Capítulo 1

Pov da Nyx

Soltei um sibilo quando o chicote trançado com fios de prata desceu nas minhas costas. Senti a pele se abrir num novo corte e, quando ele bateu de novo, a ferida ficou ainda pior que a anterior.

— A gente faz vinte e um? — a risada dele foi sinistra, como sempre. — Ou vinte e um vezes dois?

Ele estalou o chicote outra vez e, dessa vez, eu gritei de dor, porque não consegui segurar mais. As lágrimas que eu vinha lutando para conter escorreram dos meus olhos, ardendo de um jeito cruel.

Era pra gente ser companheiros! Engoli as palavras. Por que você está fazendo isso? E eu também não podia perguntar, com medo do que viria depois. A gente tem uma filha, pelo amor de Deus! Eu não tinha coragem de dizer nem isso.

— Fico imaginando o que a Deusa da Lua estava pensando quando nos fez companheiros! — ele rosnou, se abaixando até onde eu estava encolhida no chão. Agarrou minha cabeça e me obrigou a encarar ele; meus olhos verdes, cheios de dor, encontraram os dele, cinzentos, brilhando de ódio. — Vira-lata fraca! — cuspiu.

— Você devia ter me deixado aceitar sua rejeição! — eu disse e me arrependi na hora, quando um golpe pesado acertou meu rosto.

— Você tem coragem de responder ao seu Alfa?! — a voz dele estava tomada de fúria. — Pelo visto você esqueceu o que te colocou nessa posição, em primeiro lugar. — ele me lembrou. — E por que eu deixaria você aceitar minha rejeição?

A pergunta era quase retórica.

— Eu quero que você sinta cada dor, toda vez que eu transar com outra pessoa.

— Me desculpa… — murmurei, fraca, lembrando o que tinha me deixado daquele jeito. Mais cedo, naquela manhã, ele tinha mandado eu fazer um omelete, e eu tinha recusado, dizendo que não era empregada dele. Ele ficou bravo, como sempre, e jurou que ia me punir.

Então eu estava ali, recebendo minha punição. Nunca tinha chegado nesse nível, e eu me perguntava o que o resto do dia ainda guardava pra mim — e o que a minha vida ainda guardava.

— Você sabe que eu teria sido mais “gentil” se você não fosse uma cadela feia, fraca e amaldiçoada! — ele agarrou meu cabelo e puxou minha cabeça pra trás com tanta força que senti o couro cabeludo arder. — E aquele seu pai idiota e miserável… você sabe por que ele te perdeu no jogo quando você era tão nova?

Eu fiquei calada, enquanto as palavras nojentas dele me cortavam como uma faca de verdade.

— É porque você não é nada! Um desperdício! Inútil! Uma maldição! Você não vale porra nenhuma, e eu faço questão de te dar dor o suficiente pra te lembrar o quanto você é uma decepção. Você só merece dor.

Eu gemi baixinho com o que ele disse, e mais lágrimas caíram.

— E aquela sua filha idiota…

Ela é nossa filha, eu queria tanto dizer. Por que você é tão cruel?

— Ela é um desperdício igual a você! Amaldiçoada e inútil! — ele falou. — E você ainda tem a cara de pau de dizer que ela é minha?

O aperto no meu cabelo aumentou.

— Como é que eu vou saber que aquela vidinha desgraçada é minha? Todo macho sem companheira já passou por essas suas pernas inúteis! Vadia!

Eu me encolhi com aquelas palavras — as mesmas que eu ouvia desde que pari ela.

— Ela é sua, e você sabe disso! — eu cuspi. — Eu não sou vadia!

A mão dele largou meu cabelo e foi pro meu pescoço, apertando com força, cortando meu ar. Meus olhos saltaram enquanto eu lutava pra respirar.

— Você sabe usar essa sua boca, não sabe? — ele rosnou, e eu senti garras surgindo e perfurando minha pele quando o aperto ficou ainda mais forte.

O lobo dele estava à mostra, e um medo cru me inundou.

— Eu vou te mostrar como usar essa porra de boca!

Ele se levantou, me soltando, e eu desabei no chão, arfando por ar. Nem tive tempo de recuperar o fôlego. Ele se abaixou rápido, me pegou com brutalidade e, em passos longos, alcançou a cama.

Ele me jogou nela com um rosnado, e eu uivei de dor quando minha cabeça bateu na cabeceira. As lágrimas embaçaram minha visão.

Ergui o olhar e a camisa dele já tinha sumido. As mãos foram até o cinto, desafivelando, e ele estava com aquele sorrisinho de sempre — o mesmo de quando queria se aproveitar de mim.

Fechei os olhos quando a última peça de roupa caiu e, logo depois, senti o peso dele sobre mim. Eu fiquei ali, imóvel, em silêncio, aguentando tudo, com as lágrimas descendo pelas minhas bochechas.

Acordei com uma mãozinha macia acariciando meu rosto. Quando abri os olhos, vi Amara na minha frente. Os olhos verdes dela estavam tristes enquanto ela me olhava de cima. Ela segurava o ursinho de pelúcia, o “Fluffy”, e o vestido estava manchado de lama; o rostinho dela também estava sujo.

— Mamãe… — ela chamou. — Sangue.

Eu sabia que ela falava dos meus ferimentos, porque vi lágrimas brilhando nos olhos dela também.

Tentei me sentar e fui recompensada com dor assim que me mexi.

— Onde eu estou…? — gemi, tentando entender o lugar, olhando ao redor até descobrir que eu estava no beco, como era de se esperar. Ele sempre mandava os guerreiros me largarem aqui quando terminava, porque eu sempre desmaiava.

“Desculpa, mamãe.” Ela fungou enquanto largava a Fluffy e jogava os braços em volta de mim, sem se importar que o sangue em mim fosse sujar a mãozinha e a roupa dela.

Eu a puxei mais para perto e a abracei de volta, apertando minha filha com força — o único motivo de eu ainda estar viva e lutando. Eu precisava continuar viva para cuidar dela e dar a ela uma vida melhor.

“Você já comeu, meu amor?”, perguntei.

“Não.” Ela balançou a cabeça e ergueu os olhos para mim. “Eu estava esperando você...”

“Tá bom.” Com cuidado, eu a afastei um pouco e me levantei. Quando fiquei de pé, peguei Amara no colo e voltei para dentro da casa da alcateia.

“Vadia!”

“Puta!”

“Amaldiçoada!”

“Abominação!”

Eu tentei não dar atenção às palavras — com o tempo eu tinha me acostumado — enquanto passava pelos membros da alcateia, seguindo para o meu quarto, ou melhor, o meu cubículo. Toda vez que eu ouvia aquilo, doía. Ouvir de novo e de novo me levava às lágrimas, mas eu não podia revidar nem me defender; se eu fizesse isso, seria punida.

“Olha pra ela...”, ouvi uma das mulheres zombar, com desdém. “Imagina se ela fosse a nossa Luna.” A risada maldosa veio em seguida. “Aposto que ela até finge ser companheira do Alfa. Ela é uma vadia, não é à toa que foi rejeitada.”

Outros se juntaram para debochar e rir de mim, mas eu não dei atenção. Continuei abraçando Amara bem apertado e tentando tapar os ouvidos dela para que não ouvisse aquelas palavras nojentas — só que eu sabia que não adiantava. Ela ouvia, e muitas vezes tentava me perguntar o que significavam.

Você não é o que eles dizem. Você não é puta nem vadia. Você não merece isso. Você não merece essa dor. Eu tentava me convencer, para não acreditar neles, enquanto entrava na cozinha e as vozes iam ficando para trás.

Estava vazia, e eu soltei um suspiro enorme, aliviada.

Fui até a geladeira e peguei algumas frutas e carne.

Amara amava carne. Eu diria que era por ela ser uma lobisomem, mas o apetite dela por carne era grande demais — estranho para a idade.

Saí da cozinha e fui embora rápido, antes que alguém me pegasse.

Segui as escadas que desciam até o porão da casa da alcateia, onde eu morava. Cheguei rápido e fechei a porta atrás de mim quando entrei, antes de colocar Amara no chão e largar a comida que eu trazia.

Aqui embaixo era escuro, escuro de verdade. Esse lugar também servia como depósito temporário, onde guardavam coisas que não eram necessárias. No canto do porão ficava o lugar que eu chamava de casa.

Um colchão fino ficava perto da parede, com um cobertor leve jogado por cima. Ao lado, havia um saco surrado que guardava a maior parte das roupas minhas e da Amara e outras coisinhas.

Peguei a mão da minha filha e a conduzi até o colchão. Sentei Amara ali e coloquei a comida diante dela. Na mesma hora, ela esticou a mão para a carne no prato, e eu dei uma risadinha quando ela levou à boca e começou a devorar.

Eu me sentei ao lado dela no colchão, peguei algumas uvas para comer e encostei na parede. Soltei um sibilo de dor assim que minhas costas tocaram o concreto — meus ferimentos ainda estavam abertos e recentes.

Deixa eu te curar! Hera, minha loba, rosnou. Para de ser teimosa pra caralho.

Não! Eu respondi. Se você me curar agora, ele vai descobrir e vai ficar com muita raiva. Você sabe como ele nos proibiu de nos curarmos. Além disso, você nem está forte o suficiente por causa da acônito e da prata.

A gente precisa sair daqui, Nyx! ela disse. A gente precisa sair daqui antes que ele mate a gente ou machuque a nossa filhote.

Eu olhei para Amara quando Hera disse isso e senti a raiva subir dentro de mim só de imaginar ele encostando nela.

Você sabe que a gente não pode fugir. Ele vai encontrar a gente e vai machucar o meu pai, você sabe. E mais: se a gente fugir, vamos viver como renegadas pra sempre? O que vai acontecer? Nós somos ômegas, a gente não sobrevive lá fora. A Amara não sobrevive lá fora. E eu não posso simplesmente deixar o meu pai aqui.

Nyx! Hera rosnou. Eu dava para sentir o quanto ela estava furiosa. Foi esse homem que colocou a gente nessa situação desde o começo, apostando a gente e entregando pro Alfa, e até agora sem se importar. Ele é cruel com a gente e, mesmo assim, você se preocupa com o que acontece com ele.

Ela tinha razão. Meu pai não era nenhum santo, mas, mesmo ele sempre me vendo como uma maldição e uma abominação por eu ser uma loba prateada e nunca se importando com o que acontecia comigo, eu ainda me importava com ele, apesar da crueldade.

A gente não pode fugir, Hera, eu disse. E se lá fora acontecer algo pior com a gente?

E se acontecer algo bom? ela rebateu. A gente nunca vai saber se não tentar.

Você precisa descansar, Hera. Amanhã vai ser um dia longo, eu disse, e cortei a conexão.

Olhei para Amara e vi que ela tinha adormecido com a Fluffy bem apertada em uma das mãos e uma uva meio comida na outra.

Eu sorri para ela e me deitei ao lado dela, na esperança de que o sono me abraçasse logo.

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