Capítulo 4 A tentativa inútil de fuga
Ponto de vista de Olivia
Chegar em casa foi mais difícil do que eu esperava.
A estrada pareceu mais longa do que jamais tinha sido, estendendo-se sem fim diante de mim. Cada passo era lento e doloroso, como se eu tivesse centenas de quilos de ferro acorrentados às pernas, me puxando para baixo.
Meus pés doíam, mas a dor no meu peito machucava muito mais. Cada respiração parecia pesada. Meus pensamentos estavam altos, confusos e cruéis, repetindo tudo o que tinha acontecido, de novo e de novo.
Eu queria parar de andar.
Eu queria me sentar e desaparecer.
Mas continuei me movendo.
Lutei para arrastar meu corpo enfraquecido até em casa — pelo menos até meu travesseiro e minha cama, que já estavam acostumados a absorver minhas lágrimas. Minha vida sempre tinha sido uma tragédia, e eu tinha aprendido a não esperar nada, mas eu não conseguia explicar como ou por que me sentia assim.
Quando cheguei em casa, meus pais e Sophia já estavam lá, comemorando o vínculo dela com o herdeiro do Alfa, o genro dos sonhos deles.
— Olhem só quem temos aqui, minha preciosa irmã Olivia — Sophia provocou.
— Ouvi dizer que você é destinada ao Alfa amaldiçoado. Parabéns, querida. Se a Deusa da Lua não quiser sua bunda gorda viva — ela zombou.
Eu só fiquei ali, sem palavras e exausta — já drenada por toda a provação de hoje.
— Bem, pelo menos ela conseguiu alguém, mesmo que seja um Alfa amaldiçoado que caça e suga o sangue das pessoas — minha mãe respondeu, fria.
— Ouvi dizer que ele é muito impiedoso e mata sem piscar. Dizem que ele come carne humana — Sophia acrescentou.
Eu me virei para encarar as pessoas que eu chamava de família — pessoas que compartilhavam o mesmo sangue que eu — e tudo o que eu via era desprezo e deboche. Nem um traço de preocupação com o meu sofrimento.
Olhei para meu pai. O rosto dele continuava gelado, a expressão indecifrável. Ele estava preocupado comigo? Nunca. Aos olhos dele, eu nunca podia ser vista como humana, quanto mais como filha.
Não consegui evitar quando as lágrimas escorreram pelas minhas bochechas, pingando no peito. Eu tinha me ensinado a não me importar com as palavras deles, e mesmo assim meu coração sangrava todas as vezes.
Eu não aguentava mais. Corri para o meu quarto, entrei e bati a porta. Caí no chão e chorei convulsivamente.
Talvez eu devesse simplesmente sumir… ou fugir para um lugar distante onde ninguém pudesse me encontrar. O pensamento apareceu de novo.
“Não faça nenhuma besteira”, Lucy uivou dentro da minha cabeça. “Vai ficar tudo bem”, ela disse, mas eu duvidava. Eu já estava pensando em fugir.
— Eu não acho que consigo sobreviver sendo a companheira daquele Alfa impiedoso — sussurrei para o quarto vazio. — Eu mal consigo sobreviver à minha própria família. Como eu vou viver com ele?
Meu peito se apertou enquanto o medo subia pela minha espinha.
— Eu nem saberia como morri — acrescentei, baixinho.
Só de pensar nisso, minhas mãos tremeram.
Eu me forcei a ficar de pé e puxei debaixo da cama minha bolsa de viagem surrada. Não havia muito o que arrumar — só algumas roupas, um brinco velho e uma pequena pérola que eu tinha recebido um dia da minha falecida avó. Segurei a pérola por um momento, passando o polegar pela superfície lisa, deixando a lembrança do sorriso gentil dela me firmar.
Era tudo o que eu tinha.
Fechei o zíper da bolsa, troquei de roupa e prendi o cabelo num rabo de cavalo simples. Minhas mãos se moviam sozinhas, dormentes e firmes, como se meu corpo já tivesse aceitado o que meu coração ainda lutava para entender.
Dei uma última olhada ao redor do quarto.
A cama onde eu chorava até dormir.
As paredes que tinham ouvido minhas preces sussurradas.
O espaço que me abrigou por dezoito anos — meu único lugar de silêncio e segurança.
Minha garganta se apertou.
Então me virei.
Saí do quarto e me movi com cuidado pela casa, cada passo lento e silencioso. Prendi a respiração ao alcançar a porta, apavorada com a ideia de alguém acordar e me impedir.
Ninguém acordou.
Lá fora, o ar noturno me envolveu quando fechei a porta atrás de mim. Eu não olhei para trás.
Minha loba sussurrou com urgência dentro da minha mente, dizendo que eu estava cometendo um erro. Ela implorou para eu confiar na Deusa da Lua, para acreditar que o destino tinha um motivo.
Eu a silenciei.
Minha decisão já estava tomada.
Eu estava indo embora deste lugar — desta casa, desta alcateia, desta vida que só tinha me trazido dor.
Eu não tinha um plano claro. Eu não conhecia as estradas. Eu nem sabia o quão longe conseguiria ir. Eu tinha sido mantida dentro de casa a maior parte da minha vida, autorizada a sair apenas para eventos importantes da alcateia.
Mas eu me lembrava de um mapa antigo que eu tinha visto uma vez — desbotado e rasgado — que mostrava um caminho aproximado levando para longe das fronteiras da alcateia.
Em direção ao mundo humano.
Sim… o mundo humano.
Um lugar onde ninguém me conhecia.
Um lugar onde ninguém me julgaria.
Um lugar onde ninguém me encontraria.
Enquanto eu caminhava pelas partes desconhecidas da floresta, eu conseguia ouvir ruídos e sons estranhos ao meu redor. Eu me preparei e continuei.
Comecei a pensar nos boatos que eu tinha ouvido na matilha — renegados, bruxas e vampiros que matavam e se banqueteavam com carne e sangue. Algumas vítimas eram até usadas para magia negra. O medo me engoliu, o pavor subiu pela minha espinha, mas eu me recusei a recuar. Era agora ou nunca.
À medida que eu avançava mais fundo na floresta, os ruídos nos arbustos ficaram mais altos e pareciam se aproximar rápido. Achei que ouvi passos — ou talvez fosse só o medo pregando peças na minha cabeça.
Acelerei o passo, quase correndo, e então, de repente, eu vi — uma sombra negra se moveu. Na mesma hora, eu soube que estava em perigo. Tentei correr com toda a força, mas não foi o bastante.
Em segundos, eu estava cercada… não por um, mas por três renegados.
— Por que parar? — um deles riu alto. — Estou gostando da perseguição.
Outra voz se juntou, áspera e cruel:
— Eu gosto de brincar com a minha presa antes de comer.
Meu coração batia dolorosamente contra as costelas enquanto minhas pernas ardiam. Eu conseguia ouvi-los atrás de mim — perto demais. Rápidos demais.
— Eu vou primeiro — disse uma terceira voz, ansiosa. — Quero provar antes de vocês estragarem ela.
Ele riu, sombrio.
— A gente combinou da última vez: quem pega primeiro dá a primeira mordida. E, mesmo ela sendo gorda e feia… — ele fez uma pausa, inspirando fundo — … eu ainda consigo sentir o cheiro. Virgem. Fresca.
Ele lambeu os lábios com estardalhaço.
Meu estômago se revirou violentamente.
— Por favor — eu implorei, a voz falhando enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto. — Por favor, não me machuquem. Eu dou tudo o que eu tenho. Minha bolsa — meu dinheiro — qualquer coisa. Só me deixem ir.
Meus pés tropeçaram, mas o medo me empurrou para a frente.
— Ora, ora — um deles zombou. — O que temos aqui?
— Uma donzela feia em perigo — disse outro, caindo na gargalhada.
A risada deles ecoou nos meus ouvidos, cruel e cortante, rasgando a pouca coragem que ainda me restava.
Era assim mesmo que a minha vida ia acabar?
Por que a minha vida é cheia de desgraça?
Não. Eu não permitiria que me humilhassem. Eu preferia morrer a deixar que fizessem o que quisessem comigo.
Com uma determinação recém-nascida, eu me levantei e peguei um galho ao meu lado.
— Não cheguem mais perto! — eu gritei.
— Hahaha — eles riram. — Parece que temos uma gatinha arisca. Bem, isso deixa tudo mais interessante.
Um deles veio na minha direção. Eu recuei e, com força repentina, balancei o galho, acertando-o entre as pernas.
O grito dele arrancou os outros da diversão. Um avançou em mim, derrubando o galho para longe. Um tapa ardido me fez cair no chão.
— Chega de brincadeira. Vocês dois segurem ela enquanto eu vou primeiro. Depois vocês vêm. Não queremos chamar atenção aqui — ordenou o líder, enquanto afrouxava o cinto.
Os outros dois me imobilizaram, as garras cravando nos meus braços. O sangue começou a pingar. Não havia como eu escapar do aperto deles.
Era esse o meu fim — ser violentada e morta por renegados?
Talvez na minha próxima vida eu nasça com sorte e boa fortuna, sussurrei baixinho, fechando os olhos, resignada ao meu destino.
Então, de repente, uma voz trovejou:
— Soltem ela. E não ousem encostar nela.
Meus olhos estavam embaçados de lágrimas, mas eu conhecia aquela voz.
Um rugido estrondoso rasgou a floresta, tão alto que fez o chão tremer sob meus pés.
O ar mudou na mesma hora.
Antes que eu conseguisse sequer me virar por completo, um lobo negro gigantesco surgiu entre mim e os renegados. Ele era enorme — maior do que qualquer lobo que eu já tinha visto. O pelo era escuro como a noite, riscado por um vermelho profundo, como sangue seco, e as garras brilhavam douradas sob a luz da lua, afiadas e mortais.
Um poder emanava dele em ondas esmagadoras.
Eu mal tive tempo de respirar.
Houve um borrão de movimento — rápido demais para meus olhos acompanharem.
Algo molhado atingiu o chão.
Um corpo desabou.
Sem cabeça.
Minha respiração travou dolorosamente na garganta quando percebi que era o líder — aquele que, segundos antes, estava prestes a me machucar. O corpo dele deu um único espasmo… e então ficou imóvel.
Os outros dois renegados gritaram de terror.
Eles se viraram e correram.
Não foram longe.
Sombras lampejaram. Um rosnado baixo cortou o ar. Então — dois baques pesados.
Os dois corpos atingiram o chão, sem vida e quebrados, e a floresta voltou a ficar em silêncio.
Tinha acabado.
Assim, simplesmente.
Eu fiquei paralisada, incapaz de me mexer, incapaz de falar. Minha mente lutava para acompanhar o que meus olhos tinham acabado de ver. Tudo tinha acontecido rápido demais. Eu nem tinha visto como ele os matou.
Só que matou.
O lobo enorme se virou devagar.
O olhar ardente dele se fixou em mim.
Aqueles olhos — cheios de fúria, ira e algo mais sombrio — me prenderam no lugar.
Meus joelhos fraquejaram quando ele se aproximou, cada movimento poderoso e controlado.
— Por que você me desobedeceu? — ele rosnou, a voz profunda e aterrorizante, vibrando nos meus ossos.
Medo e alívio se chocaram dentro de mim ao mesmo tempo.
Dentro da minha cabeça, Lucy gritou — COMPANHEIRO!
