Capítulo 4 Capítulo 4 — O perfume deles
Ponto de vista de Ayla
Quanto mais eu me aproximava da casa da alcateia, mais alto o mundo ficava.
Vozes atravessavam as árvores — risadas, música, brilhantes demais contra a escuridão e o silêncio que eu tinha acabado de deixar para trás. Cada som chegava errado: afiado demais, perto demais, intenso demais, tudo de uma vez. Meus sentidos não faziam ideia de como filtrar nada daquilo. Até a neve sob minhas patas parecia barulhenta demais.
De repente, tudo parecia.
Meu corpo já não parecia mais meu. Meus músculos estavam inquietos e retesados sob a pele, cheios de energia demais, como se eu pudesse disparar numa corrida sem querer e depois não conseguisse parar. Cada passo parecia poder se transformar em alguma coisa incontrolável.
Tala pairava na beirada dos meus pensamentos, observando. Quietamente divertida com tudo aquilo.
A casa da alcateia brilhava à frente, derramando calor sobre a neve. Aquilo deveria parecer mais seguro do que a floresta escura atrás de mim.
Não parecia.
"Devíamos voltar à forma humana", disse Tala. "A menos que você queira entrar assim e traumatizar metade da alcateia. Eu, pessoalmente, adoraria — mas, aparentemente, devemos nos comportar."
Acho que ela já tinha percebido que não éramos exatamente bem-vindas ali.
Escorreguei para trás da linha de árvores mais próxima.
A segunda transformação veio mais rápido que a primeira. Não foi mais fácil — nunca era mais fácil. A dor rasgou meu corpo, aguda e repentina, ossos se triturando e pele se esticando de um jeito que fez meus olhos se encherem d'água. Mordi com força suficiente para sentir gosto de sangue e reprimi o som. Quando voltei a ficar de pé sobre duas pernas, eu estava tremendo e completamente exausta.
Peguei minhas roupas e me vesti depressa, com os dedos desajeitados e lentos.
"Já está desmoronando?", Tala resmungou. "Mal começamos. Nunca vi uma loba tão desajeitada antes."
Ignorei-a, puxei o moletom pela cabeça e fui em direção à porta da casa da alcateia.
Empurrei a porta e a abri.
Três cheiros me atingiram ao mesmo tempo, e o efeito foi imediato e absoluto.
Aquilo me acertou como um golpe físico — meus pulmões travaram, minha visão embaçou nas bordas, e meus joelhos quase cederam. Agarrei o batente com força, os dedos cravando na madeira, o coração falhando uma vez antes de voltar a bater no ritmo certo.
"O que é esse cheiro...?", arquejei, as narinas se abrindo num reflexo impotente.
"Ah", disse Tala, a voz ficando cortante. "Bom. Isso... não é bom."
Tentei afastar os cheiros. Não funcionou. Eles não ficaram na superfície — se prenderam a algo mais fundo, me puxando de dentro para fora. Meus dedos ficaram dormentes. Meu peito apertou dolorosamente quando eles se enrolaram em mim, me puxando em três direções diferentes ao mesmo tempo, colidindo e se emaranhando.
"Por que eu estou me sentindo assim?", perguntei, respirando raso demais, rápido demais.
Tala ficou em silêncio. Silêncio demais, por tempo demais.
"...Você não vai gostar da resposta", ela disse por fim.
Antes que eu pudesse responder, meus pés já estavam se movendo.
O primeiro cheiro me puxou pelo corredor como uma correnteza que eu não tinha concordado em seguir. Cada passo parecia pesado e errado, como ser atraída para um lugar onde eu já sabia que não devia ir. Parei diante de uma porta, e meu pulso disparou com tanta força que doeu.
O quarto de Kael.
O nome caiu como uma pedra lançada em água parada, e eu mal conseguia respirar.
"Claro que é um Alfa", Tala resmungou. "Porque o destino tem senso de humor e, claramente, te odeia."
Cambaleei para trás — e o segundo cheiro se apertou ao meu redor, me redirecionando, me puxando ainda mais para o fundo do corredor antes que eu conseguisse pensar direito. Minha mão se fechou em torno da maçaneta de outra porta antes que minha mente alcançasse o que estava acontecendo.
Soltei na mesma hora.
O quarto de Ryker.
Meu estômago afundou. Um arrepio gelado percorreu toda a extensão da minha coluna.
“Deusa”, pensei. “Você está me castigando?”
Tala não disse nada. O que, de algum jeito, era ainda pior.
O pavor correu pelas minhas veias, lento e frio. Aquilo não podia ser real. Tinha que ser a transformação bagunçando meus sentidos — algum efeito colateral estranho, alguma coisa que passaria até de manhã.
“É um sonho doentio que você está tendo”, Tala disse, seca.
Então o terceiro cheiro me alcançou.
Mais discreto que os outros dois. Menos insistente. Não me puxava com força — simplesmente esperava, paciente e firme, como se já soubesse que eu acabaria indo até ele.
Meus pés se viraram antes que eu decidisse me mover.
A terceira porta.
Parei diante dela, e tudo dentro de mim ficou completamente imóvel — aquele tipo de imobilidade que só acontece bem antes de alguma coisa mudar para sempre.
Soren.
“Não”, sussurrei. “Isso… isso não pode ser verdade.”
“Você sabe o que isso significa”, Tala disse. Mais suave agora. Sem nenhum tom cortante.
Dei um passo para trás e balancei a cabeça no corredor vazio, como se isso de alguma forma pudesse ajudar.
E então me atingiu — não como um pensamento, não como uma palavra, mas como uma força que atravessou direto por mim antes que eu tivesse qualquer chance de me preparar.
“Companheiro”, Tala disse.
A palavra atravessou meu corpo como algo físico. O ar foi arrancado dos meus pulmões. Meus joelhos cederam, e eu me agarrei à parede, com o calor inundando meu peito — intenso, avassalador — a sensação de algo se encaixando no lugar e sem o menor interesse em se soltar de novo.
“O que foi que você acabou de dizer?” As palavras mal saíram.
“Os três”, Tala disse. Sem humor. Sem sarcasmo. Apenas firme, certa e completamente devastadora. “Ao que parece, o universo não acredita em fazer as coisas pela metade.”
Meu peito se apertou até eu não conseguir respirar direito.
Eles não. Qualquer pessoa no mundo, menos eles.
“Não olha pra mim desse jeito”, Tala disse depressa. “Eu não escolhi isso. Se eu tivesse escolhido, teríamos mirado em bem menos drama e catástrofe emocional.”
Eu corri.
Os cheiros deles vieram atrás de mim pelo corredor — grudando, se enrolando nos meus pulmões e se recusando a desaparecer, não importava quanta distância eu colocasse entre mim e aquelas três portas. Alcancei meu quarto e bati a porta com força, pressionando as costas contra ela.
Não adiantou.
Eles estavam sob a minha pele agora, os três, como se o vínculo já tivesse decidido alguma coisa com a qual a minha mente ainda não concordava e nem pretendesse pedir permissão.
“Eles são seus companheiros”, Tala disse baixinho. Não havia provocação na voz dela dessa vez.
Balancei a cabeça com força.
“Não”, eu disse, firme. “Eles não são.”
“Claro”, ela respondeu com facilidade. “A gente pode fingir. Eu apoio a negação — é um mecanismo de defesa muito popular… por enquanto.”
Escorreguei pela porta e puxei os joelhos até o peito.
Três companheiros. Não estranhos. Eles.
Kael. Ryker. Soren.
Os mesmos três que tinham feito treze anos de silêncio parecerem ainda mais pesados do que já eram.
“Eu não vou aceitá-los”, murmurei, enxugando as lágrimas dos olhos.
Tala soltou um zumbido suave. “Estratégia ousada”, ela disse. “Historicamente malsucedida — mas eu admiro a confiança.”
Quase retruquei. Quase.
Mas o vínculo pulsou — quente, certo e completamente indiferente ao que eu sentia sobre qualquer uma daquelas coisas.
Eu não os aceitaria.
Mas, em algum lugar lá no fundo, sob tudo o que eu dizia a mim mesma —
Minha loba já tinha aceitado.
