Capítulo 2 Capítulo 2 — O presente

Ponto de vista de Ayla

Luna Ria desapareceu de volta para dentro no instante em que me viu me mexendo.

Alguém deve ter chamado por ela — caso contrário, teria esperado. Era exatamente o tipo de mulher que ela era. Ela e o Alfa Jack me acolheram depois da queda da minha matilha e, ao longo dos anos, eu aprendi a ler as pequenas coisas que ela fazia. Ela sempre deixava a luz da cozinha acesa. O prato a mais no jantar era um detalhe que ninguém comentava.

Afastei o pensamento e me concentrei em respirar.

Quanto mais eu me aproximava da casa da matilha, mais difícil isso ficava — não por causa do frio, mas por causa do barulho. Risadas escapavam para a noite, altas demais, fáceis demais. Misturavam-se com uma música que pulsava grave e constante por baixo de tudo, como um coração ao qual eu não pertencia. Lá dentro havia vida. Vida demais.

Parei diante da porta um segundo a mais do que devia. Então a empurrei e abri.

O calor me atingiu de uma vez só, fazendo minha pele arder onde o frio tinha se alojado fundo demais. Eu não me mexi imediatamente. Apenas fiquei ali, deixando aquilo me envolver enquanto tudo caía sobre mim ao mesmo tempo — os cheiros, os sons, o movimento. Corpos demais espremidos num só lugar, todos à vontade de um jeito que eu nunca consegui de verdade.

Entrei antes que pudesse mudar de ideia.

O cômodo estava perfeitamente decorado — obra de Luna Ria, sem dúvida. Guirlandas se enroscavam pelas vigas do teto, fita vermelha entrelaçada nelas, e uma árvore de Natal enorme se erguia alta e brilhante no canto, suas luzes amarelas tremeluzindo quentes contra as paredes de madeira escura.

Gente ocupava cada canto — conversando, rindo e se encostando uns nos outros como se isso não custasse nada. Como se nunca tivessem precisado pensar se eram bem-vindos em algum lugar.

Fui até a parede mais próxima e fiquei ali.

Era mais fácil assim.

Ninguém me encarava por muito tempo. Alguns olhares vinham e iam depressa, como se eu fosse algo que as pessoas percebiam sem querer reconhecer diretamente.

Tudo bem. Eu também não queria a atenção deles.

Meu moletom com capuz se destacou no instante em que entrei — fino demais, desbotado demais contra os tricôs grossos e as cores vivas que todo mundo usava. Puxei a manga sem pensar, os dedos torcendo o tecido gasto.

Perto da árvore, havia uma mesa empilhada de presentes — papel de embrulho colorido, laços brilhantes e cor demais de uma vez. Kael estava ali perto, chamando nomes com a autoridade fácil de quem nunca duvidou de que a sala era dele. As pessoas davam um passo à frente rindo antes mesmo de abrir qualquer coisa. Alguém tirou um par de meias ridículas, e a sala inteira explodiu como se fosse a coisa mais engraçada que já tinham visto.

Eu observei do meu lugar.

Eu sempre observava. Nunca interagia. Ninguém nunca tinha me dado algo que fosse realmente meu.

— Ayla.

Meu nome soou errado numa sala tão barulhenta. Fora de lugar.

Eu não me mexi de início. Aí percebi que todo mundo estava olhando.

Os olhos de Kael se endureceram. — Anda logo — ele disse, cortante. — O resto de nós está esperando.

— Me dá isso aqui — disse Ryker, já estendendo a mão para o presente antes que Kael pudesse entregá-lo.

Eu avancei devagar, meu coração já acelerando. Ryker enfiou uma caixinha nas minhas mãos e se inclinou um pouco.

— Olha só, parece que alguém lembrou de você este ano.

Ignorei e baixei os olhos para o que ele tinha me dado. Sem papel brilhante. Sem fita. Só uma caixa marrom simples, com os cantos amassados e o papelão amolecido em alguns pontos de tanto manuseio.

Virei a caixa devagar, passando o polegar pela borda dobrada. Alguém tinha guardado aquela caixa por um tempo antes de decidir dar.

Eu abri.

Um par de luvas cinzas. Simples, comuns, nada de especial. Mas grossas — do tipo que realmente mantém o frio do lado de fora.

— Provavelmente sobras de alguém — disse uma voz em algum lugar atrás de mim.

Algumas risadinhas baixas vieram em seguida. Não altas o bastante para fazer uma cena, mas o suficiente para entrar por baixo da minha pele.

Eu ignorei. Quem quer que tivesse deixado aquilo tinha percebido que eu não tinha nenhuma. Isso era mais do que a maioria das pessoas já tinha se dado ao trabalho de fazer.

Balancei a cabeça uma vez — mais por hábito do que por qualquer outra coisa — fechei a caixa e voltei para a parede. Ninguém me parou. Eles já tinham seguido adiante para o próximo nome, a próxima risada e o próximo momento que não tinha nada a ver comigo.

Não demorou muito para o ar começar a parecer apertado demais, e eu fui derivando em direção à porta.

Minha mão encontrou a maçaneta.

“Ayla.”

A voz não era ríspida. Não era debochada nem cruel. Mas ainda assim havia algo nela que fez meu peito se contrair.

Virei devagar.

O Alfa Jack estava a alguns passos de distância, com a Luna Ria ao lado. Ela não usava o mesmo sorriso que todos os outros na sala. O dela era mais discreto — como se entendesse algo que os outros não entendiam, como se conseguisse sentir meu luto de onde estava.

“Venha aqui, criança”, disse ela, estendendo a mão. “Tenho uma coisa para você.”

Hesitei só por um instante antes de cruzar a distância.

Eles me conduziram com delicadeza para o lado da sala, onde a luz era mais suave e o barulho não apertava tanto. O Alfa Jack me olhou do jeito que às vezes olhava — diretamente, sem olhar por cima de mim nem através de mim. Como se ele de fato me visse. Seus olhos azuis eram gentis e esperançosos. Ainda era algo com que eu não sabia muito bem o que fazer, mas não era desconfortável do jeito a que eu estava acostumada.

A Luna Ria colocou algo pequeno nas minhas mãos.

Uma caixa. Embrulhada em papel verde-escuro — a cor de pinheiros no inverno mais profundo — com uma fita prateada que capturava a luz como luar sobre a neve.

Fiquei encarando por um momento, franzindo a testa.

“É para você”, disse a Luna Ria com suavidade. “Vamos, abra.”

Com cuidado, descolei o papel e levantei a tampa.

O ar sumiu dos meus pulmões.

Um colar de prata. Um pingente pequeno. Antigo.

Eu reconheceria em qualquer lugar.

Ergui os olhos para os de Luna Ria, a pergunta silenciosa pairando entre nós. Ela olhou de relance para o Alfa Jack.

“Nós o encontramos no que restou da sua antiga matilha”, disse ele em voz baixa. “Achamos que isso poderia lhe trazer algum encerramento.”

As palavras dele não fizeram sentido de uma vez só. Foram se assentando devagar, uma por uma — e então o mundo pareceu inclinar.

As mãos do Alfa Jack encontraram meus ombros, mas já era tarde demais.

As imagens vieram do jeito que sempre vinham — rápidas, quebradas e impiedosas.

Fogo.

Sangue.

Olhos vermelhos.

A voz da minha mãe: “Não deixe que eles encontrem você…”

“Ayla.” A voz da Luna Ria cortou tudo, me puxando de volta. “Você está bem?”

Pisquei com força. A sala se recompôs ao meu redor, mas não parecia firme. Minhas mãos tremiam, e o colar tremia entre meus dedos.

Eu nem percebi as lágrimas até elas já estarem caindo.

Apertei os lábios e tentei fazê-las parar. Não funcionou.

O Alfa Jack me guiou com delicadeza até uma cadeira próxima. A Luna Ria se sentou perto, fechando as mãos com cuidado por cima das minhas.

“Calma”, ela murmurou. “Você está sofrendo. Nós sabemos. Mas estamos aqui — você sabe disso, não sabe?”

Assenti, embora eu não tivesse certeza do que, exatamente, estava concordando.

Prendi o colar com dedos desajeitados, o metal frio contra minha clavícula. Ele esquentou rápido — mais rápido do que deveria, como se se lembrasse de pertencer ali. Como se sempre tivesse sabido que era meu.

A voz do Alfa Jack veio baixa, atravessando o ruído da sala.

“Hoje à noite é seu décimo oitavo aniversário.”

Assenti.

Ele me observou por um momento antes de continuar. “Você está pronta para a sua primeira transformação?”

Minha loba se mexeu com aquelas palavras — urgente, inconfundível. Ela estava acordada. Acordada de verdade, pela primeira vez.

O medo veio primeiro, e depois algo por baixo dele. Algo mais afiado. Não era bem empolgação, mas chegava perto o suficiente para ser perigoso.

Eu sempre estive sozinha. Hoje à noite não mudaria isso.

Levantei o queixo e assenti. Era a única resposta que eu tinha.

A expressão da Luna Ria suavizou. “Você não vai mais ficar sozinha. Vai ter alguém ao seu lado — sempre.”

Eu sabia que ela dizia isso com carinho.

Mas mesmo assim alguma coisa no meu peito se apertou — elétrica, impossível de ignorar. Parecia que uma porta dentro de mim tinha se escancarado, uma que eu nem sabia que existia.

Algo estava chegando.

E ia mudar tudo.


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