Capítulo 1 O Pedido
Karadenizköy | Turquia
O cheiro de peixe grelhado misturado com limão fresco, alho e especiarias quentes era a primeira coisa que preenchia os pulmões de Elif Yılmaz todas as manhãs, e também a última que a acompanhava quando as luzes de Karadeniz Sofrası se apagavam. Naquela tarde de outono, o aroma estava ainda mais espesso, impregnado nas paredes de madeira escura, nas redes antigas penduradas como decorações e nas toalhas xadrez que já tinham visto melhores dias. O Mar Negro batia com força do lado de fora, jogando vento salgado pela porta sempre entreaberta, e Elif limpou a mesma mesa pela terceira vez sem necessidade real. Precisava manter as mãos ocupadas. Precisava não pensar demais.
Karadeniz Sofrası não era apenas um restaurante. Era a herança pesada e teimosa da família Yılmaz. O avô de Elif, um pescador de mãos rachadas e voz grossa, tinha aberto o lugar há quase cinquenta anos, com quatro mesas improvisadas e um fogão a lenha. Naquela época se chamava apenas “A Rede”, e servia o que o mar dava: peixe fresco, pão caseiro e raki barato para os homens que voltavam do trabalho com sal nos cabelos. Com o tempo, o pai de Elif, Hasan, transformou o casebre em algo um pouco mais respeitável. Colocou nome novo, comprou mesas de verdade, pendurou fotografias antigas de barcos e redes nas paredes e insistiu em manter o cardápio simples. “O mar já faz o trabalho difícil”, costumava dizer. “A gente só precisa não estragar.”
Mas os tempos mudaram. Os grandes restaurantes da cidade vizinha roubavam os turistas, os fornecedores apertavam os prazos e as dívidas se acumulavam como areia molhada. Elif cresceu no meio daquilo. Aprendeu a limpar peixe aos dez anos, a negociar com pescadores aos doze e a sorrir para clientes difíceis aos quinze. Depois que a mãe morreu — uma febre rápida que levou apenas três dias para apagar a mulher mais alegre que ela conhecera —, o restaurante virou ao mesmo tempo seu lar, sua prisão e sua responsabilidade. Hasan nunca mais foi o mesmo. Beberam-se as economias, fumaram-se os nervos, e Elif assumiu o que podia sem reclamar. Tinha vinte e dois anos, a pele morena do sol da costa, o cabelo castanho-escuro sempre preso em um rabo de cavalo prático e olhos que já tinham visto demais para a idade.
— Elif! Mesa três quer mais azeite e o pão está acabando — gritou o pai da cozinha, a voz rouca pelo cigarro que insistia em fumar atrás da porta dos fundos.
Ela apenas assentiu e foi atender. O salão tinha oito mesas. Naquela hora, sete estavam ocupadas. Pescadores de mãos calejadas, dois casais de turistas que tentavam decifrar o cardápio manuscrito e, no canto, três homens de terno que falavam baixo demais. Elif já aprendera a não fazer perguntas sobre certos clientes.
Enquanto repunha o pão, a memória veio sem convite, como sempre vinha quando o cheiro de chuva se misturava ao de peixe.
Fora há exatamente um mês. Uma daquelas noites em que o Mar Negro parecia querer engolir Karadenizköy inteira. A chuva caía em lâminas frias e o vento uivava entre os barcos. Elif fechava Karadeniz Sofrası sozinha quando ouviu o gemido atrás do prédio. Pensou em ignorar. Pensou em chamar o pai. Em vez disso, pegou a lanterna rachada e foi ver.
Ele estava caído de bruços na lama, a camisa preta encharcada de sangue e água. Por um segundo ela achou que estava morto. Depois viu o peito subir, fraco. Ajoelhou-se ali mesmo, sem se importar com a roupa, e virou o homem com esforço. O rosto estava sujo de sangue e terra, mas a mandíbula era forte, e os olhos — quando se abriram por um instante — eram de um castanho tão escuro que pareciam pretos. Os dedos dele se fecharam no pulso dela com uma força que não combinava com o estado em que se encontrava.
— Quieto — ela sussurrou, mais para si mesma. — Você vai se matar se continuar se mexendo.
Usou o avental para estancar o ferimento no lado esquerdo do peito. O sangue era quente demais contra o frio da chuva. O cheiro metálico se misturou ao de terra molhada e sal. Ela não perguntou nome. Não perguntou o que ele tinha feito. Apenas trabalhou em silêncio. Quando os faróis de um carro se aproximaram no final da estrada de terra, ela se levantou depressa.
— Alguém vem aí. Eu… eu preciso ir.
Os olhos dele se abriram de novo, focando nela com uma intensidade assustadora.
— Não… some — a voz saiu rouca, quebrada.
Mas ela já estava correndo de volta para dentro de Karadeniz Sofrası, o coração batendo tão forte que doía. Nunca contou a ninguém. No dia seguinte, quando passou pelo mesmo lugar, só restava a marca escura na terra.
Elif piscou, voltando ao presente. O pão estava em fatias irregulares. Ela praguejou baixo e recomeçou.
— Você está distraída hoje — comentou Leyla, a única funcionária além dela e do pai, enquanto passava com uma bandeja de chá. — Pensando em algum rapaz?
Elif soltou uma risada sem humor.
— O único homem na minha vida é esse restaurante. E ele já é trabalho suficiente.
— Um dia você vai ter que viver alguma coisa além de contas atrasadas e peixe queimado, menina. Seu avô não construiu isso para você se enterrar aqui.
— Meu avô construiu isso para a família não passar fome — respondeu Elif, mais ríspida do que pretendia. — E eu pretendo manter dessa forma.
Antes que Leyla pudesse responder, a sineta da porta soou.
O homem que entrou parecia ter trazido o frio da noite junto com ele. Alto, de ombros largos, vestindo um terno preto impecável que contrastava de forma quase ofensiva com as redes antigas e as mesas riscadas de Karadeniz Sofrası. O cabelo escuro estava penteado para trás, a barba por fazer apenas o suficiente para dar um ar perigoso ao rosto anguloso. Ele parou por um instante na entrada, os olhos varrendo o ambiente com calma calculada, até encontrarem os dela.
Elif sentiu uma fisgada estranha no estômago. Havia algo familiar naquilo.
Ele caminhou até o balcão sem pressa e sentou-se no banquinho da ponta, exatamente onde a luz amarelada batia de lado no rosto.
— Boa tarde — disse Elif, automaticamente, pegando o bloco de pedidos. A voz saiu firme. — O que vai querer?
Ele não respondeu de imediato. Apenas a observou, como se estivesse medindo cada detalhe.
— O peixe do dia — falou por fim, a voz grave e baixa demais para o volume do restaurante. — E um chá preto. Sem açúcar.
Elif anotou.
— Só isso?
— Por enquanto.
Ela assentiu e se virou, mas a voz dele a prendeu no lugar.
— Você não vai perguntar meu nome?
Elif olhou por cima do ombro, uma sobrancelha arqueada.
— Só pergunto o nome se o cliente quiser colocar na conta. A maioria prefere pagar em dinheiro e sumir.
Um canto da boca dele se ergueu, quase um sorriso, mas sem humor.
— Kaan — disse simplesmente. — Kaan Demir.
O nome não significava nada para ela. Ou talvez significasse, em algum canto escuro da memória. Elif apenas anotou e foi até a cozinha.
Quando voltou com o chá, ele ainda a observava.
— Você trabalha aqui há quanto tempo?
— Desde que me entendo por gente. Meu pai é o dono. Meu avô abriu o lugar.
— Hasan Yılmaz — completou ele, como se confirmasse uma informação já sabida.
Elif endureceu.
— Você conhece meu pai?
— De alguma forma.
O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Elif preferiu se ocupar limpando o balcão, mas sentia o olhar dele queimando na nuca.
— Você é diferente do que eu imaginava — murmurou Kaan.
Ela parou.
— Com licença?
Ele ergueu os olhos para ela. A cor era exatamente a mesma dos olhos do homem da chuva. O coração de Elif deu um tropeço dolorido.
— Nada — disse ele. — Só estou pensando alto.
Elif forçou um sorriso profissional.
— Seu peixe vai demorar uns quinze minutos. Se precisar de mais alguma coisa…
— Preciso.
A forma como ele falou fez com que ela parasse de novo.
— Sim?
Kaan inclinou-se ligeiramente para a frente, os cotovelos apoiados no balcão, a voz caindo para um tom ainda mais baixo, íntimo e perigoso. Antes que ela pudesse recuar, os dedos longos e quentes se fecharam em torno do seu pulso, exatamente como naquela noite chuvosa. A pressão não era dolorosa, mas era absoluta.
Os olhos dele se prenderam nos dela.
— Não esquece de anotar o dia e a hora do nosso casamento.
O bloco escorregou dos dedos de Elif e bateu no balcão com um som seco.
Por um segundo, Karadeniz Sofrası inteiro pareceu desaparecer. Só existia o cheiro de peixe e limão, o calor da mão dele no seu pulso e aquelas palavras impossíveis ecoando dentro da cabeça dela.
Ela abriu a boca, mas nenhum som saiu.
Kaan não sorriu. Apenas a observou com aquela calma aterrorizante de quem já tinha decidido o fin
al da história havia muito tempo.
— Eu espero — disse ele, soltando o pulso dela devagar. — Mas não por muito tempo, Elif.
