Capítulo 2 A Confissão

O bloco de pedidos ainda girava no balcão quando Elif reagiu. Não pensou. Não calculou. O corpo simplesmente se moveu antes que a mente conseguisse processar a insanidade daquelas palavras. A mão direita fechou-se em torno da caneta com tanta força que os nós dos dedos branquearam, e ela se lançou para a frente sobre o balcão, o braço estendido na direção do rosto de Kaan Demir. A ponta da caneta rasgou o ar, mirando o olho dele com uma precisão nascida de puro instinto. Por um segundo, o cheiro de peixe grelhado, limão e especiarias de Karadeniz Sofrası pareceu desaparecer, substituído pelo gosto metálico de adrenalina na boca.

Kaan não se moveu. Apenas inclinou a cabeça alguns centímetros para o lado, o suficiente para que a caneta cortasse o vazio ao lado da orelha dele. Os olhos castanho-escuros permaneceram fixos nos dela, calmos, quase interessados, como se estivesse avaliando a velocidade do ataque e não a intenção assassina por trás dele. A mão livre de Elif já buscava qualquer coisa no balcão — um garfo, uma faca de peixe, o cinzeiro de vidro —, quando dedos fortes e ásperos fecharam-se em torno do seu pulso no ar, imobilizando o segundo golpe antes mesmo que ela o completasse.

— Solta — rosnou ela, a voz saindo baixa e rouca, vibrando de ódio. — Solta agora.

— Não — respondeu Kaan, simples, sem elevar o tom. A pressão dos dedos dele aumentou apenas o necessário para impedir que ela se contorcesse. — Você vai se machucar.

— Eu vou te matar — cuspiu Elif, tentando puxar o braço com toda a força do corpo. O banquinho dele rangiu, mas não se moveu. — Seu filho da puta doente. Solta!

O restaurante inteiro tinha parado. O tilintar de talheres cessou. As conversas morreram. Até o som constante do Mar Negro parecia ter sido abafado pela tensão que agora preenchia Karadeniz Sofrası como fumaça. Leyla estava parada no meio do salão com a bandeja inclinada, o chá quase derramando. Os pescadores na mesa do fundo se ergueram pela metade, indecisos. E então a porta da cozinha bateu com violência.

— Elif! — A voz de Hasan Yılmaz cortou o ar, grossa e assustada. Ele surgiu limpando as mãos no avental sujo de gordura e farinha, o rosto já pálido antes mesmo de entender a cena. — O que diabos está acontecendo aqui?

Elif não tirou os olhos de Kaan. Ainda com o pulso preso, usou o corpo inteiro para tentar se lançar outra vez sobre o balcão.

— Esse homem… esse filho da puta acabou de dizer que vamos nos casar. Que eu tenho que anotar o dia e a hora. Pai, chama a polícia. Chama alguém!

Hasan parou como se tivesse levado um soco no estômago. O olhar dele foi direto para Kaan, e o que Elif viu no rosto do pai não foi confusão. Foi reconhecimento. Foi medo. Foi a expressão de um homem que já sabia exatamente quem estava sentado naquele banquinho e por quê.

— Hasan — disse Kaan, pela primeira vez desviando os olhos de Elif para o homem mais velho. A voz continuava baixa, quase educada. — Acho que está na hora de você explicar para a sua filha.

— Explicar o quê? — Elif puxou o braço outra vez, inútil. A pele do pulso já doía sob os dedos de Kaan. — Pai, o que ele está falando?

Hasan abriu a boca e fechou. Passou a mão pelo cabelo ralo e suado. Olhou ao redor, para os clientes que agora observavam tudo sem sequer disfarçar, e depois de volta para a filha. Quando finalmente falou, a voz saiu rouca e derrotada.

— Elif… senta.

— Eu não vou sentar! — gritou ela. — Solta meu braço, seu desgraçado!

Kaan obedeceu. Abriu os dedos devagar, como se estivesse soltando algo frágil, e apoiou a mão de volta no balcão. Elif recuou dois passos, o peito subindo e descendo rápido demais, a caneta ainda apertada na outra mão como uma arma inútil. O coração batia tão forte que ela sentia as pulsações no fundo da garganta. O cheiro de peixe e limão voltara, agora misturado com o perfume amadeirado e caro que vinha de Kaan — um contraste quase obsceno com o ambiente simples de Karadeniz Sofrası.

— Fala — exigiu ela, virando-se para o pai. Os olhos ardiam. — Fala agora.

Hasan engoliu em seco. Olhou para Kaan como se pedisse permissão. O homem de terno apenas fez um gesto pequeno com a cabeça, impaciente.

— Eu… eu devo dinheiro — começou Hasan, a voz falhando. — Não é só dinheiro. É uma dívida antiga. De quando as coisas apertaram depois que sua mãe morreu. Eu… eu precisei. Precisei manter o restaurante aberto. Precisei pagar os fornecedores, os impostos, a reforma do telhado que estava caindo. Eu peguei emprestado.

Elif sentiu o chão se inclinar sob os pés.

— Emprestado de quem?

Hasan não respondeu de imediato. Os olhos dele estavam vermelhos, brilhantes demais.

— Dele — murmurou, apontando com o queixo para Kaan sem conseguir olhar a filha no rosto. — De Kaan Demir. E dos homens dele.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que Elif ouviu o próprio sangue latejar nos ouvidos. As peças começaram a se encaixar de forma cruel e absurda. Os homens de terno que vinham de vez em quando. As conversas baixas do pai no escritório no fundo. As noites em que Hasan bebia sozinho e dizia que “ia dar um jeito”. A forma como o restaurante, apesar de tudo, nunca fechara de vez.

— Quanto? — perguntou ela, a voz saindo estranhamente calma.

Hasan balançou a cabeça.

— Não importa o valor agora, filha. O valor… o valor virou outra coisa.

— Quanto, pai?

— Duzentos mil — respondeu Kaan no lugar dele, a voz cortando o ar como uma lâmina fria. — Mais juros. Mais o favor que seu pai me deve por eu não ter cobrado a dívida da forma tradicional.

Elif virou o rosto lentamente na direção dele.

— E qual é a forma tradicional?

Kaan manteve o olhar firme no dela.

— Eu mato o devedor. Às vezes na frente da família. Às vezes depois. Depende do meu humor.

Um gemido baixo escapou de Hasan. Elif sentiu o estômago revirar.

— Você está louco — sussurrou ela. — Vocês dois estão loucos. Isso não é real. Dívidas não se pagam com pessoas.

— Pagaram — disse Kaan, simplesmente. — Seu pai ofereceu. Eu aceitei.

Elif sentiu o mundo parar. O barulho do mar, as vozes abafadas dos clientes, o tilintar distante de uma panela na cozinha… tudo ficou longe e abafado. Ela olhou para o pai, buscando qualquer sinal de que aquilo era uma mentira cruel, uma ameaça vazia. O que encontrou foi pior. Hasan Yılmaz, o homem que a ensinara a limpar peixe e a contar o troco, estava com os ombros curvados e os olhos no chão, como alguém que já tinha assinado a sentença há muito tempo.

— Pai… — a voz dela quebrou pela primeira vez. — Me diz que ele está mentindo.

Hasan fechou os olhos.

— Eu não tinha escolha, Elif. Eles iam me matar. Iam queimar o restaurante. Iam…

— Então você me vendeu — completou ela, e a frase saiu como um estalo. — Você me vendeu como se eu fosse um móvel. Como se eu fosse o peixe estragado que a gente joga fora no final do dia.

— Não foi assim!

— Foi exatamente assim! — gritou Elif, dando um passo à frente. As lágrimas queimavam, mas ela se recusou a deixá-las cair. — Você olhou para mim e pensou “ela resolve”. Você me usou como moeda de troca!

Hasan ergueu as mãos, num gesto de súplica.

— Filha, escuta… ele prometeu que ia cuidar de você. Que você não ia passar necessidade. Que…

— Cuidar? — Elif deu uma risada curta e histérica. — Cuidar? Ele acabou de dizer que a forma tradicional é matar o devedor! E você acha que eu vou acreditar que ele vai me tratar como esposa?

Kaan permaneceu em silêncio durante toda a troca, os cotovelos apoiados no balcão, os dedos entrelaçados, observando a cena como se fosse um espetáculo particular. Quando Elif se virou para ele novamente, os olhos inchados de ódio contido, ele falou com a mesma calma de antes.

— Seu pai está certo em uma coisa. Eu não pretendo te matar. Pretendo me casar com você. Hoje. Ou amanhã no máximo. Depois disso, você vem comigo.

— Eu não vou a lugar nenhum com você — cuspiu Elif. — Prefiro morrer.

Kaan inclinou a cabeça, estudando-a.

— Isso também pode ser arranjado. Mas seria um desperdício.

A frase foi a última gota. Elif se lançou outra vez, desta vez contornando o balcão com velocidade bruta. A intenção era clara: arranhar, morder, tirar sangue, fazer qualquer coisa que apagasse aquele olhar de posse do rosto dele. Ela quase alcançou. Os dedos já estavam a centímetros do colarinho do terno preto quando braços fortes a seguraram por trás.

Dois homens. Grandes, de terno escuro igual ao de Kaan, rostos impassíveis. Um prendeu seus braços com facilidade dolorosa, cruzando-os atrás das costas. O outro segurou seus ombros, impedindo que ela chutasse. Elif gritou. Um som rouco, animal, que rasgou a garganta e fez vários clientes se levantarem de uma vez. Ela se contorceu com toda a força, o cabelo castanho se soltando do rabo de cavalo, o avental se torcendo no corpo.

— Solta! Solta agora, seus filhos da puta! Pai! Pai, faz alguma coisa!

Hasan deu um passo à frente, o rosto desfeito, mas parou no meio do caminho quando um dos homens o olhou de relance. Não precisou de palavras. A mensagem era clara.

Kaan se levantou devagar do banquinho. Ajustou o terno, como se o ataque e o grito não tivessem sido nada além de um pequeno inconveniente. Caminhou até ficar na frente de Elif, tão perto que ela sentiu o calor do corpo dele e o cheiro caro do perfume misturado com algo mais metálico, mais perigoso. Ele ergueu uma das mãos e segurou o queixo dela com os dedos, forçando-a a olhar para cima apesar dos braços presos.

— Grita o quanto quiser — murmurou ele, a voz baixa o suficiente para que só ela ouvisse. — Ninguém aqui vai te ajudar. E amanhã, quando você assinar o papel, ninguém vai poder te ajudar nunca mais.

Elif cuspiu no rosto dele.

A saliva escorreu pela bochecha de Kaan, brilhando sob a luz amarelada de Karadeniz Sofrası. Por um instante, algo escuro e satisfeito passou pelos olhos dele. Ele não limpou. Apenas passou o polegar pelos lábios dela, com uma lentidão deliberada e obscena, antes de se virar para os homens.

— Levem ela.

Elif gritou de novo quando a puxaram em direção à porta. Os pés arrastaram no chão de madeira gasta. O cheiro de peixe, limão e especiarias tentou acompanhá-la pela última vez, misturado agora com o vento salgado do Mar Negro que entrava pela entrada. Ela se contorceu, chutou, xingou, a voz já rouca, os olhos buscando o pai pela última vez.

Hasan Yılmaz estava parado no meio do salão, as mãos caídas ao lado do corpo, as lágrimas escorrendo sem que ele fizesse qualquer movimento para impedi-las. Não disse uma palavra. Não deu um passo.

A última coisa que Elif viu antes de a empurrarem para fora de Karadeniz Sofrası foi o olhar de Kaan Demir sobre ela. Calmo. Absoluto. Como se já a tivesse possuído muito antes daquele dia.

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