Capítulo 2 ROSE ABERTTON

POV OLÍVIA 

Desci as escadas correndo atrás de Isa, que decidiu me torturar com cócegas quando encontrei um “Isa e Marcelo” no seu caderno, escrito com a sua letra. Ela gargalhava e fugia de forma ágil, como sempre. Eu tentava desviar dos tapetes e pulava por cima dos degraus. E assim chegamos na sala de jantar. 

Rose nos olhou com cara de insatisfação. Dei um beijo no meu pai e sentei-me à mesa, de frente para Isabelle. 

- Como foi seu dia, pai? – perguntei enquanto via a comida ser posta no meu prato: peixe com leguminosas. 

Olhei para o macarrão com camarão que seria o prato principal dos demais e cheguei a sentir água na boca.  

- Se comportar-se eu lhe dou um camarão depois. – Isabelle provocou, pegando um com a mão e me mostrando, rindo. 

Fiz careta para ela e lambi os beiços ao ver o camarão: 

- Isto é injusto, sua pestinha. Eu com este peixe sem tempero e você com um camarão gigante. 

- Injusto? – Rose riu, daquele jeito cruel – Deve dar-se por satisfeita de ter um prato diferente para você. E por mim, se quer comer a macarronada, fique à vontade. O problema é seu e não meu. 

Abaixei a cabeça e meu pai pôs a mão sobre a minha: 

- Sabe que sua dieta é feita de acordo com o que a nutricionista propõe, Coração. 

- Nutricionista esta que está bem cara, por sinal! – Rose deixou claro, enquanto enrolava o macarrão no seu garfo, me fazendo ficar com água na boca. 

Ela estava reclamando do custo da minha comida? 

- Querida, por favor, não fale assim. Olívia pode pensar que estamos em contenção de despesas! – Meu pai sorriu, querendo me acalmar, falando qualquer coisa que quebrasse o gelo entre minha madrasta e eu. 

- Ah, sim... E não estamos – Rose piscou na direção dele enquanto levantava a taça com água e piscava – Somos uma família rica que pode manter qualquer coisa! – Soltou a ponta do que foi uma risada que tentou conter. 

- Tenho boas notícias! – papai falou num tom mais alto, a respiração acelerando de forma que eu consegui ouvir ao seu lado – Fomos convidados para um jantar em família. 

Rose bufou, revirando os olhos, fazendo pouco caso. 

- Com quem? Terá garotos da minha idade neste jantar? – Isabelle interessou-se. 

Papai riu: 

- Você não pode pensar em garotos ainda, docinho de coco. 

- Eu já tenho 13 anos. – Ela contestou. 

- Você “só tem” 13 anos. – Papai riu divertidamente – Não quer saber com quem será o jantar? – ele olhou para Rose, que parecia pouco se importar.  

- Tanto faz... – Ela sequer se deu ao trabalho de olhá-lo. 

- É um jantar de negócios, mas ele fez questão que eu levasse a família. 

Uhum... – Rose fez questão de deixar claro que estava “se fodendo” para o que papai tinha dizer. 

- Quem sabe eu devo dizer ao CEO da Clifford que minha esposa não faz questão de participar do jantar no melhor restaurante do país. 

Rose encarou meu pai: 

- Que tipo de brincadeira sem graça é esta, Ernest Abertton? 

Papai sorriu, com ar de vitória: 

- Sim, a secretária da Clifford me ligou e disse que o CEO deseja falar comigo num jantar de negócios, em família! 

- Devem ter se enganado de número. 

- Ela falou meu nome: Ernest Abertton. – Ele sorriu vitorioso e piscou. Rose levantou-se: 

- Não! 

- Sim! – ele gargalhou, brincando com os lábios num sorriso divertido. 

- Iremos jantar com o dono da maior indústria farmacêutica do mundo? – Rose pôs as mãos no peito, fazendo uma cena teatral digna do Oscar, só para deixar claro o quanto aquilo a emocionou – Será que ele quer fazer uma parceria com a nossa concessionária de rodovias? – estreitou os olhos, confusa – O que nossa empresa teria a ver com a dele?  

- Talvez ele queira voltar a fabricar minhas insulinas! – Suspirei, esperançosa. 

- Acha que aquele homem sabe que existe insulina, Olívia? – Rose me olhou – Ele está literalmente pouco se importando com o mundo ao seu redor. Gabe Clifford tem dinheiro e poder suficiente para tirar a insulina do mundo. 

- E eu morreria.  

Todos me olharam e foquei em Rose, sabendo que certamente no seu íntimo desejava que a insulina do mundo explodisse.  

- Coração, por favor, não me faça chorar! – Papai fez beiço, pegando minha mão. 

- Quando ficar adulta vou inventar uma insulina diferente – Isabelle tentou me confortar – E nem vai haver picada. Aliás, vou criar a cura da diabetes. – Piscou, segura de si. 

Nós três rimos. Rose seriamente perguntou: 

- Como será isto, Ernest? Temos que chamar Rita. 

- Mas ela está nos Estados Unidos. – Papai estreitou os olhos, certamente pensando no quanto Rose era louca e sem noção. 

- É um jantar em família. E certamente Gabe só o fez porque tem interesse em nossa Rita. – sorriu satisfeita – Sempre tive certeza que minha garota seria alguém importante. A criei para isto! Rita Abertton Clifford... O nome soa perfeito, querido! 

- Rose, Rita está muito longe daqui. 

- Pode mandar dinheiro para ela alugar um jato particular – sugeri – Rita chegaria bem rápido em Noriah Norte e não teria a mínima possibilidade de não chegar a tempo para o jantar de negócios... Em família – “em família”; aquilo era bem estranho. O que levava o dono da maior indústria farmacêutica do mundo a marcar um jantar de negócios com o meu pai, dono de uma concessionária de estradas, chamando toda a família?  

- Ah, sim... Um jatinho... Alguns milhões de norians! – Papai sorriu, dando um tapinha na minha mão. 

- Eu nunca andei num jatinho. – Isabelle reclamou, chorosa.  

- Seja como a sua irmã no futuro e andará num jatinho, querida. – Rose sorriu para ela e em cerca de um segundo depois ficou séria – Nada foi em vão, Ernest – olhou para meu pai – O curso de modelo, os custos com a estadia dela nos Estados Unidos, roupas, comida... Rita será a esposa de Gabe Clifford! 

- Querida, não se empolgue tanto, por favor! É só um jantar e não temos a mínima ideia do que Clifford deseja. 

Devo comprar um vestido novo? – Perguntei, incerta se teria que sair cedo na manhã seguinte para encontrar algo incrível já que era a oportunidade de ver o meu ídolo de perto, Jorel Clifford. 

- “Querida”... – Rose me olhou – O senhor Clifford disse jantar em “família”. Você... Não é da nossa família. 

Ok, Rose me dizia algumas coisas ruins. Mas aquilo me doeu demais. Sempre fiz questão de entender o lado dela, afinal, eu era a filha de uma mulher que meu pai teve como amante enquanto estavam casados e agora ela ainda era obrigada a me suportar em sua casa. Mas dizer que eu não era da família?  

- Mas Olívia é da família! É minha irmã e filha de papai. Isto é família. – Isabelle deu de ombros, pondo um camarão inteiro na boca. 

Papai me olhou e depois encarou Rose: 

- Ela é minha filha.  

- Querido, Clifford é um homem tradicional e todos sabemos disto. O que ele dirá quando você aparecer com uma filha que praticamente ninguém sabe que existe? Terá coragem de dizer que Olívia é bastarda, filha de uma vagabunda que você comeu numa noite de bebedeira? Duvido que aquele homem seja conivente com isto. Perderá seja lá o tipo de negócio que o CEO deseja esteja disposto a lhe oferecer. Sem contar que... Ele pode achar que terá direito de agir com nossa Rita como você fez comigo no passado comigo. Ira supor que somos uma família desestruturada e problemática. Não faz sentido Olívia participar disto. Seria difícil explicar a presença dela no jantar sem ser um constrangimento para todos nós, inclusive para ele. 

Engoli em seco, de certa forma entendendo Rose.  

- Tudo bem! – sorri, fingindo que não me abalei com as palavras dela – Fico em casa. Quem sabe acenda a lareira e mexa com os borralhos... E espere a fada madrinha – brinquei – E papai, por favor, não morra! 

- Corre o risco de mamãe trancar Olívia no sótão. – Isabelle gargalhou. 

- Não temos sótão. – Rose contestou, de forma séria. 

- Talvez me faça ter como única companhia os ratinhos – suspirei – Não se preocupe, Rose, sei que você não seria uma “má”drasta comigo. – Sorri, tentando não parecer irônica. 

Rose respirou fundo e gritou para a empregada: 

- Pode tirar meu prato! Perdi a fome. Sem contar que não posso comer mais nada nas próximas 24 horas. Tenho que ficar magra e esquelética para entrar num vestido da Prada que comprei há um tempo atrás e não usei. Ou acha que devo comprar um novo, querido? 

- Sem compras, Rose. Já vai ser difícil o jatinho. – Papai disse de uma forma tão séria que até me preocupei.  

- Tudo certo então... Uso o vestido que ainda está com etiqueta. Rita vem num jatinho, Olívia fica em casa, Isabelle compra um vestido novo e o jantar está pronto! – Gritou em torno de si mesma, só faltando a gargalhada estridente de madrasta-bruxa para um típico conto de fadas. 

- Papai, acho que alguém esqueceu de fazer o pagamento da minha faculdade – avisei, enquanto finalmente provava o peixe que foi feito para o jantar – Recebi um aviso para que fossem quitadas as parcelas em atraso. 

- Ah... – papai sorriu sem jeito. 

- Estamos... Com problemas financeiros? – Perguntei. 

- Claro que não. – Ele disse rapidamente. 

- Acho que você deveria cancelar esta faculdade de Medicina, Olívia – Rose sugeriu – Por que não trabalha na empresa do seu pai? 

- Trabalhar? – fiquei incrédula – Eu só tenho 19 anos! 

- Medicina é um curso que requer esforço, dedicação e inteligência, Olívia – ela continuou – Não querendo ser chata, mas sabe que sou sincera e não acho que você tenha capacidade para tanto. Conheço filhas e filhos de amigas que são bem mais inteligentes do que você e não aguentaram ir até o fim. Por que não escolhe algo que exija menos? E que seja mais barato? Lembrando que depois que se formar, nem sequer poderá usar o sobrenome Abertton, já que não é uma legítima Abertton. Ou seja, terá um diploma mas não terá um nome. Quem consultaria com uma médica assim? 

- Eu sou Olívia Abertton. Então eu tenho um sobrenome! – Contestei. 

- Ah, mas quase ninguém sabe que vem de Ernest Abertton! E você não vai querer manchar a reputação do seu pai e toda a sua família publicamente, não é mesmo? 

- Mas ela não é da família! – Isabelle sorriu – Então... – levantou os ombros – Por que deveria se preocupar com uma? 

- Por que você é tão chata? – Rose olhou para a caçula.  

- Por que você é tão má? – Isabelle enfrentou-a. 

- Sem brigas por minha causa, por favor – intermediei – Se tem problemas para pagar a faculdade eu posso tentar uma bolsa. 

- Com que nome? 

- Olívia – a olhei seriamente – Eu tenho um cérebro, se é que me entende. E talvez não precise usar o “seu” sobrenome, que no caso vem do “meu” pai.  

- Ah! – papai massageou as têmporas – Por favor, parem! 

Levantei-me imediatamente e o abracei por trás, com ele ainda sentado na cadeira: 

- Desculpe, papai. – Dei-lhe um beijo. 

- Está tudo bem... – ele olhou para Rose – É só um jantar! Não me deixe louco, por favor. 

Já tenho problemas o bastante. – Levantou e saiu da sala de jantar. 

Esperei que ele saísse e olhei para Rose. 

- Tudo culpa sua, como sempre! – Ela apontou o dedo na minha direção, enfurecida, e saiu bufando. 

- Culpa sua, por existir. – Isabelle me olhou de forma séria – Eu ainda tenho que aturála, porque é minha mãe. Mas você não! Como consegue?  

Eu ri e fui na direção dela, abraçando-a com carinho: 

- Sou paciente. Talvez esta seja minha maior qualidade. Nada é capaz de tirar meu sossego ou me fazer sofrer. Já passei pela minha cota de sofrimento na vida.  

- Você é uma santa, Olívia. Aliás, existe uma santa chamada Olívia? Eu poderia acrescentá-la na lista de santos?  

Começamos a rir e ela me olhou com aqueles olhos de quem me mataria de cócegas e saí correndo para o meu quarto, em uma fuga alucinada.  

Eu estava deitada quando meu pai bateu na porta e entrou. A luz estava apagada: 

- Vim desejar boa noite ao meu Coração. – A voz dele era doce, como sempre, e cheia de amor. 

- Hum... Eu gosto disto. Sabe que não consigo dormir sem o seu beijo de boa noite. 

Papai sentou-se na cama e me deu um beijo, alisando meus cabelos: 

- Você é como ela! – A voz deixava claro a saudade e pesar. 

- Eu nunca quereria ser como ela, pai. – Deixei claro, sabendo que nos referíamos a minha mãe. 

Quem quereria ser como uma mãe prostituta? Só eu sabia tudo que havia passado na infância naquele lugar horrível. 

- Você é doce... E apesar de tudo, estes belos olhos negros nunca deixam de brilhar. 

- Não posso ser um doce, pai. Isto me faz mal pra caramba! – Ri. 

- Nunca perca sua essência. É impossível não se apaixonar por você, Olívia Abertton.  

- Sua esposa não pensa desta forma.  

- Ainda assim isto não parece abalá-la, Coração. 

- Rose é boa perto de pessoas que eu já conheci. Então... Até que sou grata por tê-la por perto. 

- Amo você, Coração. 

- Também te amo, pai.

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