Capítulo 5 Capítulo 5 — O perfume que não deveria ser

Ponto de vista de Ryker

Acordei cedo demais e me arrependi na hora.

Minha cabeça ainda girava de tanto eggnog na noite anterior. Apertei a palma da mão contra a testa e fiquei ali, encarando o teto, tentando entender o que tinha me arrancado de um sono perfeitamente bom.

Duke.

Ele estava andando de um lado para o outro — pior do que o normal para alguém já inquieto como ele. Não era o vai e vem preguiçoso de um lobo entediado. Era algo mais agitado. Mais focado.

Passei a mão pelo rosto e me sentei. “O que foi agora?”, resmunguei baixinho. “Por que você não está dormindo? Nem está na hora do treino.”

Duke não respondeu. A atenção dele estava presa em alguma coisa que eu ainda não conseguia identificar.

Examinei o quarto. Nada fora do lugar. Cama revirada, botas perto da porta, o copo de eggnog pela metade ainda em cima da cômoda desde ontem à noite. Silêncio. Normal.

“Volta a dormir”, eu disse a ele. “Não tem nada—”

Então eu percebi.

Fraco. Eu teria deixado passar se já não estivesse acordado. Franzi a testa e puxei um ar mais lento, deixando o cheiro assentar de verdade na minha língua.

Frutas vermelhas.

Fresco e intenso — não aquela doçura artificial da cozinha. Algo de verdade. Algo que não tinha por que estar bem do lado de fora da minha porta a essa hora.

Meu corpo ficou rígido sem pedir permissão.

Inspirei de novo. Mais forte agora. Definitivamente vindo da porta.

“Companheira!”, Duke exclamou, e meu peito se apertou com força em torno da palavra.

“Não”, eu disse na mesma hora, endireitando as costas. “Não é assim que isso funciona. A gente teria sabido antes — sentido alguma coisa.”

Mas o cheiro não diminuía. Se é que dava, ele ficava mais denso, se enrolando nos meus sentidos e se recusando a soltar. Minha mente foi para um lugar onde eu não queria que fosse, e eu a puxei de volta com brutalidade.

Joguei as pernas para fora da cama e me levantei, me segurando quando cambaleei. Minha pele parecia apertada demais, como se algo por baixo estivesse tentando sair.

“Ela esteve aqui”, Duke disse, e a atenção dele se aguçou junto com a minha.

“Cala a boca”, eu murmurei — mas já estava indo em direção à porta.

Quanto mais eu me aproximava, pior ficava. Não era só doce. Havia outra coisa por baixo, algo em camadas, quente, que fez minha mandíbula travar.

Abri a porta de repente.

O corredor estava vazio.

Mas o cheiro estava ali — parado no ar como se estivesse me provocando. Parecia um jogo ao qual eu não tinha concordado em jogar.

Saí e olhei para os dois lados. Nada. Ninguém.

“Ela não entrou”, Duke disse. Havia algo quase ferido por trás da frase.

Fiquei ali por um instante, maxilar tenso, tentando entender. Ela veio até a minha porta. Ficou bem aqui. E então foi embora.

A porta de Kael se abriu antes que eu terminasse o pensamento. Ele já estava vestido — claro que estava. Os olhos dele encontraram os meus do outro lado do corredor, e a mesma carranca que eu sentia no meu próprio rosto estava talhada entre as sobrancelhas dele.

“Você sentiu o cheiro?”, perguntei. Não era exatamente uma pergunta.

“Bem do lado de fora da minha porta”, ele respondeu, com a voz baixa e cautelosa.

A porta de Soren abriu em seguida. Ele saiu, passou a mão pelo cabelo, puxou um ar — e ficou completamente imóvel.

Nós três ficamos no corredor, olhando uns para os outros.

Ninguém disse em voz alta. Não precisava.

Kael assentiu uma vez. “Vê se é o mesmo.”

Fomos juntos — primeiro a minha porta. O cheiro era mais forte ali, espesso o suficiente para quase parecer uma presença, não um rastro. Depois a de Kael — mesmo cheiro, com outra nuance por baixo. Depois a de Soren — a mesma coisa.

Nós três. A mesma loba.

Paramos no meio do corredor. Duke tinha parado de andar. Agora ele observava meus irmãos com uma intensidade que fez alguma coisa desconfortável se mexer dentro do meu peito.

“Ela veio até nós”, eu disse.

“Mas não entrou”, Soren completou, baixinho.

O maxilar de Kael se contraiu. — Mas por que ela faria isso?

Ninguém respondeu. Pensei nisso de todos os ângulos e não cheguei a nada, o que só me irritou ainda mais. Nós não éramos o tipo de homem que ficava sozinho em corredores. Lobas não costumavam se afastar de nós por escolha própria.

— Encontrem-na — rosnou Duke.

Os olhos de Kael se voltaram para os meus — o mesmo olhar afiado cuja pressão eu conseguia sentir me puxando. — Sigam o rastro — ele disse. — Nós a encontramos e descobrimos o motivo.

O cheiro nos guiou facilmente pelo corredor.

Fácil demais. Ela não tinha tentado escondê-lo nem um pouco, e isso me deixou em alerta imediatamente. Estávamos indo direto para alguma armadilha? Quase parei no meio do caminho quando percebi aonde aquilo estava nos levando.

Parei de repente.

Não.

Ayla.

Soltei uma respiração curta e seca. A palavra que saiu junto não era apropriada para ser repetida. Aquilo já não era mais incredulidade — a incredulidade tinha durado uns três segundos. O que a substituiu era mais confuso do que isso. Irritação. Confusão. Algo quente e embolado por baixo de tudo isso, algo que eu não ia examinar agora nem, possivelmente, nunca.

Soren ficou rígido ao meu lado.

Kael não se moveu nem um músculo.

O cheiro dela estava por toda parte ali — fresco, grudado nas paredes, envolvendo nós três, quiséssemos ou não. O que não queríamos. Obviamente. Aquela era Ayla. A garota que não tinha dito uma palavra em treze anos. A garota a quem eu tinha mandado arrumar outro lugar para dormir poucas horas atrás.

Minha própria companheira.

O pensamento fez alguma coisa dentro de mim querer socar a parede.

— Ela foi para o quarto dela — disse Soren, franzindo as sobrancelhas, com a voz tensa de um jeito que eu não tinha paciência para analisar agora.

— Ao que parece — murmurei, e empurrei a porta dela sem bater.

Vazio. Mas ainda quente — ela tinha estado ali no máximo alguns minutos antes. O cheiro dela estava nos cobertores, no ar e no chão. A velha mochila escolar dela pendia da cadeira. Livros empilhados com cuidado na escrivaninha. Nada fora do lugar. Só que ela tinha ido embora.

— Ela fugiu — disse Duke, e a sensação que despencou no meu peito com aquelas duas palavras não era algo para o qual eu estava preparado.

— Por que vir até nós e depois simplesmente ir embora? — perguntei, embora a irritação na minha própria voz já estivesse começando a responder a pergunta antes que qualquer outra pessoa pudesse.

— Porque você disse que hoje ela ficaria sem teto — disse Soren. Baixo. Direto.

Fiz uma careta antes que pudesse me impedir. — Eu nunca esperei que ela fosse minha...

— Nossa companheira — disse Soren. Seco. Final.

— Ela sentiu o vínculo — disse Kael, os olhos ainda percorrendo lentamente o quarto, como se estivesse catalogando cada vestígio dela. — Ela sabe exatamente o que nós somos para ela. E fugiu antes que tivéssemos a chance de piorar as coisas.

Duke se agitou com força dentro de mim. — Ela é nossa. Eu quero a minha companheira — agora.

— É, bom, entre na fila — murmurei, embora as palavras tenham saído com menos aspereza do que eu pretendia, porque alguma coisa em mim tinha mudado, e eu não gostei do quão silenciosamente isso aconteceu.

Não era só o vínculo puxando. Eu teria conseguido lidar com isso; poderia ter descartado como instinto e resolvido depois.

Aquilo era outra coisa. O fato de ela ter vindo até nossas portas. O fato de ter parado bem do lado de fora da minha, sentido o vínculo e ainda assim ter se virado e fugido — aquilo não era instinto. Foi uma decisão. Uma que ela tomou por causa de coisas que eu disse e fiz.

Isso tornava tudo pessoal.

— Precisamos encontrá-la antes que ela cruze a fronteira — disse Soren. — Depois disso, complica.

Os olhos de Kael cortaram na direção dos meus. Algo faiscou ali — o mesmo calor que eu sentia se instalar, baixo e inquieto, no meu próprio peito. — Vamos ver até onde ela acha que consegue ir — ele disse.

Um sorriso lento puxou o canto da minha boca antes que eu conseguisse impedir.

Ela fugiu.

Tudo bem. Deixa ela correr.

— É — murmurei, já indo em direção à porta. — Vamos descobrir.


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