Capítulo 6 Uma gaiola chamada destino
Ponto de vista de Olivia
Acordei engasgada de medo.
Meus olhos se abriram num salto enquanto meu corpo se erguia de supetão, o coração martelando com violência contra as costelas como se quisesse se libertar do meu peito. O ar frio roçou minha pele, cortante e estranho, roubando o fôlego dos meus pulmões. Por um instante, não consegui dizer onde eu estava nem como tinha ido parar ali.
Então o cheiro me atingiu.
Era forte — esmagador, de um jeito que fez meus sentidos cambalearem. Pinheiro. Poder. Escuridão. Algo autoritário e perigoso, algo que enviou um arrepio de inquietação pela minha loba. Lucy se mexeu dentro de mim, inquieta e alerta.
Este não era o meu quarto.
O teto acima de mim era alto demais, talhado em pedra escura em vez de madeira rachada. Vigas grossas se estendiam por ele, antigas e imponentes. As paredes eram forradas por cortinas pesadas emoldurando janelas altas que eu nunca tinha visto, e o luar se derramava livremente sobre pisos de mármore polido e móveis caros. Tudo naquele quarto gritava riqueza, autoridade e poder — o tipo que eu só tinha visto de longe.
O pânico arranhou minha garganta.
Recuei às pressas na cama enorme, as mãos tremendo enquanto eu me pressionava contra a cabeceira. O colchão sob mim era macio — macio demais, luxuoso demais para pertencer ao quartinho pequeno e negligenciado em que eu tinha crescido. Até os lençóis pareciam caros, lisos contra a minha pele.
Eu morri e fui para o céu?
O pensamento mal teve tempo de se firmar antes que o medo o torcesse em algo mais sombrio.
Ou eu fui sequestrada?
Imagens da floresta inundaram minha mente — sombras, risadas, mãos se estendendo para mim. Meu fôlego falhou, agudo.
Não… errantes não poderiam ter uma mansão dessas.
Podiam?
“Lucy?”, chamei dentro da minha cabeça, minha voz pouco mais que um sussurro.
Ela respondeu na mesma hora, a presença dela se envolvendo em mim como um escudo — firme, calma, mas tensa.
Se acalma, ela disse com gentileza. Você está viva.
Viva.
A palavra deveria ter me confortado. Em vez disso, só fez meu peito se apertar dolorosamente.
Olhei para mim — e congelei.
As roupas que eu estava usando não eram minhas.
Meu fôlego engasgou quando reparei na camisola simples, porém elegante, caída sobre o meu corpo. O tecido era leve, fresco contra a pele, abraçando curvas que eu passara a maior parte da vida tentando esconder. Limpa. Nova. Cara.
Alguém tinha trocado minhas roupas.
Meu coração começou a bater ainda mais forte.
Alfa Kingsley.
O nome ecoou na minha mente como uma maldição.
Fragmentos de memória voltaram de supetão — cordas douradas prendendo meus pulsos, sussurros cruéis e risadas, a ferroada da rejeição queimando mais fundo do que qualquer ferida. O rosto dele se impôs nos meus pensamentos: olhos frios, traços duros, sangue respingado no chão da floresta. O medo tinha me engolido inteira naquela noite.
Alfa Kingsley.
Meu peito doeu quando o pavor se enroscou apertado ao redor do meu coração.
Onde estamos? perguntei a Lucy, já com medo da resposta.
Ela hesitou.
A matilha dele, ela disse por fim. O território dele.
As palavras atingiram como um golpe.
“Não…”, sussurrei em voz alta, a voz falhando enquanto as lágrimas ardiam atrás dos meus olhos.
Por que eu estava aqui?
Por que eu não estava morta?
Antes que o pânico me consumisse por completo, a porta se abriu.
Eu me encolhi com violência.
Ele entrou como se fosse dono do próprio ar.
Alfa Kingsley.
Alto. De ombros largos. Forte, cada centímetro dele irradiando perigo e controle. Roupas escuras e soltas se agarravam ao corpo enorme, sem fazer nada para esconder os músculos por baixo. A presença dele preenchia o quarto com facilidade, me esmagando até meus instintos gritarem tanto medo quanto outra coisa — algo que eu me recusava a reconhecer.
A expressão dele era indecifrável. Fria. Controlada. Distante.
Meu corpo reagiu antes que minha mente conseguisse acompanhar.
Encolhi-me contra a cama.
A mandíbula dele se contraiu.
— Então você acordou — disse, com calma.
Engoli em seco, a garganta dolorosamente ressecada. — Por que eu estou aqui?
O silêncio se estendeu entre nós, denso e sufocante.
— Você desmaiou na floresta — respondeu, num tom uniforme. — Eu trouxe você de volta.
— De volta para onde? — Minha voz tremeu apesar do esforço para parecer corajosa.
— Para a minha matilha.
Meus dedos se fecharam nos lençóis. — Você não tinha esse direito.
Algo cintilou por um instante nos olhos dele — e sumiu antes que eu conseguisse identificar.
— Você tentou fugir — ele disse, gelado. — Você teria morrido.
Isso me calou.
Desviei o olhar, vergonha e medo travando uma guerra violenta dentro de mim.
— Eu não pedi pra você me salvar — murmurei.
— Não — ele concordou. — Não pediu.
Ele se aproximou, parando a poucos passos da cama. Foi então que eu o senti — o poder dele me esmagando, pesado e sufocante, fazendo minha loba ganir.
— Você me desobedeceu — ele disse.
Ergui a cabeça num sobressalto. — Eu estava com medo.
O olhar dele se aguçou, perigoso.
— Você saiu da cerimônia sozinha. À noite. Desprotegida.
— Eu não pertencia àquele lugar — sussurrei. — Todo mundo deixou isso muito claro.
Por um breve segundo, algo indecifrável atravessou o rosto dele.
— Você pertence a mim agora — ele disse, baixo.
As palavras fizeram um arrepio correr pela minha espinha.
— Eu não quero — soltei, antes que conseguisse me impedir.
O silêncio que se seguiu foi mortal.
Por um batimento, achei que ele fosse explodir.
Em vez disso, ele se virou.
— Isso não muda nada — disse, rígido. — Você vai ficar aqui até eu decidir o contrário. E você não tem escolha.
Meu coração afundou, dolorosamente.
— Então eu sou uma prisioneira — sussurrei.
Ele se virou de volta — e então, de verdade, me olhou.
— Não — disse. — Você é minha Luna no nome. Você pode circular pela mansão, mas nunca deve pisar fora da matilha.
O título soou errado. Pesado. Como uma coroa forjada de correntes.
— Eu não vou machucar você — acrescentou após uma pausa. — Ninguém aqui vai.
Soltei uma risada amarga. — Eles vão me odiar. Sempre odeiam.
— Isso — ele respondeu, com frieza — não é problema meu.
O medo se retorceu no meu estômago.
Quando ele se virou para ir embora, o pânico voltou com força.
— Espera — eu disse, baixo. — Você... trocou minhas roupas de ontem à noite?
Ele parou.
— Você teria preferido que os renegados fizessem isso? — ele zombou.
— Você não me ama — sussurrei. — Por que me trouxe pra cá?
Os ombros dele enrijeceram.
— Porque, goste eu ou não — disse, sem se virar — o destino decidiu que você é minha.
A porta se fechou atrás dele.
Eu fiquei sentada ali, tremendo, as lágrimas finalmente transbordando.
Eu não estava em casa.
Eu não estava livre.
E eu não era amada.
Tudo o que eu sempre quis foi uma vida comum — um companheiro tranquilo que me amasse de volta, um ou dois filhotes correndo por uma casinha pequena e acolhedora.
Lucy se enroscou ao redor do meu coração, protetora.
Você é mais forte do que pensa, ela sussurrou. E este lugar... vai aprender isso. Nós vamos sobreviver.
Abracei a mim mesma com força enquanto a luz da lua se derramava pelo quarto.
Tomada pelo destino.
Aprisionada pelo poder.
E ligada ao amaldiçoado Rei Alfa que nunca me quis —
Mas se recusava a me deixar ir.
Quanto tempo vou sobreviver antes de ser consumida?
