Capítulo 4

O tempo voou, e finalmente chegou o dia em que saíram os resultados do exame da Ordem.

A família inteira se reuniu cedo na sala de estar. Até Sophie — minha prima que só fez faculdade comunitária, mas de algum jeito conseguiu a licença para advogar — apareceu só para se gabar.

No segundo em que me viu descer as escadas, Sophie revirou os olhos com tanta força que achei que iam ficar presos, sem fazer o menor esforço para esconder o deboche. “Ora, ora, vejam só se não é a gênia de Harvard que ficou três anos tomando um cacau especial… Ouvi dizer que você desmaiou na sala de prova de novo, dessa vez? Acho que esse cérebro de gênio de primeira linha não é tudo isso, né?”

Margaret se aproximou com um sorriso, dando tapinhas na minha mão com uma simpatia falsa. “Tudo bem, Clara. Você se atrapalhou este ano, a gente tenta de novo no ano que vem.”

Ignorei as provocações com o rosto frio, abri meu computador e entrei no sistema de consulta de notas. A página carregou, e a pontuação era absolutamente brutal.

Sophie e Liam caíram na gargalhada. Ethan soltou um suspiro.

“Sai da frente, é a minha vez!” Liam me empurrou para o lado com impaciência, digitando animado as próprias informações do exame.

No instante em que apertou Enter, ele praticamente saltou da cadeira e gritou como um maníaco. “Meu Deus! Mãe! Eu passei! E com uma nota altíssima, super rara!!”

A sala inteira ficou em silêncio total por um segundo, e então explodiu em gritos ensurdecedores.

“Meu Deus! Eu sabia que você conseguia!” Margaret abraçou Liam com força, chorando de alegria. “Com uma nota dessas, você entra em qualquer escritório de advocacia de ponta sem problema!”

A família inteira se abraçava e comemorava como se Liam fosse algum prodígio surgido do nada. Só eu fiquei encolhida no canto, encarando friamente aquele perdedor que virava a noite jogando videogame e não conseguia nem explicar os termos jurídicos mais básicos.

Foi então que o celular no meu bolso começou a vibrar sem parar.

Identificador de chamadas — Clínica Particular de Testes Médicos da Califórnia.

Meu corpo inteiro ficou tenso. Eu me afastei discretamente do povo em festa, fui até a sacada vazia e atendi.

“Olá, Srta. Clara Smith, seus resultados já estão prontos.”

Meus dedos apertaram a borda do celular com tanta força que ficaram brancos. “Vocês encontraram alguma coisa na amostra? Remédios psiquiátricos? Algum tipo de toxina escondida?”

“Sinto muito, Srta. Smith. Com base na nossa análise de espectro completo, isto é apenas uma bebida comum. Além de cacau em pó de alta qualidade, leite integral e uma quantidade normal de açúcar, não há ingredientes anormais. Os níveis de segurança estão totalmente dentro do padrão.”

“Isso é impossível!”, eu sibilei, baixando a voz, mas perdendo o controle. “Vocês deixaram passar alguma coisa? Como pode não ter nada errado?!”

“Senhora, nós somos o melhor laboratório particular de toda a Califórnia, e respaldamos este laudo legalmente. É realmente só um chocolate quente comum.”

Clique. A ligação caiu.

Sem veneno? Totalmente normal?

Então isso tudo era só a minha porcaria de azar? O meu corpo estava simplesmente falhando comigo? Eu — uma formada em Harvard com notas máximas — estava destinada a quebrar a cara na Ordem?!

Virei-me, rígida. Margaret enxugava as lágrimas, animada, abraçando e beijando Liam como se ele fosse um tesouro inestimável.

Meus olhos grudaram no rosto presunçoso e debochado de Liam.

Um cara que fica acordado até as três da manhã jogando videogame toda noite, que nem sabe a diferença entre “ato ilícito” e “quebra de contrato” — um idiota sem esperança. Um imbecil que, só no mês passado, me perguntou se dava para simplesmente xingar durante as sustentações no tribunal… e ele passou no Exame da Ordem da Califórnia, o mais difícil do país, com a menor taxa de aprovação?! E com uma nota alta rara?!

Era uma piada escancarada que desafiava qualquer lógica!

E não era só ele. Minha cabeça saiu do controle, memórias piscando na minha mente como uma montagem de filme.

Dois anos atrás: Ethan, meu marido — que enchia a cara com os amigos perdedores em bar toda noite, reprovava em todas as matérias da faculdade de direito e só conseguiu o diploma porque a mãe dele subornou gente — de algum jeito passou na Ordem de primeira, justamente no ano em que eu desmaiei.

Ano passado: Sophie, minha prima que nem conseguiu entrar na faculdade de direito e só tinha um diploma de faculdade comunitária, também milagrosamente conseguiu aquela licença para advogar com que todo estudante de direito sonha — no mesmo ano em que eu estava rolando no chão de apendicite.

Três inúteis imprestáveis, todos disparando rumo ao sucesso.

Uma ideia insana explodiu na minha cabeça.

Foda-se acidente! Foda-se azar!

Escancarei a porta da varanda, peguei o cinzeiro da mesinha de centro e arrebentei com ele no chão!

A família inteira ficou em silêncio absoluto, como se alguém tivesse apertado o mudo. Todos se viraram ao mesmo tempo, me encarando, chocados.

Puxei o ar com força, o peito subindo e descendo, e usei cada gota de energia que eu tinha para dizer, palavra por palavra:

— Eu quero uma revisão da prova.

O sorriso de Margaret congelou na cara. Os olhos dela se arregalaram, incrédulos.

— Clara, você enlouqueceu? Do que você está falando?

Encarei-a com frieza e repeti:

— Eu disse: vou solicitar ao Comitê do Exame da Ordem da Califórnia uma revisão pública das provas.

Ethan foi o primeiro a reagir, como se tivesse ouvido a piada mais engraçada do mundo, soltando uma risadinha sem disfarçar.

— Clara, te tiraram da sala antes de dar uma hora e meia. Sua prova tá em branco, com exceção do seu nome. Você acha que ainda não passou vergonha o suficiente?

— Eu não vou revisar só a minha! — levantei a mão num golpe seco, o dedo como uma lâmina apontando direto para Liam, que tinha ficado paralisado ao lado. — Vou revisar a prova do Liam também!

A expressão presunçosa de Liam sumiu na hora, ficando pálida, e depois um rubor de raiva subiu pelo pescoço dele. Ele se levantou num pulo, como se eu tivesse ferrado um agulhão nele, e berrou:

— Clara, qual é a porra do seu problema?! Você acha que eu não consigo tirar essa nota? Você foi mal e agora tá descontando em mim?!

— Isso mesmo! Eu não acho que você conseguiria tirar essa nota! — eu o encarei, sem recuar nem um centímetro. — A sua nota... é a minha!

No instante em que eu disse isso, a família inteira se entreolhou e, em seguida, caiu numa gargalhada ainda mais alta, mais descontrolada.

Margaret suspirou fundo e veio até mim, tentando pôr o braço no meu ombro.

— Clara, eu sei que você está arrasada por ter reprovado. Você tem estado sob tanta pressão ultimamente que está começando a falar besteira...

— Não encosta em mim!

Dei um tapa forte, afastando a mão dela!

— Para de bancar a sonsa comigo! — virei, apontando direto para a cara de Ethan, a voz afiada, cortante. — Ethan, seja honesto consigo mesmo! Quantas vezes você sequer pisou na biblioteca durante a faculdade de Direito? Você foi pego pagando alguém para escrever seus trabalhos finais, e sua mãe teve que pagar gente para abafar o escândalo! Um fracassado como você... como diabos passou na Ordem da Califórnia?!

O rosto de Ethan escureceu e ele estava prestes a começar a gritar, mas eu imediatamente mudei o alvo, indo direto em Sophie, ali do lado.

— E você, Sophie! Você nem conseguiu passar no LSAT básico, foi parar numa faculdade comunitária de quinta, não sabe nem formatar direito documentos jurídicos simples... como diabos você conseguiu uma licença pra advogar?!

O rosto de Sophie ficou vermelho-vivo, e ela recuou dois passos, nervosa, os lábios tremendo, mas não conseguiu soltar uma única palavra para rebater.

Por fim, prendi o olhar em Liam, que estava duro como uma estátua, e o mantive cravado no lugar com a minha encarada.

— E você, Liam! Ontem você estava me perguntando qual é a diferença entre “homicídio culposo” e “assassinato”! Um parasita que não consegue nem decorar leis básicas, que passa o dia grudado em videogame... e você tirou uma nota entre as melhores na Ordem?! Você acha mesmo que eu sou cega a ponto de engolir essa merda?!

Respirei fundo, os olhos ardendo, vermelhos, enquanto eu varria cada pessoa ali com o olhar.

— Vocês três roubaram as minhas notas?!

— Clara! Cala a boca agora mesmo! — Margaret avançou em cima de mim, com o dedo quase enfiando na minha cara.

— Você acha que isso é algum filme de mistério de Hollywood?! Usa a cabeça uma vez na vida — quem teria poder de trocar notas no Exame da Ordem da Califórnia, a prova mais vigiada do país inteiro?!

Ela respirava com força, o peito subindo e descendo, e apontou para mim, rangendo os dentes enquanto gritava:

— Você realmente acha que é algum gênio imbatível de Harvard, não é? Pois bem! Se você está tão decidida a passar vergonha, eu vou ligar agora mesmo para a central oficial das notas, bem na sua frente!

Ela pegou o celular da mesa e apertou no viva-voz com força.

— Deixa o comitê do exame te dizer exatamente o quanto você está errada!

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