Capítulo 1

— Clara, beba esse chocolate quente enquanto ainda está quente. Fiz especialmente pra você.

Minha sogra, Margaret, estendeu aquela caneca fumegante e encorpada de chocolate e praticamente enfiou nas minhas mãos. Olhou para a esquerda e para a direita e então se inclinou, sussurrando:

— Shhh… Não fiz nenhum pro Ethan nem pro Liam. É todinho seu, exclusivo.

Ao encarar aquela bebida “especial” que aparecia, pontualmente, todas as noites antes de eu dormir, meu estômago revirou.

Era a noite anterior à minha terceira tentativa no Exame da Ordem da Califórnia.

Como uma formada com notas máximas em Harvard Law School, eu não deveria ter problema algum com a prova da Ordem. Mas, nos últimos dois anos, logo depois de beber o chocolate quente da Margaret, eu tinha sofrido os acidentes mais absurdos e fora da casinha.

Primeiro exame: de repente, fiquei tonta naquele salão de prova insuportavelmente rígido, apaguei na hora, me levaram de ambulância e perdi a prova inteira. Enquanto isso, meu marido, Ethan — que mal conseguia recitar estatutos básicos e só sabia jogar videogame — de algum jeito gabaritou o exame mais difícil do país naquele mesmo ano e conseguiu a licença para advogar como se não fosse nada.

Segundo exame: Margaret apareceu de novo com o mesmo sorriso e a mesma caneca de chocolate quente. No instante em que pisei na sala, cheia de confiança, uma dor de estômago excruciante me atingiu com tanta força que eu desabei no chão me contorcendo, o suor encharcando cada centímetro da minha roupa. Reprovei outra vez. Mas a parte ainda mais insana? Minha prima Sophie, que só tinha feito uma faculdade comunitária, milagrosamente passou na Ordem naquele mesmo ano!

Dois acidentes bizarros seguidos transformaram aquele chocolate de cheiro doce, aos meus olhos, numa caneca de veneno.

— Por que você não está bebendo? Anda, termina logo, você tem prova amanhã! — a voz insistente de Margaret veio com uma ponta afiada, imperativa, os olhos grudados nos meus lábios como se ela não fosse sossegar até eu engolir a última gota.

Eu forcei meu coração disparado a se acalmar, peguei a caneca de propósito e caminhei em direção à porta. Por coincidência, Liam — meu cunhado, que também faria a prova amanhã — vinha andando pelo corredor.

— Liam, você também vai fazer a prova amanhã. Eu não consigo tomar essa caneca toda sozinha; por que a gente não divide? Dá um gás pro cérebro, tira um pouco do nervosismo pré-prova — chamei na hora, estendendo a caneca como se fosse passar para ele.

Os olhos de Liam brilharam e ele foi pegar imediatamente.

— Sério? Eu vou poder provar o chocolate quente secreto da mãe? Me dá um gole!

Margaret se lançou para a frente e deu um tapa forte na mão dele, afastando-a.

— Que porra você acha que está bebendo?! — o jeito de Margaret mudou num segundo, fulminando o próprio filho com o olhar. — A Clara tem prova amanhã, isso aqui é especificamente pra nutrir ela! Para de ficar rondando aqui que nem um cachorro perdido e volta pro seu quarto!

Liam segurou a mão vermelha, ardendo, e gritou de volta, cheio de atitude:

— Por que caralho não?! Eu também vou fazer a prova, eu sou seu filho de verdade, por que só a Clara ganha chocolate quente? Mãe, você é parcial pra caralho! Eu existo pra você ou não?!

Margaret fungou e rebateu como se estivesse absolutamente certa.

— Por que você não vai se olhar no espelho e vê que tipo de notas tiraria? Eu puxo a sardinha pra Clara e com toda razão. Ela se formou em Harvard, só tirou A. Que porra você tem pra comparar?

— E daí que ela foi pra Harvard?! — Liam estava completamente puto agora, apontando bem na minha cara e rindo, com puro desprezo nos olhos. — As notas dela podem ser do caralho em condições normais, mas ela reprovou na ordem duas vezes seguidas! Dois anos atrás ela foi pior que o Ethan, no ano passado nem conseguiu passar da Sophie, aquela fracassada de faculdade comunitária! Ela é só uma piada de decoreba, inútil no mundo real! Pra que entupir essa idiota de chocolate quente todo dia? Era melhor dar pra um cachorro!

Aquelas palavras cortantes cravaram nos meus ouvidos como facas, rasgando na hora cada grama do ressentimento que eu vinha engolindo.

É, eu sou a gênia do direito de Harvard, o Ethan é o imprestável que bomba em todas as matérias, a Sophie é a que nem conseguiu entrar na faculdade de direito. Então por que diabos aqueles dois perdedores conseguem passar na prova da Ordem da Califórnia sem problema, enquanto eu — que estou totalmente preparada — não consigo nem atravessar a porra da sala de prova?

O rosto de Margaret escureceu por completo. Ela apontou para o corredor e berrou:

— Cala a porra da boca! Volta pra cama agora, e se você falar mais uma palavra eu arranco fora!

Liam revirou os olhos com força, resmungou um monte de palavrões entre dentes e saiu pisando duro.

Depois de enxotar Liam, Margaret se virou de volta, e a raiva no rosto dela virou um sorriso carinhoso num instante.

— Clara, não escuta as besteiras do Liam. Nas duas primeiras vezes você só deu azar, seu corpo não estava bem ajustado. Anda, me escuta, bebe esse chocolate quente, dorme bem, e a prova de amanhã vai dar tudo certo.

Ela empurrou a xícara de volta até os meus lábios sem me dar escolha, e aquele cheiro enjoativo de chocolate me acertou em cheio no nariz.

Eu encarei aqueles olhos dela, cheios de expectativa, e um frio se espalhou pelo meu corpo inteiro. Se nas duas primeiras vezes eu só descartei como azar, agora — juntando todas as coincidências dos últimos dois anos, mais o jeito como ela preferia dar um tapa no Liam a deixar ele encostar nesse chocolate — um palpite horrível se formou inteiro na minha cabeça.

Aquele chocolate quente definitivamente não era por nutrição.

Respirei fundo, forcei meus dedos trêmulos a se acalmarem, forcei um sorriso obediente e estendi a mão para a xícara.

— Obrigada, mas está muito quente. Vou deixar na mesa pra esfriar um minutinho e já bebo.

Margaret me encarou com desconfiança por alguns segundos, depois assentiu a contragosto.

— Tudo bem, mas nem pense em esquecer de beber. Termina isso e descansa. Eu venho buscar a xícara de manhã.

A porta fez um clique ao fechar, e aqueles passos pesados pelo corredor foram sumindo.

Peguei a xícara de chocolate quente — a mesma que quase me custou a carreira inteira —, fui depressa até a janela e não hesitei um segundo antes de despejar até a última gota daquele líquido grosso no vaso de flores no parapeito.

O líquido marrom-escuro foi engolido pela terra na mesma hora, em silêncio, e desapareceu.

Encarei com força o fundo completamente vazio da xícara, e o canto da minha boca se curvou num sorriso frio.

Dessa vez, não deve acontecer nenhum “acidente”, certo?

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