Capítulo 7 Capítulo 7 — Aquele que lidera a caça
Ponto de vista de Kael
A floresta ficou quase silenciosa quando cruzamos a linha das árvores.
Não era o tipo de silêncio pacífico — era o tipo que avisava. O tipo que observava e esperava. Todos os meus instintos se aguçaram na mesma hora, retesando sob a minha pele. A tensão no ar era palpável.
Fui o primeiro a me mover, seguindo o cheiro de Ayla para mais fundo entre as árvores. Estava fresco e avassalador, agarrado ao ar em camadas que dificultavam pensar com clareza. Frutas vermelhas — intensas e vivas — envolvendo meus sentidos e remexendo em algo dentro de mim que eu ainda não estava pronto para nomear. Por um momento, pareceu que eu estava perdendo o controle, como se o vínculo estivesse me puxando para a frente mais rápido do que eu queria ir.
Ryker veio logo atrás. Soren ficou na retaguarda.
Formação. Instinto. A única coisa impedindo que tudo desmoronasse.
Fenrir estava desperto — não andando de um lado para o outro, não inquieto. Focado de um jeito que raramente ficava. Ele sentiu uma única lufada do cheiro dela lá no corredor e, desde então, não conseguiu largá-lo.
Tentei argumentar com ele antes de sairmos. Tentei explicar que precisávamos de uma Luna forte. Que uma garota muda, tímida, que nunca havia se defendido, não poderia liderar ao lado de um Alfa. Que a Deusa me daria uma segunda chance se eu rejeitasse aquele vínculo.
Fenrir ouviu cada palavra.
Então ignorou tudo.
“Ela não é fraca”, ele disse, com uma certeza que me pegou completamente de surpresa. “Ela é mais do que você jamais se deu ao trabalho de enxergar.”
As palavras atingiram um lugar incômodo, e eu não tinha conseguido me livrar delas desde então. Porque, quanto mais eu pensava naquilo, mais difícil ficava argumentar. Ayla tinha suportado anos de crueldade — da nossa parte, da alcateia, de uma vida que nunca lhe deu absolutamente nada — e nem uma vez desmoronou por causa disso. Nunca reagiu. Nunca se quebrou diante de nós.
Aquilo não era fraqueza.
Eu só não quis ver pelo que realmente era.
Então algo lentamente se encaixou na minha mente: Ayla sempre foi forte — não de um jeito óbvio, mas em silêncio. Ela suportou nossas tormentas diárias sem ceder à pressão. Talvez fosse exatamente disso que a alcateia precisava. De alguém capaz de permanecer firme em silêncio.
No instante em que esse pensamento me ocorreu, a necessidade de encontrá-la e mantê-la perto de mim cresceu até se tornar algo mais difícil de ignorar. Eu lutei contra isso da mesma forma que lutava contra tudo — deliberadamente, metodicamente. Não adiantou.
Avançamos mais para dentro. Mais devagar agora, com o cheiro ficando mais forte a cada passo.
Então ele mudou — não de forma aleatória, mas deliberada.
“Ela está se movendo”, eu disse em voz baixa, estreitando os olhos.
“Ela não está em pânico”, Soren disse atrás de mim. “Ela está pensando.”
Ryker soltou um muxoxo. “Ah, brilhante...”
“Ela não está mais correndo às cegas”, Soren continuou, ignorando-o. “A loba dela está—”
“Isso é tão idiota”, Ryker cortou, a voz baixa, mas afiada. “Você percebe isso, não percebe? Estamos aqui fora, nesse frio congelante, antes do nascer do sol, perseguindo uma garota muda pela floresta.”
As palavras caíram como uma pedra lançada em águas paradas.
Eu parei de andar.
Soren parou meio passo atrás de mim.
Nenhum de nós disse nada imediatamente, e o silêncio que se seguiu era do tipo que tinha peso.
Então me virei devagar.
Ryker leu minha expressão, e o maxilar dele se contraiu; algo lampejou por trás dos seus olhos que parecia quase arrependimento — mas ele manteve a posição, ombros retos, queixo erguido.
“Ryker”, Soren disse, a voz baixa e absolutamente letal. “Cala a boca.”
“Ela é a nossa companheira”, eu disse. Baixo. Definitivo. O tipo de tom que não convidava resposta. “Da próxima vez que você falar dela desse jeito, vai se arrepender.”
O maxilar de Ryker trabalhou. Um músculo saltou em sua bochecha. Por um momento, pareceu que ele iria retrucar — e então algo dentro dele murchou, ainda que só um pouco. Não o bastante para que ele reagisse com elegância, mas o suficiente.
Ele desviou o olhar primeiro.
As pontas das orelhas ficaram vermelhas.
“Eu não quis...” ele começou.
—Você fez isso — disse Soren. — Esse é o problema.
Ryker ficou em silêncio. Passou a mão com aspereza pelos cabelos e encarou um ponto em algum lugar além do meu ombro, maxilar tenso, ombros rígidos. O constrangimento estava estampado nele — não o tipo limpo, mas o tipo confuso que vem de saber que você disse a coisa errada e não saber muito bem como conviver com isso.
Duke estava vindo à tona — eu podia ver isso pelo jeito como os olhos de Ryker tinham escurecido levemente nas bordas. Inquieto. Volátil. Lutando contra alguma coisa.
Essa era a questão com Ryker. Ele nunca tivera paciência com Ayla. Seu pavio curto sempre atrapalhava. Ele não sabia o que fazer com emoções que não fossem raiva ou adrenalina. Todo o resto simplesmente saía errado. Ele teria de se esforçar mais do que todos para conquistar a confiança dela — e, em algum lugar sob toda aquela inquietação, achei que ele já sabia disso.
Voltei a olhar para as árvores.
— Mais devagar — ordenei, e comecei a andar de novo. — Nós não estamos caçando ela.
Ryker soltou o ar pelo nariz, num gesto seco e frustrado, mas voltou à formação sem dizer mais nada.
Nós nos espalhamos um pouco à medida que avançávamos mais para dentro, as árvores rareando adiante, onde a luz atravessava em faixas pálidas de inverno.
Fenrir avançou, puxando minha atenção com ele.
— Ela está perto — disse ele.
— Eu sei — respondi.
O cheiro dela estava por toda parte agora — na casca das árvores, impregnado na neve sob nossos pés. O vínculo vibrava sob minha pele, baixo e insistente, e mantive meu controle sobre ele deliberadamente frouxo. Sem puxar. Sem empurrar.
— Ela não é uma ômega — disse Ryker de repente, a voz diferente agora. Mais baixa. Como se ele só estivesse entendendo aquilo naquele momento.
— Eu suspeitava disso — respondeu Soren.
Olhei para trás.
— Você sabia?
— Suspeitava — disse ele. — Ela é filha de um Alfa. Pela forma como se porta — até pela forma como suporta as coisas. Ômegas não se mantêm assim.
Lembrei de algo — vozes baixas entre meus pais na noite em que ela chegou, anos atrás. Eu era novo demais para entender por completo, e com o tempo me convenci de que tinha interpretado errado. Achei que ela era quieta demais, pequena demais e invisível demais para ser o que meus pais tinham insinuado. Concluí que ela tinha sido banida por um Alfa.
Eu também estava errado sobre isso.
As orelhas de Fenrir se moveram bruscamente.
— Ali — disse ele. — Atrás da grande bétula. Ela está nos observando.
Ergui o olhar devagar e a encontrei quase de imediato — mal visível, pressionada contra o lado oposto do tronco. Imóvel. Observando.
Sem fugir.
— Saia daí, Ayla — chamei. Firme. Medido. Nada parecido com a forma como eu costumava falar com ela — sem dureza, sem desdém. Aquela versão de nós tinha acabado. Precisava ter acabado. Tudo tinha mudado.
Ela não se mexeu.
— Teimosa — murmurou Fenrir, embora houvesse algo quase afetuoso por baixo daquilo. — Ela nos ouviu. Só está sendo difícil.
— Ela ouviu você — disse Soren em voz baixa. — Está decidindo.
Ryker se mexeu ao meu lado, a tensão se desprendendo dele em ondas. Ele estava se controlando com o que parecia ser um esforço genuíno, mãos cerradas ao lado do corpo e o maxilar travado. Ele não era bom nisso — esperar, ficar parado, se conter de propósito. Isso ia contra tudo para o que ele tinha sido feito.
— Ela ainda não está se mexendo — murmurou ele, quase para si mesmo.
— Vai se mexer — disse Soren. — Ela não vai conseguir resistir ao vínculo por muito tempo.
— Saia — eu disse de novo, mantendo a voz estável. — Não estamos aqui para machucar você.
As árvores conservaram seu silêncio.
Fenrir ficou completamente imóvel dentro de mim, toda a sua atenção fixada naquela bétula e na garota atrás dela.
Ela estava decidindo. Soren tinha razão quanto a isso. E o que quer que ela decidisse nos próximos momentos definiria o tom de tudo o que viria depois.
Eu não me movi. Não pressionei.
Nós já tínhamos dado motivos suficientes para ela fugir.
O mínimo que eu podia fazer agora era dar a ela um motivo para ficar.
