Capítulo 5

—Sra. Smith, após uma verificação minuciosa no nosso sistema, não há nenhum problema com as provas nem com as notas finais da senhora ou do Liam Wales. Se a senhora ainda discordar dos resultados, pode entrar com uma ação diretamente pelos meios legais.

A ligação terminou com frieza.

Um silêncio de morte tomou a sala de estar.

Margaret, que segundos antes estava furiosa, de repente me olhou com pena nos olhos.

Ela suspirou fundo, com a voz exausta e impotente. —Eu não queria fazer isso, Clara. Mas o seu estado mental está piorando cada vez mais. Você até começou a atacar a sua própria família.

Meu corpo enrijeceu. Encarei-a, sem acreditar. —Que porra você está falando?

Margaret se virou para a estante, puxou de uma gaveta um envelope de arquivo amarelado e o atirou sobre a mesa de centro. O envelope se abriu, revelando um timbre do centro de saúde mental mais respeitado da Califórnia.

—Veja com os seus próprios olhos. —Os olhos dela estavam vermelhos; a voz, embargada de emoção.

Era um diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Grave e Transtorno de Estresse Delirante. E o meu nome estava impresso ali.

—Suas notas sempre foram péssimas. Você nem conseguiu entrar numa faculdade comum. —Margaret enxugou os olhos com um lenço, num tom transbordando falsa preocupação. —Desde que você conheceu o Ethan e viu ele ir para a faculdade de Direito, o seu complexo de inferioridade te deixou completamente maluca. Você começou a ter alucinações sérias. Passou a acreditar que era a melhor aluna, que se formou com notas máximas na Harvard Law.

Um zumbido alto explodiu dentro do meu crânio, como se alguém tivesse martelado bem no meio da minha testa.

—Você está mentindo! Você está falando merda! —eu gritei, apontando para Ethan e Sophie. —Minha carta de aceitação! Meu diploma! Aquilo era de verdade! Eles que são uns encostados, eles roubaram minhas notas!

—Chega, Clara! Você ainda não se envergonhou o suficiente?!

Ethan veio com tudo e agarrou meus ombros. —Aquele seu suposto diploma de Harvard? A mãe pagou algum cara na internet, tipo cinquenta dólares, pra fazer uma falsificação! Você tem noção do quanto você fica assustadora quando tem um surto? Você tenta pular pela janela, tenta cortar os pulsos! Pra te manter estável, pra conseguir tratamento pra você, a gente vive pisando em ovos, te acompanhando nessa sua deliriezinha!

—Não... isso não pode estar certo... —eu apertei a cabeça latejante, com o mundo inteiro girando ao meu redor. —Eu sou estudante de Direito... eu decorei milhares de casos... eu tenho todo esse conhecimento na cabeça!

—Ah, é? Claro que tem. —Liam zombou, puxando um livro básico de exercícios para o exame da ordem debaixo da mesa de centro e enfiando-o com força no meu peito. —Então tá, gênio. Traduza pra mim agora essa cláusula básica de direito imobiliário.

Agarrei aquela página como se fosse a minha última tábua de salvação, encarando as palavras com força.

Mas... que porra era aquela? Por que eu não conseguia entender nada?

Espera... será que eu estava mesmo doente?

Ao me ver desabar de vez e desmoronar no sofá, Margaret deu um passo à frente e afagou minha cabeça como se eu fosse um cachorro de rua coitado.

— Tá tudo bem, Clara. É bom que você esteja caindo na real. — Ela enxugou o suor frio do meu rosto. — Agora que você sabe a verdade, vamos parar com essa história de exame da Ordem, tá? Eu dei um jeito e consegui pra você um emprego de garçonete no café da esquina. A partir de agora, trabalha direitinho, num emprego fixo. Esquece o exame da Ordem. E não encosta mais nessa merda nunca mais.

Eu fiquei ali, como uma marionete com os fios todos cortados, e assenti, entorpecida.

Eu desisti. Joguei a toalha de vez.

Daquele dia em diante, trabalhei dia após dia no café.

Até que, numa manhã, duas semanas depois.

Sarah, minha colega do turno da manhã, entrou porta adentro, afobada, e me lançou um sorriso sem graça.

— Desculpa, Clara, eu perdi a hora hoje! Você ainda não tomou café da manhã, né?

Ela tirou um pote de vidro lacrado de dentro da bolsa térmica, cheio de um líquido espesso, marrom-escuro.

— Prova isso! É chocolate quente puro, da fazenda do meu tio! Cem por cento natural, sem aditivo artificial nem nada.

Eu me encolhi para trás por instinto. Desde que eu tinha desistido do exame da Ordem, não tinha encostado numa única gota de chocolate quente. Aquilo já era, basicamente, meu trauma pessoal.

Mas Sarah estava tão animada que, a contragosto, peguei o pote e dei um gole minúsculo, cauteloso.

Encorpado, levemente amargo, com aquele aroma profundo de cacau natural se espalhando pela língua.

Eu congelei. Cada gota de sangue no meu corpo virou gelo.

— Sarah... — Minha voz tremia tanto que eu mal conseguia falar. — Você tem certeza... de que isso é o chocolate quente mais puro que existe, direto da fazenda?

— Tenho! Não é bom? O gosto é super limpo, né?

Não. Estava errado.

O chocolate quente da “receita secreta” que Margaret me fazia beber por três anos sempre vinha com um gosto estranho, enjoativamente doce, quase amargo no final — como se tivesse remédio dentro. Ela sempre dizia que era assim mesmo que cacau orgânico de primeira linha tinha que ter gosto.

Mas descobri que chocolate quente de verdade, puro, não tinha aquele sabor esquisito de açúcar com química.

Todas as lembranças me atropelaram de uma vez — os desmaios aleatórios na sala de prova, a dor de estômago que surgia de repente e me dobrava, a bebida na hora de dormir que era sempre só pra mim...

E por que diabos eu não conseguia mais entender nem perguntas básicas do exame da Ordem? Porque anos sendo dopada já tinham torrado meus nervos e destruído minha memória.

Meu corpo inteiro tremia descontrolado. As lágrimas desceram, inundando meu rosto.

Eu finalmente soube o que o chocolate quente antes de dormir da Margaret escondia.

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