

Balancei a cabeça com violência. Não. Eu não daria significado a essa palavra.

Eu precisava de um plano. Uma saída. Qualquer coisa.

Meu olhar caiu no lado oposto do quarto, onde portas duplas levavam a um closet. Atravessei o piso de mármore e as empurrei para abrir.

Aquilo não era apenas um closet. Era uma loja.

Fileiras e mais fileiras de ternos sob medida ocupavam uma parede, cada um organizado por cor e tecido. Do lado oposto, pendiam vestidos. Dezenas deles — seda, cetim, veludo — todos caros, todos novos e todos do meu tamanho. Abaixo, havia caixas de salto alto, joias delicadas cintilando sob a iluminação embutida e suave.

Meu peito se apertou. Ele tinha preparado aquilo.

Cada detalhe estava planejado.

Ele não tinha me trazido para cá por impulso.

A percepção revirou meu estômago, mas eu me forcei a continuar olhando. Perto do fundo, havia uma penteadeira coberta de frascos de perfume, pentes e joias, a maioria ainda lacrada. Passei um dedo trêmulo por um grampo de cabelo com diamantes e puxei a mão de volta como se tivesse me queimado.

Ele estava tentando me domar.

Me deixar confortável. Me tornar dele.

Mas ele não entendia. Não importa o quão bonita fosse a gaiola, ainda era uma gaiola.

Fui mais para dentro do closet, até meu olhar prender em algo na prateleira do meio: um relógio.

Era um relógio masculino, elegante e caro, ouro e aço, ainda funcionando. Um sorriso pequeno, quase cruel, puxou meus lábios.

— Bom — sussurrei, pegando-o da prateleira. — Vou precisar disso quando eu for embora.

Se eu fosse escapar, pelo menos eu podia levar algo que valesse a pena vender. Só isso já daria para pagar mais alguns meses de aluguel, comida — e tempo.

Enfiei-o no bolso, com cuidado para não fazer barulho, embora eu duvidasse que alguém estivesse ouvindo.

Me afastei daquele closet tentador e voltei para o quarto principal.

O fogo tinha baixado, e a luz era suave e dourada contra a escuridão. Fiquei ali por um bom tempo, encarando a cama. Os lençóis pareciam macios demais, como se fossem me engolir inteira. Mas tinham o cheiro dele — como a mata depois da chuva, como perigo, como tudo que me fazia a pele arrepiar e o sangue ferver.

Aquele cheiro não era apenas inebriante. Era de vínculo. O chamado do companheiro tornava tudo pior, amplificando cada coisa, transformando a repulsa num calor insuportável. Todo instinto gritava para eu ir até ele, para eu respirar aquele aroma, para eu me entregar.

Apertei uma mão contra o peito e forcei o ar a sair dos meus pulmões. “Não”, sussurrei. “Ele não.”

Em vez disso, arranquei um travesseiro da cama e joguei no sofá ao lado da janela. O sofá era macio, grande o bastante para eu me encolher. Peguei outro cobertor no pé da cama, enrolei ao redor do corpo e afundei nas almofadas.

O cheiro me seguiu mesmo assim.

Ele se agarrava ao travesseiro, ao ar, à minha pele. Enterrei o rosto no tecido e inspirei apesar de mim. A nota fraca de fumaça de lenha fez meu estômago se revirar de um jeito que eu não entendia.

Droga.

O luar entrava inclinado pelas janelas altas, lavando tudo de prata. Fiquei olhando para a floresta enevoada além da sacada e tentei firmar os pensamentos.

O rosto do meu pai surgiu na minha mente: seus olhos gentis, as mãos gastas manchadas de produtos químicos e tinta.

“Nunca deixe que eles saibam o que você é, Lyra”, ele costumava dizer. “Eles vão vir atrás de você se descobrirem.”

E eles vieram.

Ele morreu por isso.

As lembranças ardiam, afiadas e cruéis. A pesquisa dele tinha sido tudo — a obsessão em curar os “defeitos” na fisiologia dos híbridos. A maioria dos híbridos não conseguia se transformar, suas linhagens eram instáveis. Mas eu era diferente. Eu conseguia me transformar, e meu pai queria ajudar outras crianças como eu, que também eram híbridas.

Eu me lembrava da primeira vez que me transformei. Quando me transformei, eu não era lobo nem vampiro. Eu era outra coisa. Algo com veias negras e garras como obsidiana. Uma criatura que uivava de fome e violência.

E na noite em que me transformei pela primeira vez, eu perdi o controle.

Rostos piscavam na minha mente, os gritos, o cheiro de sangue, o horror no rosto do meu pai antes de ele me injetar o antídoto que me forçou de volta à forma humana.

Eu machuquei pessoas naquela noite. Talvez tenha matado. Eu não sabia.

Eu não queria saber.

Desde então, jurei nunca mais deixar aquele monstro sair.

Enfiei a mão no bolso da jaqueta e tirei o pequeno frasco que eu sempre carregava, com um líquido azul levemente brilhante girando lá dentro. O último presente do meu pai. A última dose do soro dele.

A única coisa que me mantinha segura.

Enquanto eu tomasse aquilo, meu cheiro podia ser mascarado por alguns dias.

Girei o frasco na mão, o líquido capturando a luz do fogo. Eu ainda não podia usar. Precisava escolher o momento certo, usar antes de fugir, antes de correr.

“Amanhã”, murmurei para mim mesma. “Antes do nascer do sol.”

Guardei de volta no bolso e apertei o travesseiro com mais força.

O luar rastejou pelo chão conforme a noite se aprofundava. Minhas pálpebras ficaram pesadas, mas eu não ousava dormir. Dormir significava sonhos, e sonhos significavam reviver aquela noite — o sangue, os gritos, a imagem do corpo do meu pai, mole, sem vida. Não. Eu não podia.

Mas o cansaço tinha suas próprias garras.

Em algum momento, minha respiração desacelerou. O peso do cobertor e o calor da lareira me embalaram, apesar da ansiedade se retorcendo no meu estômago.

Antes que o sono me levasse, um último pensamento atravessou minha mente.

Se Darius realmente fosse meu companheiro... se a Deusa da Lua fosse cruel o bastante para me prender ao homem que destruiu minha vida —

Então talvez ela quisesse que eu o destruísse.

E talvez... eu fosse destruir.

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