Capítulo 2

Na manhã seguinte, Margaret já tinha colocado o café da manhã na mesa. Na frente de Ethan e Liam havia bagels fresquinhos e café preto. E bem na minha frente, perfeitamente posicionado, estava mais uma caneca fumegante de chocolate quente — grosso, denso e pegajoso.

— Clara, beba isso enquanto ainda está quente. — Margaret empurrou a caneca um pouco mais para perto de mim. — Seu corpo está muito fraco, e o exame da Ordem dura três dias inteiros. Você precisa se nutrir melhor.

Liam passava cream cheese no bagel enquanto soltava um comentário venenoso:

— Parece que o corpo da gênia não é lá essas coisas. Bebe, bebe, e continua inútil. Não vai desmaiar no salão do exame hoje de novo, como nos últimos dois anos, e passar vergonha.

Eu encarei aquela caneca de chocolate quente com cheiro adocicado e senti como se estivesse sentada sobre alfinetes. As lições dolorosas dos dois fracassos anteriores ainda estavam bem vivas na minha cabeça. Ontem à noite, eu tinha despejado o chocolate de antes de dormir no vaso de flores — e agora ela vinha com outro de manhã! Isso não era nutrição; era uma sentença de morte.

Eu me levantei de supetão, empurrei o chocolate quente com força para longe e estendi a mão para o café preto de Ethan.

— Mãe, hoje eu não estou a fim de beber nada doce. Café está ótimo, vai me acordar.

Mas, antes mesmo de meus dedos encostarem na borda da xícara, Margaret se atirou para a frente, agarrou a xícara e o pires e os jogou com força na pia.

— De jeito nenhum! — o rosto de Margaret escureceu na mesma hora. — Eu já te disse que seu corpo não é forte o bastante. Café preto não tem nutriente nenhum! Hoje você vai beber até a última gota desse chocolate quente, e ponto final!

Ela me encarou, aquela teimosia quase insana brilhando nos olhos.

— Eu mesma fiz isso hoje cedo, logo que acordei. Se você não beber, você não sai desta casa para fazer a prova!

Ethan estava sentado ali com um olhar gelado, zombeteiro.

— Clara, para com essa merda. A mãe acorda cedo e dorme tarde cuidando de você, e você fica fazendo pose de princesinha de Harvard? Que ingratidão. Você tá jogando no lixo as boas intenções dela.

A raiva dentro de mim explodiu direto na minha cabeça. Eu não consegui segurar mais. Bati a mão na mesa, levantei a voz e retruquei:

— Eu não vou beber! Você não tá me entendendo?! Eu disse que eu não vou beber essa porra! — Apontei para o chocolate quente, com os olhos ardendo, vermelhos, enquanto encarava Margaret. — O que é que tem nessa coisa?! Por que vocês ficam me obrigando a beber isso?!

Minha pergunta, alta, ecoou pela sala de jantar.

Margaret claramente não esperava que eu enfrentasse ela na cara. Ela ficou paralisada, atônita; os olhos se encheram de lágrimas num instante, e o rosto inteiro se contorceu de mágoa e tristeza.

— Você... você realmente pensa isso de mim? — os lábios dela tremeram, e ela virou o rosto, decepcionada. — Tá bom, tá bom. Então não bebe. Acho que eu me preocupei à toa. Minhas boas intenções foram direto pro inferno.

Ao ver o quanto ela parecia destruída, meu coração se apertou um pouco. Um lampejo de culpa me atravessou. Será que eu estava exagerando? Será que ela só estava, de verdade, cuidando de mim?

Não! Hoje era o exame da Ordem mais importante da minha vida. Eu não podia, de jeito nenhum, deixar que qualquer acidente acontecesse de novo! Mesmo que eu estivesse errada sobre ela, pelo bem da prova eu não ia recuar.

Respirei fundo, forcei a tempestade no meu peito a baixar, peguei um pedaço de torrada seca da mesa e enfiei na boca.

— Desculpa, mas hoje eu realmente não tô a fim de beber isso.

Dito isso, mastiguei algumas bocadas do pão seco, peguei meu comprovante de inscrição e minha bolsa, e saí de casa feito um furacão sem olhar para trás, indo para a prova.

Ao entrar na sala do exame da ordem pela terceira vez, forcei a mim mesma a bloquear todas as discussões daquela manhã.

Quando o sinal da prova tocou, abri o caderno de questões rapidamente. Meus olhos correram pelas perguntas, e meu coração disparou — era tudo assunto que eu tinha revisado!

Minha mente estava mais clara do que nunca. Dispositivos legais e análise de casos fluíam da minha caneta como água. Tudo estava correndo perfeitamente. Aquela sensação de estar totalmente no controle finalmente tinha voltado.

Mas, no meio da prova da manhã, uma sensação muito estranha me atingiu do nada.

As letras na página começaram a se duplicar e se torcer, completamente fora do meu controle. Parecia que meu cérebro estava sendo drenado de oxigênio. Minha visão começou a escurecer, e um cansaço esmagador e sufocante se enrolou em mim com força.

Meu pulso começou a tremer tanto que eu não conseguia nem escrever a letra mais simples.

Que porra?! Eu não bebi nada! Só dei uma mordida na torrada!

Mordi o lábio com força, até enfiei a mão debaixo da mesa e belisquei a parte interna da coxa com toda a força que consegui. A dor aguda das unhas cravando na minha carne me deu alguns segundos de lucidez.

Continua escrevendo... só mais uma questão...

Mas aquele cansaço brutal não era algo que a força de vontade pudesse vencer. Era como um enorme buraco negro, engolindo instantaneamente cada último fiapo da minha consciência. Tudo ficou completamente preto, e eu desabei de cara sobre a carteira, apagando de vez.

— Clara... acorda...

Não sei quanto tempo passou, mas uma voz chamou meu nome de algum lugar, bem ao longe.

Meus olhos se abriram de repente. Eu não estava olhando para o teto branco e frio da sala de prova — estava olhando para a luminária familiar do meu quarto.

Eu estava... em casa?!

As memórias voltaram de uma vez, e meu coração falhou uma batida. A prova! Meu exame da ordem!

Afastei as cobertas em pânico, nem me dei ao trabalho de calçar os sapatos, e tentei correr de volta para o local da prova imediatamente. Mas, no segundo em que meus pés tocaram o chão, meus joelhos fraquejaram, e eu caí para a frente sem controle, batendo com força no carpete.

A porta do quarto se escancarou com estrondo.

Margaret entrou carregando uma bandeja familiar. E na bandeja — lá estava de novo, outra xícara de chocolate quente fumegante!

— Nossa, até que enfim você acordou. — Margaret olhou para mim sentada no chão, com a voz carregada de exasperação. — Eu te avisei, seu corpo é fraco. Mandei você beber o chocolate quente hoje de manhã para se nutrir, mas você tinha que ser teimosa! E o que aconteceu? Você desmaiou por hipoglicemia na sala de prova, não foi?

Encarei-a com firmeza, o suor frio escorrendo pelo meu rosto, e gritei:

— Margaret, que horas são?! Anda! Me leva para o local da prova! Eu preciso fazer o exame!

Margaret pousou a bandeja no criado-mudo e falou friamente:

— Que prova? Você ficou dormindo na cama por três dias inteiros. O exame da ordem já acabou faz tempo.

Que porra?!

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo