Capítulo 9 Capítulo 9 — Aquele que sempre a viu
Ponto de vista de Soren
Ayla saiu de trás da árvore, e todo o resto desapareceu.
Meus irmãos, o frio, a floresta — tudo se apagou nas bordas. Só havia ela, parada sob a pálida luz da manhã, como se tivesse tomado uma decisão e desafiado o mundo a contestá-la.
Blaze ficou completamente imóvel dentro de mim. Não tenso. Não inquieto. Apenas... quieto. Do jeito que ele ficava quando algo importava.
— Lá — disse ele baixinho, apontando o focinho para onde ela estava.
Não respondi. Estava ocupado demais olhando para ela de verdade — talvez pela primeira vez.
Ela não parecia pequena ali fora. Não estava escondida, nem invisível, nem era fácil ignorá-la como sempre fizera de si mesma na casa da alcateia. Ela estava presente. Firme. E furiosa de um jeito que combinava muito mais com ela do que o silêncio que eu a vira vestir por anos.
Seu cabelo castanho-avermelhado caía solto sobre os ombros, mais selvagem do que de costume por causa da floresta, com mechas captando a luz de um jeito em que reparei mais do que deveria. Seus olhos prateados — um cinza marcante sob a luz da manhã — estavam afiados, diretos, apontados para nós três como um julgamento já decretado.
— Ela está furiosa — observou Blaze. — Com todos vocês igualmente. Muito eficiente.
— Sim — murmurei. Eu não esperava nada diferente. Esta não seria uma tarefa fácil — conquistar o coração dela.
O vínculo pulsava entre nós, baixo e constante — uma vibração que eu sentia no peito em vez de ouvir. Isso tornava tudo mais difícil de ignorar. Ela. A culpa. A versão de tudo isso que eu poderia ter evitado anos atrás, se tivesse estado disposto a fazer a única coisa que nunca fiz.
Intervir.
Eu tinha notado Ayla. Era isso que ninguém sabia — nem meus irmãos, nem a alcateia, nem a própria Ayla. Eu tinha notado tudo. O jeito como ela ficava nos cantos de cada cômodo, como se calculasse a saída mais rápida. O jeito como absorvia tudo o que jogávamos nela sem demonstrar reação por fora, mesmo quando eu conseguia ver o impacto atingir seus olhos. O jeito como ela ficava a cada Natal — aquela tristeza específica que carregava, que não tinha nada a ver com aquele ano e tudo a ver com os anteriores. Ela sentia falta da alcateia dela, dos pais e da vida que lhe haviam arrancado. Sofria em silêncio porque não tinha outro jeito de fazer isso.
Eu via.
Todas as vezes.
E não dizia nada.
Não porque eu não pudesse. Mas porque era mais fácil não me envolver, era mais fácil não ser o irmão que ficava ao lado da garota que ninguém queria, e era mais fácil observar de longe e me convencer de que aquilo não era problema meu.
Também notei o jeito como ela reagia quando riam dela e a empurravam para o lado. O jeito como se mantinha de pé — sem nunca se quebrar por completo, mesmo quando tudo ao redor dizia que deveria.
— Você devia ter dito alguma coisa — disse Blaze em voz baixa. — Ao menos uma vez.
Meu maxilar se contraiu.
— Eu sei. E agora tenho de viver com as consequências. Se eu a tivesse defendido nem que fosse uma vez, isso teria sido diferente.
— Uma palavra sua, e poderia ter sido diferente.
— Eu sei — repeti, e o peso disso se assentou com mais força do que qualquer coisa que Ryker ou Kael tivessem feito — porque eles agiram por crueldade e ignorância. Eu agi por escolha. Eu sabia mais, e mesmo assim não fiz nada.
Era mais difícil conviver com isso.
Ayla não tinha se movido. Permanecia firme na neve, com os braços ao lado do corpo e os olhos percorrendo nós três de um jeito que parecia um acerto de contas. Ela não estava fugindo. Não estava recuando. Estava nos observando e nos julgando, e tinha todo o direito de fazer isso. Nós tínhamos transformado a vida dela num inferno.
Kael reagiu primeiro — claro que reagiu. Deu um pequeno passo à frente, e eu podia sentir Fenrir logo abaixo da superfície, dominante e seguro, mas cauteloso. Até Fenrir entendia que não podíamos nos dar ao luxo de cometer um erro aqui.
Ryker se moveu ao meu lado. Duke mal estava contido — eu via isso no maxilar travado de Ryker, na tensão espalhada pelos ombros, no jeito como suas mãos se fechavam e abriam ao lado do corpo.
“Diz alguma coisa”, Ryker murmurou baixinho.
Eu não respondi. Não eram palavras que ela precisava de nós. Ao longo dos anos, ela já tinha ouvido palavras demais da nossa parte, e nenhuma delas tinha valido grande coisa. Ela precisava de ações.
“Ela está se mantendo firme”, Blaze disse em voz baixa.
“Não estou surpreso”, respondi. E isso importava — mais do que meus irmãos provavelmente ainda entendiam. A garota que conhecíamos teria fugido no instante em que nos visse chegando. Teria se encolhido e desaparecido antes que chegássemos perto o bastante para causar qualquer dano. Mas ela não fez isso. Ela saiu. Ainda estava ali, em pé.
Isso precisava contar para alguma coisa.
Eu me movi antes de decidir por completo — passos lentos e deliberados à frente, saindo da formação sem pedir permissão. Mantive toda a minha postura cuidadosa. Não ameaçadora. O suficiente apenas para diminuir um pouco a distância sem fazê-la recuar.
Os olhos de Ayla se voltaram imediatamente para mim.
Eu parei.
O medo que passou pelo rosto dela foi breve, mas eu percebi — a leve tensão nos ombros, o modo como os dedos se curvaram ao lado do corpo, a sutil mudança de peso em direção à linha das árvores atrás dela.
“Ela está pronta para fugir”, Kael disse pelo elo mental.
“Ou lutar”, Ryker acrescentou.
Ignorei os dois e sustentei o olhar dela. A fronteira ficava logo depois da linha das árvores atrás dela. Se ela decidisse ir embora, não havia nada que qualquer um de nós pudesse fazer para impedi-la.
“Nós machucamos você”, eu disse em voz baixa. Sem preâmbulos. Sem amenizar. “Nós sabíamos disso e fizemos assim mesmo. Isso é algo que eu não posso justificar.” Fiz uma pausa, deixando aquilo assentar. “Sabemos que você é nossa companheira. E sabemos que não merecemos estar aqui, diante de você, pedindo para que fique.”
O vínculo se alterou entre nós no instante em que as palavras a atingiram.
As emoções dela vieram através dele em ondas — cruas, sem filtro, e muito mais intensas do que eu esperava. Dor. Raiva. Algo mais solitário do que qualquer uma das duas. Anos de ressentimento tinham se acumulado, comprimidos em um único momento.
Ouvi Ryker soltar o ar bruscamente atrás de mim. Ele sentiu também. Ao lado dele, a expressão de Kael permaneceu controlada, mas eu o conhecia bem o bastante para enxergar o esforço que isso exigia.
Eu não desviei o olhar dela.
“Ela não está rejeitando o vínculo”, Blaze disse com cuidado.
“Não”, eu disse. “Mas também não está aceitando. Está determinada a lutar contra isso.”
“Um movimento errado”, ele alertou. “A fronteira está logo atrás dela.”
“Eu sei”, eu disse. “Eu sei.”
Respirei fundo devagar. Pela primeira vez, não a vi como a garota silenciosa no canto, nem como aquela por quem todos passavam sem notar.
Eu a vi com clareza.
Forte. Inflexível. Nossa.
E talvez ela não fosse quem merecíamos.
“Mas nós a queremos mesmo assim”, Blaze disse baixinho.
Meu peito se apertou com aquilo.
“Sim”, eu disse em voz baixa. “Queremos.”
Não dava mais para fingir o contrário. Não havia mais uma distância conveniente para a qual recuar. Ela tinha saído de trás daquela árvore, e o vínculo tinha se encaixado no lugar como algo que esperava havia muito tempo exatamente por aquele momento, e agora estávamos todos parados no meio do que viria a seguir.
Quer ela nos aceitasse ou não —
Ela já estava no centro de tudo.
