Capítulo 1 Capítulo 1 — A garota que ninguém vê
Ponto de vista de Ayla
A neve caía ao meu redor num lento e silencioso cair — não daquele jeito que faz tudo parecer mágico. Apenas interminável, branca e fria.
Ela se assentava sobre tudo — as árvores, o chão e os telhados — como se estivesse tentando encobrir as coisas. Como se, se se acumulasse alto o bastante, ninguém se lembrasse do que estava enterrado embaixo. Como se sangue nunca tivesse encharcado a terra sob os meus pés.
O frio atravessava meu moletom fino e gasto. Mesmo assim, eu o puxei para mais perto do corpo, mais por hábito do que por esperança. Não era nem de longe suficiente para me manter aquecida. O frio dentro de mim estava cravado nos ossos — fazia anos.
Tentei afastá-lo e voltar minha atenção para outra coisa. O cheiro dos pinheiros enchia minhas narinas, o ar cheirando a fresco e limpo. Fumaça de lenha vinha da casa da alcateia, mas sempre havia algo à espreita logo por baixo — algo cortante, algo metálico que me lembrava sangue, mesmo quando não havia nenhum.
Parei na beira da estrada, meu olhar vagando em direção à casa da alcateia. Ela brilhava adiante — quente, alegre e convidativa. Tudo o que eu evitava.
Um grupo estava perto da entrada, e o riso deles enchia o ar da noite. Risadas de verdade — fáceis e altas. Aquilo atingiu alguma coisa no meu peito para a qual eu não tinha nome. Eu não conseguia me lembrar se algum dia tinha rido daquele jeito. Afastei esse pensamento depressa.
Dei um passo adiante — sem urgência. Eu sempre era a última a chegar. Na maior parte do tempo, me mantinha nas sombras. Era mais fácil assim.
Minhas narinas se abriram e eu congelei. Algo se retorceu dentro de mim. O cheiro me atingiu de uma vez só, vindo da casa da alcateia — carne assada, batatas e algo doce por baixo de tudo — canela, talvez torta de abóbora — rico, quente e impossível de ignorar.
Meu peito se apertou antes que eu pudesse impedir, e um peso se instalou em mim por um instante.
Natal.
O dia que eu mais odiava. Não porque eu nunca tivesse amado essa época — eu amei, um dia — mas por causa do que ela deveria significar.
Família.
A palavra já não tinha mais significado para mim. Engoli em seco, tentando afastar a sensação, mas ainda assim lágrimas arderam em meus olhos. A tristeza sempre encontrava as rachaduras, não importava o quanto eu tentasse manter tudo unido.
Um grupo passou por mim a caminho da casa da alcateia, os ombros esbarrando nos meus sem diminuir o passo. Um deles bateu em mim com mais força que os outros.
— Ei, olha por onde anda! — ele gritou, virando-se. Seu olhar encontrou o meu, e um sorriso de deboche repuxou seus lábios.
Eu me firmei e baixei os olhos. Era mais fácil assim — evitar contato, não erguer o olhar, passar despercebida.
— Nem perde tempo — outro garoto disse. — É só a vira-lata muda. Você não vai conseguir nada dela.
Eles riram como se isso não lhes custasse nada.
Mantive os olhos baixos e não reagi. Eu aprendera cedo que reagir só lhes dava mais combustível.
Eu tinha cinco anos quando parei de falar, como se não falar significasse que eu não sentia. Não me lembrava de ter decidido ficar em silêncio — simplesmente aconteceu. Foi como se algum interruptor tivesse sido desligado em algum lugar bem fundo dentro de mim e nunca mais tivesse sido ligado.
Do que eu me lembrava vinha em flashes — espalhados, brutais e nunca na ordem certa.
Um fogo enorme e furioso consumindo tudo em seu caminho.
O cheiro de pelo queimado, sangue e fumaça era tão denso que grudava na minha garganta.
A mão da minha mãe escorregando da minha, melada de sangue. Os olhos dela perdiam a luz — se apagando.
A voz do meu pai chamando — e então silêncio.
Meu corpo enrijeceu quando a memória mudou: um par de olhos vermelhos, fixos em mim — observando.
Eu sempre acreditei que foram renegados que destruíram a minha alcateia. Em alguns dias, eu não tinha tanta certeza. Não conseguia me lembrar com clareza — fazia tanto tempo, e o resto daquela noite estava guardado em algum lugar profundo, enterrado junto com a minha voz.
Empurrei tudo aquilo para baixo. Não havia espaço para isso ali.
— Ei. Muda.
Meus ombros ficaram tensos antes que eu pudesse evitar.
Não me virei. Não precisava. Eu já sabia.
Os passos deles eram lentos e deliberados — como se quisessem que eu ouvisse cada um deles. O som vibrava dentro de mim. Meu coração acelerou até doer de verdade, mas eu não corri. Correr só piorava as coisas. Eles me perseguiriam como presa e aproveitariam cada segundo.
O ar mudou à medida que eles se aproximavam. Ficou mais pesado, dominante e de algum modo mais quente — mas não de uma forma que ajudasse.
Os trigêmeos.
Eles sempre se moviam juntos. Os três irmãos poderiam parecer a mesma pessoa à primeira vista — mesma altura, mesmo cabelo escuro, mesmos olhos azuis e frios que pareciam cortar você ao meio. Mas, de perto, eram diferentes nos jeitos que importavam.
Kael foi o primeiro a aparecer. Não se apressou — ele nunca se apressava. Tudo nele parecia calculado, como se já tivesse decidido como aquele encontro terminaria antes mesmo de chegar. Seus olhos encontraram os meus — pálidos, gelados e completamente indiferentes.
Mesmo antes de o título de Alfa ser oficialmente dele, ele já se assentava nele como se fosse seu por direito.
Ryker veio ao lado dele, já sorrindo como se aquele momento fosse a melhor parte da noite. Para ele, provavelmente era. Ele seria o Beta de Kael quando assumissem a alcateia, e algo me dizia que ele mal podia esperar por esse dia.
Soren ficou um pouco atrás — o quieto, sempre observando, o futuro delta da alcateia. Mantinha distância e nunca se juntava de verdade — como se isso ajudasse. O silêncio dele tinha seu próprio tipo de pressão.
— E então? — Ryker inclinou levemente a cabeça, tentando captar meu olhar sob o capuz. Um sorriso de provocação repuxou os cantos de sua boca. — Ela ficou surda também, ou só está te ignorando?
Antes que eu pudesse me virar de volta, uma mão agarrou meu ombro e me girou. Meu equilíbrio falhou, mas Kael me manteve no lugar, o aperto firme e inflexível.
Ele não me soltou de imediato. Suas sobrancelhas se franziram um pouco, como se procurasse alguma coisa no meu rosto. Por um instante, ele só encarou, o calor do corpo dele preenchendo o espaço entre nós mesmo através do frio. Isso só me deixou ainda mais consciente do quanto eu estava congelada.
— Responde a ele — Ryker rosnou.
Então riu pelo nariz. — É. Esqueci.
Uma risada explodiu em algum lugar atrás deles. Não olhei para ver quem tinha se juntado. Em vez disso, baixei os olhos — não porque eu não pudesse encará-los, mas porque eu me recusava a dar o que eles queriam.
— Patética — Kael disse, seco, e me empurrou para trás, me jogando num monte de neve.
— Treze anos e nem uma palavra. — Ryker balançou a cabeça devagar, quase impressionado. — Você ao menos lembra como se faz?
— Talvez ela nunca tenha conseguido — alguém atrás dele acrescentou.
Mais risadas. Elas ecoaram por mais tempo do que deveriam — especialmente naquela noite.
Eu não reagi — não reagia havia anos. Era mais fácil assim. Eles acabariam se entediando e indo embora. Sempre acabavam.
O olhar de Soren ficou em mim por mais tempo do que de costume — não debochado, mas tampouco gentil — como se estivesse tentando entender alguma coisa. Suas sobrancelhas se juntaram de leve e, por um instante, pareceu quase frustração. Seja lá o que fosse, ele guardou para si. Como sempre.
Um uivo longo e alto cortou a noite, e tudo parou.
Os olhos de Kael piscaram na minha direção. — Não saia por aí — disse ele, frio. — Não vamos lidar com você hoje à noite.
Ryker bufou. — Talvez arrume outro lugar pra ficar. Esse negócio de viver às custas dos outros? É. Acabou.
Eles se viraram como se eu já tivesse sumido, como se eu não importasse.
Soren hesitou só por um instante, o olhar oscilando entre mim e os irmãos. Então seguiu atrás deles sem dizer uma palavra.
E assim, de repente, voltou a ficar quieto.
Eu me ergui da neve e soltei devagar um ar que nem tinha percebido que estava prendendo. Minhas mãos tremiam — não de frio, mas de algo mais difícil de nomear. Apertei-as contra as laterais do corpo até pararem.
O espaço ao meu redor pareceu maior, mais vazio e mais frio agora que eles tinham ido embora.
A casa da alcateia ainda brilhava ao longe, cheia de um calor que eu não tinha permissão de tocar. Risadas escapavam toda vez que alguém abria a porta — claras e rápidas — antes de sumirem de novo na noite.
Eu fiquei onde estava. Onde eu pertencia. Do lado de fora.
Então algo mudou.
Um vinco se formou entre minhas sobrancelhas quando minha mão pressionou o peito antes mesmo de eu pensar. Não era dor — não exatamente. Era só um movimento estranho, desconhecido, num lugar que tinha permanecido completamente imóvel pelo tempo que eu conseguia lembrar.
Inspirei devagar. Só nervosismo, eu disse a mim mesma.
Mas a sensação voltou — mais forte daquela vez — e eu soube. Eu não estava imaginando.
Minha loba tinha despertado.
A porta da casa da alcateia se abriu antes que eu conseguisse processar, e olhos gentis me encontraram através da neve.
— Ayla — chamou Luna Ria, com suavidade. — Venha, minha criança. Todos estão esperando.
Ergui o olhar para encontrar o dela e fiz um pequeno aceno antes de começar a me mover.
Mas, mesmo enquanto eu caminhava em direção ao calor e à luz, eu não conseguia me livrar da sensação pressionando minhas costelas.
Algo estava prestes a mudar naquela noite — e, fosse o que fosse, não haveria volta.
