Capítulo 8 A Manhã de Defiance

A primeira coisa que notei ao acordar foi o silêncio.

Nenhum som de passos. Nenhuma respiração pesada do lado de fora da porta. Nenhum eco distante de guardas mudando o peso do corpo. Só o zumbido fraco do vento roçando nas portas de vidro da sacada e o ritmo lento e constante do meu próprio coração.

Meu corpo doía por ter dormido encolhida no sofá, com um braço envolvendo o travesseiro que eu tinha usado como arma. Meus olhos ardiam com a luz tênue rompendo as cortinas de veludo. Amanhecer. Pálido e frio. Tingia as peças douradas do quarto de um prata apagado e, por um instante fugaz, eu me perguntei se não tinha apenas sonhado com a noite anterior — a voz de Darius, os olhos dele, o peso das palavras pressionando meu peito como uma maldição.

Mas então meu olhar caiu sobre a cama enorme do outro lado do quarto — a mesma que ainda tinha o cheiro dele.

Não, não tinha sido um sonho.

Levantei devagar, os músculos tensos. A porta continuava onde estava, a maçaneta polida, brilhando de leve na luz. Eu quase esperava que resistisse quando estendi a mão, mas, quando meus dedos se fecharam no metal frio e giraram, o trinco cedeu com um clique suave.

Destrancada.

Congelei.

Meu primeiro instinto foi pensar que tinha que ser uma armadilha. Ele não ia simplesmente me deixar ir. Não depois de me arrastar para cá, não depois de me reivindicar naquela voz baixa e enlouquecedora como sua companheira. Só a palavra ainda fazia meu peito apertar de fúria. Não, tinha que haver alguém esperando — guardas, empregados, talvez até o próprio Darius observando das sombras.

Mesmo assim, empurrei a porta para abrir.

O corredor além estava quieto, alinhado por retratos de Alfas antigos cujos olhos pareciam acompanhar cada um dos meus movimentos. Arandelas douradas brilhavam fracas nas paredes, e um leve cheiro de pinho e fumaça pairava no ar — o cheiro dele, persistindo até ali. Meu estômago revirou.

Uma figura apareceu de repente na esquina, e eu me retesei, pronta para lutar.

Mas não era Darius.

Era uma loba jovem; parecia ainda estar na casa dos vinte, com cabelo castanho preso numa trança bem-feita que descia pelas costas. Vestia um vestido preto simples e um avental, a postura perfeitamente ereta apesar do tremor nas mãos. Os olhos dela se arregalaram quando me viu, e ela se curvou imediatamente, cabeça baixa.

— Bom dia, Luna. Meu nome é Tessa.

A palavra me atingiu como um tapa.

Meu corpo ficou rígido, meu pulso disparando. — O que foi que você me chamou?

A jovem piscou, assustada com a aspereza do meu tom. — L-Luna, senhora. O Alfa Darius disse—

— Não — cortei, dando um passo à frente. — Não me chame assim.

O ar entre nós ficou pesado, e o pomo de adão da jovem subiu e desceu quando ela engoliu em seco.

— Eu não sou Luna de ninguém — rosnei. — Você entendeu?

— Sim, senhora — ela sussurrou depressa, os olhos baixando para o chão.

Soltei o ar devagar, tentando conter a raiva que crescia dentro de mim. Eu não queria assustar a garota — Tessa, eu me lembrei —, mas o título queimava nos meus ouvidos como veneno. Luna. A companheira de um Alfa. Igual a ele. A outra metade dele. A palavra podia soar suave e sagrada para os outros, mas, para mim, era uma corrente. Me amarrando ao homem que eu mais odiava.

Cruzei os braços com força sobre o peito. — Onde ele está?

Tessa hesitou. — O Alfa Darius está… ocupado, minha senhora. Ele pediu que eu a acompanhasse até o café da manhã.

Franzi a testa. — Ocupado fazendo o quê?

— E-eu não tenho permissão para dizer.

Claro que não tinha.

— Eu não quero café da manhã — falei friamente. — Eu quero a minha liberdade. Diga ao seu Alfa que exijo ser solta.

A jovem ergueu os olhos, o pânico tremeluzindo por trás deles. — Eu… eu vou transmitir a mensagem, Luna… quero dizer, senhorita… mas… — A voz dela sumiu, e seus lábios tremeram.

— Não me importa o que ele ordenou — interrompi, minha voz baixa, mas trêmula de determinação. — Eu não pedi para ser trazida para cá. Não pedi por esse vínculo. Diga a ele que eu quero ir embora, e, se ele se recusar, vai se arrepender.

Tessa hesitou, claramente dividida. — Eu vou contar a ele, senhorita. Eu prometo. Mas… — Seu olhar correu até o corredor; então ela fez outra reverência, murmurou algo sobre preparar comida e se virou em silêncio.

Voltei para o quarto e fui até a janela. As portas da varanda estavam trancadas, como antes. Através do vidro, eu via a névoa se enroscando entre os pinheiros, as silhuetas vagas de lobos rondando perto do perímetro. Patrulhas. Ele realmente estava me mantendo enjaulada, sem nenhuma forma de escapar.

Meu reflexo me encarava de volta no vidro: olhos verdes pálidos, uma massa de cachos escuros, a fúria fervendo sob a minha pele. Eu parecia um fantasma assombrando a vida de outra pessoa.

Por um longo momento, fiquei ali, a luz da manhã se derramando sobre meu rosto, meu peito subindo e descendo enquanto eu tentava me controlar. O cheiro de pinho e fumaça ainda pairava no ar. Cada respiração que eu dava carregava um traço dele, selvagem, sombrio e inebriante. Isso me fazia querer gritar.

Fui até o sofá, onde o relógio que eu roubara na noite passada ainda descansava na palma da minha mão. Virei-o, examinando as gravações delicadas na parte de trás. D.R.

Até as iniciais dele me irritavam. Provavelmente tudo o que ele possuía levava a sua marca. A casa dele. As pessoas dele. O território dele. E agora eu.

Nem pensar.

Guardei o relógio no bolso e comecei a andar de um lado para o outro. O quarto era lindo, sim, mas ainda era uma prisão. Eu podia sentir isso no ar, nas paredes. Darius podia ter dito que eu não era sua prisioneira, mas ele não precisava de barras nem correntes. O poder dele bastava. A palavra dele era lei ali.

E, ainda assim… havia alguma coisa nos olhos dele na noite passada quando disse: Você é minha companheira, Lyra. Você não tem nada a temer aqui.

Eu odiava que uma parte do meu cérebro ficasse repetindo aquilo, sem parar. O jeito como a voz dele havia se suavizado ao dizer meu nome, o calor no olhar, a promessa no tom.

Eu não queria aquilo. Não queria ele.

Ele era o assassino do meu pai.

E agora dizia ser meu companheiro.

Meu coração se contorceu dolorosamente no peito.

Eu precisava pensar. Precisava planejar.

Se eu conseguisse sair, talvez pudesse roubar um carro ou encontrar outra forma de passar pelos portões. Mas, primeiro, eu precisava conhecer a disposição do lugar. Quantos guardas havia? Onde trocavam de turno? Como passar sem chamar atenção?

Meus pensamentos foram interrompidos por uma batida suave na porta.

Virei-me bruscamente.

Ela se abriu devagar, revelando Tessa de novo.

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