Capítulo 3 Capítulo 3 — O primeiro turno

Ponto de vista de Ayla

O Alfa Jack e a Luna Ria não tentaram me impedir quando me virei para a porta pela segunda vez.

Eles sabiam. Um aceno silencioso passou entre nós, e eu escapei para fora antes que qualquer outra pessoa percebesse que eu estava saindo.

O frio me atingiu imediatamente — mais cortante agora do que antes, daquele tipo que se instala nos pulmões a cada respiração. Minha loba se agitou, inquieta, me impelindo para a frente, e eu a segui sem questionar. Ela sabia para onde estávamos indo antes mesmo de mim.

A floresta estava silenciosa. Silenciosa demais.

Minhas velhas botas de inverno esmagavam a neve com mais barulho do que deveriam, cada passo se anunciando às árvores vazias. Quanto mais eu andava, mais o barulho da casa da alcateia desaparecia atrás de mim — as risadas, a música, o calor — até não restar nada além do rangido dos galhos de pinheiros e bétulas pesados de gelo e do som suave da minha própria respiração se condensando no ar.

Ninguém estava me seguindo.

Ninguém estava vindo.

Eu já sabia disso. Já sabia antes de sair.

Os lobos que atingiam a maioridade faziam sua primeira transformação na clareira. A alcateia deveria se reunir, testemunhá-la e comemorá-la. Depois, haveria uma corrida com toda a alcateia unida sob a lua.

Afastei esse pensamento antes que ele pudesse se fixar. Não adiantava pensar em coisas que não iam mudar. Pelo menos a neve tinha parado.

Meu olhar se ergueu para o céu enquanto eu caminhava. As nuvens tinham se dissipado quando cheguei à beira da clareira, recuando para revelar um céu profundo, salpicado de estrelas. A lua estava cheia e brilhante acima de mim, sua luz derramando-se sobre o espaço aberto à frente e fazendo a neve intocada brilhar suavemente nas bordas.

Parei e fiquei ali por um instante, os dedos se fechando em torno do pingente no meu pescoço.

Metal frio. Sólido. Real.

Segurei-o por um pouco mais de tempo do que precisava. Então soltei.

Dei um passo até o centro da clareira. O frio mordeu minha pele no instante em que minhas roupas tocaram o chão — agudo, imediato, implacável. Mal senti isso. Minha loba estava forçando com intensidade agora, urgente de um jeito que não deixava espaço para hesitação.

Fechei os olhos.

Por um momento, nada aconteceu.

Então aconteceu.

Sem aviso. Sem preparação. Apenas dor — me rasgando como uma lâmina em brasa arrastada lentamente por tudo ao mesmo tempo. Meus joelhos cederam, e eu caí com força na neve. Meu corpo travou, depois se contorceu violentamente, ossos estalando e se deslocando de um jeito que embrulhava meu estômago. O som ecoou pela clareira vazia, alto demais, errado demais.

Meus dedos afundaram na neve. Minha coluna se arqueou para trás. O pouco de ar que ainda me restava foi arrancado por completo dos meus pulmões.

O calor veio depois da dor — inundando minhas veias, queimando sob minha pele e se espalhando pelo meu peito e por cada membro, até que eu não conseguia mais distinguir onde um terminava e o outro começava. E continuou. Tempo demais. Demais.

Deusa, isso vai acabar algum dia —

Então alguma coisa mudou.

A dor não parou. Ela mudou, se estendeu, depois se aguçou até se transformar em algo totalmente diferente. Poder. Subindo em meio à sensação de queimadura, parecia súbito, avassalador e inconfundível.

Meus sentidos se escancararam de uma só vez.

A terra sob a neve. Um pequeno coração batendo em algum lugar no fundo da floresta. O ar frio agora carregava uma dúzia de coisas que eu não teria sido capaz de identificar uma hora atrás.

Abri os olhos.

O mundo estava mais nítido. Os contornos, mais definidos. Tudo estava mais brilhante de um jeito que parecia mais certo do que qualquer coisa que eu já tivesse visto antes.

Desloquei o peso do corpo e parei.

Quatro patas na neve.

Testei isso sem pensar, e algo dentro de mim reconheceu antes que minha mente alcançasse. Parecia me lembrar de algo que, na verdade, eu nunca tinha aprendido.

Olhei para baixo.

Pelagem branca. Pura e brilhante, captando a luz da lua e guardando-a.

— Bom — disse uma voz, seca e totalmente nada impressionada. — Pelo menos não saímos decepcionantes.

Fiquei completamente imóvel.

“Espera… o quê?”, pensei.

— Ah, que ótimo, você ouviu isso — disse ela, e fez uma pausa. — Eu já ia começar a te julgar em voz alta.

Minhas orelhas se eriçaram para a frente.

— Você… você é a minha loba? — perguntei, ainda tentando acompanhar.

— Sim — ela respondeu, sem emoção. — Parabéns. Demorou tempo suficiente pra perceber.

Inspirei devagar, tentando acalmar a enxurrada de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Eu não esperava que minha loba falasse. Isso era sequer normal?

— É — disse ela, sem se impressionar. — Como você acha que a gente se comunica com a nossa humana?

Eu a ignorei, tentando entender o que estava sentindo.

— Qual é o seu nome? — perguntei.

Houve uma pausa que sugeria que ela estava reconsiderando profundamente a própria situação.

— Sério — ela começou. — A Deusa da Lua me juntou com…

Um nome veio à tona de algum lugar que eu não sabia explicar.

— Tala — murmurei.

Silêncio.

— …Hm. — Quase satisfeita. — Serve. Pelo menos você não disse PresaSombria. Isso teria começado as coisas bem mal.

O ar mudou.

Meu corpo reagiu antes da mente — orelhas projetando-se para a frente, músculos retesando, todo instinto ficando imóvel e alerta de uma vez.

Meu olhar foi para a linha das árvores.

Havia algo ali.

Sem se mover. Sem deslocar o peso. Sem respirar de forma visível — e, nessa temperatura, nesse frio, tudo respirava de forma visível. Aquilo só estava parado na beira da clareira, completamente imóvel, inteiramente focado.

Em nós.

Um arrepio desceu pela minha coluna que não tinha nada a ver com o frio.

— Isso não… — comecei.

— Normal? — disse Tala, com a voz mais baixa agora. — Não. Não é.

Nós o observamos. Ele nos observou de volta.

Aquela sensação gelada no meu peito não era nova. Eu já tinha sentido aquilo antes — treze anos atrás, nas bordas de fumaça e fogo e de um par de olhos vermelhos que me observavam do mesmo jeito. Com a mesma paciência. A mesma certeza.

— Ele está nos vendo — eu disse.

— Sim — respondeu Tala. A aspereza tinha sumido completamente da voz dela.

Pisquéi.

A figura tinha desaparecido.

Sem movimento. Sem som. Sem pegadas mexendo a neve na linha das árvores. Só… sumiu, como se nunca tivesse estado ali.

Estendi meus sentidos para fora, procurando um cheiro, um som, qualquer vestígio.

Nada.

— Isso é pior — disse Tala, baixinho.

Meu peito apertou.

— O que era aquilo?

— Eu não sei — ela disse. — E eu não gosto de não saber.

Aquilo pesou mais do que qualquer outra coisa que ela poderia ter dito.

— Não teve medo da gente — eu disse.

— Não — ela concordou. — Definitivamente, não.

A certeza se assentou sobre mim, fria e sólida. Seja lá o que era aquilo, não tinha me encontrado por acaso. Sabia que eu estaria aqui esta noite. Tinha vindo me ver me transformar.

E voltaria.

— A gente deve ir — eu disse.

— Olha só você — disse Tala, com uma ponta seca voltando à voz. — Tomando decisões. Eu já estava começando a me perguntar.

Virei na direção da casa da matilha, cuja luz agora era só um brilho fraco por entre as árvores. Juntei minhas roupas e corri — neve espirrando sob as minhas patas, a floresta borrada passando, meu corpo se movendo mais rápido e com mais facilidade do que jamais tinha se movido.

Mas a sensação não diminuía com a distância.

Ela se aguçava.

— Ele escolheu a gente — eu disse. — Especificamente. Estava esperando.

Tala ficou quieta por um longo momento.

Depois — nada. Nenhuma resposta sarcástica. Nenhuma observação seca. Só silêncio, pesado entre nós, enquanto as luzes da casa da matilha se aproximavam por entre as árvores.

E, de algum modo, aquilo era a coisa mais assustadora de todas.


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