Capítulo 6

Lirael

A porta na frente da cabine se abriu, e uma mulher de uniforme branco impecável entrou. Uns trinta e poucos anos, cabelo loiro puxado para trás num coque severo, expressão profissionalmente neutra — mas eu peguei o lampejo de desdém nos olhos dela quando me olhou, a leve curvatura do lábio que dizia lixo com mais clareza do que qualquer palavra.

Ah, isso vai ser divertido, pensei, com um sarcasmo sombrio.

— Senhorita — disse ela, e até aquela única palavra pingava desprezo mal disfarçado. — Sou Isabella, assistente pessoal do Sr. Blackwood. Fui instruída a cuidar das suas... necessidades.

A pausa antes de “necessidades” dizia muito. Assim como o jeito que ela olhou para o meu uniforme de prisão, para a coleira no meu pescoço, para a forma como eu estava encolhida no sofá como um cachorro chutado.

Isso mesmo, eu quis rosnar para ela. Olha bem. Grava. Porque um dia vou ser eu olhando de cima para você, e aí vamos ver quem é que vai estar usando coleira.

Mas fiquei de boca fechada e com a expressão vazia, porque era a jogada inteligente. Era sobreviver.

— O mestre solicitou que você fosse limpa e alimentada — continuou Isabella, num tom que sugeria que ela achava as duas atividades um desperdício de recursos. — Há um banheiro privativo por aquela porta. Vou providenciar roupas limpas para você. Quanto a exigências alimentares... — Ela fez uma pausa, me avaliando como se eu fosse morder. — Elfos têm alguma necessidade especial? Alergias? Preferências das quais devamos estar cientes?

Ah, por onde eu começo? pensei, numa histeria contida. Vamos ver — eu prefiro não ser eletrocutada, torturada ou tratada como um maldito experimento científico. Tenho alergia a ser chamada de “isso”, “espécime” e “mercadoria”. E minha preferência alimentar é por comida que não tenha sido batizada com sedativos ou supressores mágicos; muito obrigada por perguntar.

Eu encarei ela em silêncio, mantendo o rosto cuidadosamente neutro, e vi o maxilar dela se contrair de frustração.

— Entendo — disse, fria. — Ainda brincando de muda. Que... encantador. — Ela apontou de modo brusco para a porta do banheiro. — Vá. Se limpe. Você está deixando água por todo o convés do mestre.

O convés dele. Não “o convés”. Dele. Como tudo naquele iate, como tudo no mundo dele, pertencia a ele — e só a ele.

Como eu, pensei, e tive de engolir a vontade de gritar.

Eu me levantei com as pernas tremendo e fui até o banheiro, hiperconsciente do olhar de Isabella cravado nas minhas costas. O iate balançava de leve sob meus pés — um lembrete sutil de que estávamos em movimento, colocando distância entre mim e a ilha, entre mim e qualquer chance de fuga. No instante em que a porta se fechou atrás de mim, eu me larguei contra ela, encostando a testa na madeira fria e tentando respirar apesar do pânico arranhando minha garganta.

Você está viva, lembrei a mim mesma. Você saiu da Fundação. Você está—

Você está numa jaula diferente, completou a voz cruel na minha cabeça. Uma jaula mais bonita, talvez. Uma jaula mais cara. Mas ainda é uma jaula.

Eu me afastei da porta e olhei ao redor. O banheiro era obscenamente luxuoso — tudo mármore, metais dourados e um boxe que acomodaria cinco pessoas com folga. Havia toalhas grossas aquecendo em suportes térmicos, sabonetes caros que provavelmente custavam mais do que o salário mensal da maioria das pessoas, um espelho que ocupava metade da parede. Por uma pequena vigia, eu não via nada além de água escura e um céu ainda mais escuro.

Evitei olhar meu reflexo enquanto tirava o uniforme de prisão encharcado. Eu sabia o que veria — hematomas deixados pelos guardas da casa de leilões, o tecido cicatricial pálido de três anos de “procedimentos médicos”, os ângulos afiados demais de clavículas e costelas por causa da alimentação irregular. Eu não precisava ver para saber que eu parecia exatamente o que eu era: uma prisioneira. Uma vítima. Uma coisa que tinha sido usada e quebrada e usada de novo.

Não mais, prometi a mim mesma, entrando sob o jato escaldante do chuveiro. Nunca mais.

A água quente foi como o paraíso na minha pele, levando embora a chuva e o cheiro químico que ainda grudava da Fundação e a sensação fantasma de mãos demais agarrando, imobilizando, tomando. Eu fiquei ali até a água esfriar, esfregando a pele como se pudesse lavar os últimos três anos, a coleira, a trava genética, a lembrança dos dedos de Sebastian no meu rosto.

Quando finalmente saí, enrolada numa toalha mais macia do que qualquer coisa que eu tivesse tocado em anos, havia roupas separadas sobre a bancada. Não o meu uniforme da prisão — ele tinha sido tirado enquanto eu tomava banho, provavelmente jogado fora ou queimado. Em vez disso, havia um vestido preto simples, roupa íntima ainda na embalagem, sapatilhas de couro macio que pareciam que de fato iam servir.

O vestido era discreto o bastante — mangas compridas, a barra caindo até o meio da panturrilha, gola alta que quase cobria a coleira. Quase. O metal dourado ainda brilhava contra a minha garganta, visível e condenatório.

Propriedade de Sebastian Blackwood, poderia muito bem estar escrito. Devolver ao dono se for encontrado.

Eu me vesti de modo mecânico, a mente já três passos à frente, catalogando informações, procurando fraquezas, planejando meu próximo movimento. O banheiro tinha uma pequena escotilha — pequena demais para fugir por ela, e provavelmente trancada de qualquer jeito. A porta tinha uma maçaneta simples, sem trava por dentro. A grade de ventilação ficava alta demais para alcançar sem uma cadeira, e mesmo que eu conseguisse chegar até ela, para onde eu iria? Estávamos num iate no meio do oceano, a milhas da costa.

Paciência, aconselhei a mim mesma. Espere. Observe. Aprenda. Ele vai cometer um erro, mais cedo ou mais tarde. Eles sempre cometem.

Abri a porta e encontrei Isabella esperando, com a expressão ainda mais azeda do que antes. Ela me examinou de cima a baixo, e eu vi o lampejo de algo feio nos olhos dela — ciúme, cru e perverso, misturado a um ressentimento que fez o ar entre nós estalar de hostilidade.

— Melhor — ela disse, seca. — Venha. O mestre mandou prepararem comida para você no salão principal.

Ela me conduziu pelo iate, e eu fiz anotações mentais de cada detalhe. Saídas de emergência. Câmeras de segurança. A localização da ponte de comando. O número de tripulantes que eu conseguia ver. O balanço suave do convés sob os meus pés, o som abafado dos motores, o ar salgado que se infiltrava pela ventilação. Tudo guardado para usar mais tarde.

O salão principal era ainda mais luxuoso do que o banheiro — couro por toda parte, madeira escura e aquele tipo de elegância discreta que gritava dinheiro antigo. Havia uma mesa de jantar posta com porcelana de verdade e talheres de prata, um sofá que provavelmente custava mais do que a maioria dos carros, janelas do chão ao teto que não mostravam nada além da escuridão e do brilho ocasional do luar na água.

E lá, na extremidade oposta do salão, havia outra porta. Fechada. Provavelmente levava aos aposentos particulares de Sebastian.

A toca do mestre, pensei, com humor sombrio. Onde a besta dorme.

Isabella indicou a mesa com um gesto.

— Sente. Coma. E tente não fazer bagunça.

A comida estava disposta — simples, mas de alta qualidade. Frango assado, legumes no vapor, pão fresco ainda morno. Meu estômago roncou ao ver aquilo, um lembrete humilhante de que a última coisa que eu tinha comido fora uma barra de proteína na minha cela naquela manhã.

Hoje de manhã, percebi, sobressaltada. Só se passaram doze horas desde que eu acordei na minha cela. Doze horas desde que eu achei que hoje seria como qualquer outro dia. Doze horas desde que a minha vida inteira virou do avesso.

Sentei e peguei um garfo, hiperconsciente dos olhos de Isabella sobre mim, julgando cada movimento. O iate balançava de leve, e eu ouvi, ao longe, o som das ondas batendo no casco. A comida estava deliciosa — claro que estava, porque aparentemente Sebastian Blackwood não fazia nada pela metade —, mas tinha gosto de cinzas na minha boca.

Comendo da mesa do mestre, pensei, amargurada. Como um bichinho sendo recompensado por bom comportamento.

Eu estava na metade da refeição quando Isabella falou de novo, a voz pingando doçura falsa.

— Sabe, o mestre nunca trouxe ninguém para o iate particular dele antes. Não assim. — Ela se apoiou na parede, braços cruzados, me estudando com maldade escancarada. — Ele teve... companhias, claro. Mulheres bonitas. Mulheres sofisticadas. Mulheres humanas que sabem se comportar na boa sociedade.

Ah, lá vem, pensei, cansada. O teatrinho da empregada ciumenta.

— Mas você? — o lábio de Isabella se curvou. — Você é só uma novidade. Um bichinho exótico que ele pegou por capricho. Ele vai se entediar de você em uma semana — provavelmente menos. E aí você vai ser só mais um animal numa jaula, e eu ainda vou estar aqui, como sempre estive.

Continua repetindo isso pra você mesma, querida, pensei, dando outra mordida no frango. O que quer que te ajude a dormir à noite.

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