Capítulo Um

POV da Alessia

Meu nome é Alessia Vitale, e eu sou a gêmea não amada.

Desde o momento em que nasci, eu fui a “maldição”, enquanto minha irmã Chiara era o “tesouro”. O amor dos meus pais, o orgulho da família — tudo era dela. Até dois anos atrás, quando Rocco Benedetti, o homem mais poderoso de Valentia, me escolheu. Aquilo foi a única luz da minha vida.

Aí minha irmã voltou da Europa.

Ela disse que eu tinha contratado capangas para estuprá-la, destruindo o sonho dela de ser mãe. Rocco me obrigou a testar drogas letais no lugar dela. Eu fui jogada no porão de um chefão, apanhando por ela, sofrendo queimaduras por ela, costelas quebradas por ela. Minha família me despachou para uma clínica sem identificação e depois foi curtir férias na praia.

Ninguém sabia que eu tinha sido envenenada — que eu só tinha um mês de vida.

E ninguém sabia que, quando descobrissem a verdade...

Já seria tarde demais.


— Você destruiu a chance da Chiara de ser mãe, então vai pagar com o seu próprio corpo!

Um tapa estalado acertou o meu rosto. Eu segurei a bochecha ardendo, encarando, sem acreditar, o homem à minha frente — meu marido, Rocco Benedetti.

— Alessia Vitale! Você teve coragem de contratar capangas para estuprar a própria irmã! — a voz dele tremia de ódio. — A Chiara lutou desesperadamente pra se proteger e sofreu um trauma abdominal grave... O médico disse que ela nunca mais vai conseguir engravidar!

Minha mente apagou.

— O quê? Eu não—

Antes que eu conseguisse terminar, a porta se escancarou.

Meu pai, Giovanni, entrou amparando a Chiara, com minha mãe, Carmela, logo atrás. Minha irmã gêmea parecia pálida como um cadáver, o corpo fraco enquanto se apoiava no nosso pai, os olhos inchados de tanto chorar. Mas eu reparei nos dedos dela agarrados ao braço dele — unhas bem cortadas, sem um único sinal de luta. E os passos dela, apesar de parecerem fracos, eram firmes quando tocavam o chão, nada parecidos com os de alguém que tivesse sofrido um trauma abdominal grave.

— Alessia... — as lágrimas da Chiara começaram a cair na mesma hora quando ela me viu. — Por quê... nós somos irmãs...

Ela levou a mão ao baixo-ventre, encolhendo-se de dor.

— Eu sei que você sempre teve ciúmes de mim... mas eu nunca imaginei que você seria capaz de...

— Isso não é verdade! Chiara, eu não fiz isso! — eu tentei explicar, desesperada.

— Papai, não culpa ela... — Chiara disse, fraca. — Talvez eu tenha atrapalhado a vida dela voltando... Eu não devia ter voltado pra Valentia... aí a Alessia não me odiaria tanto...

De repente, minha mãe avançou e me empurrou com força. Eu tropecei para trás, quase caí.

— Sua monstruosa! — a voz da minha mãe saiu estridente, cortante. — Vinte e cinco anos atrás, eu quase morri pra dar à luz você! Eu devia ter sabido que você não prestava!

— Mãe... — minha voz falhou. — Eu realmente não fiz isso! Eu juro!

Meu pai nem olhou para mim; só apertou a Chiara contra o peito e falou num tom frio, distante, que eu nunca tinha ouvido antes:

— Alessia, você me decepcionou profundamente. Eu queria nunca ter te salvado quando você nasceu.

Aquelas palavras enfiaram no meu coração como uma faca.

De repente, Rocco agarrou o meu pulso, com tanta força que doeu.

— Por que você fez isso? Eu não te tratei bem o suficiente? Por que você não consegue aceitar a Chiara?

Nos olhos dele havia raiva, decepção e um nojo que eu nunca tinha visto antes.

— Quer saber? Eu achava que você era uma boa pessoa, que seus pais te julgavam errado. Agora eu vejo que eles estavam certos desde o começo.

Meu coração pareceu ser rasgado por mãos nuas.

—Tem um médico que desenvolveu um remédio novo que consegue reparar o útero e devolver a fertilidade. —Rocco soltou meu pulso, falando com frieza. —Mas esse remédio ainda é experimental, com efeitos colaterais desconhecidos... alguém precisa testar primeiro. A Chiara já sofreu demais, o corpo dela não aguenta mais.

Ele me encarou, articulando cada palavra:

—Então você vai testar o remédio por ela. Duas semanas. Essa é a sua expiação.

—Se você não aceitar, a gente se divorcia.

Eu olhei para ele — para esse homem que um dia prometeu me proteger para sempre e agora era tão implacável.

—Rocco, não força a Alessia... —Chiara disse, fraca. —Talvez ela realmente não tenha feito por mal... talvez... talvez eu tenha feito alguma coisa errada que fez ela me odiar tanto...

Meu pai a puxou para um abraço apertado.

—Minha filha preciosa, a culpa é do papai por não ter te protegido.

Minha mãe acariciou o cabelo da Chiara.

—Não tenha medo, a mamãe tá aqui... essa desgraçada vai pagar o preço.

Eu fiquei ali, com o coração morto, virado em cinzas.

O que eles não sabiam era que — três dias atrás — o médico me disse que eu tinha sido envenenada e que eu só tinha mais um mês de vida. Naquela hora, o meu mundo desabou. Eu tinha planejado passar meus últimos dias me despedindo direito do Rocco, fazendo as pazes com a minha família. Eu imaginei que, no fim, talvez eu recebesse um abraço da minha mãe, talvez meu pai dissesse “eu te amo”, e o Rocco me apertasse contra ele, dizendo que não aguentava me deixar ir.

Mas agora, nada disso era possível.

Eu encarei o rosto do Rocco — o rosto que antes fazia meu coração disparar. Agora era só frio e estranho. Eu já tinha só um mês mesmo... o que eram mais duas semanas de sofrimento?

—Tá bom —eu disse devagar, com uma calma assustadora. —Eu aceito.

No instante em que terminei, eu reparei que os lábios da Chiara se curvaram de leve. O sorriso durou só um segundo, mas eu vi nitidamente. Um brilho de triunfo atravessou os olhos dela antes de ser encoberto pelas lágrimas.

—Graças a Deus, essa desgraçada finalmente fez uma coisa certa —minha mãe disse, aliviada.

Meu pai pegou o celular na mesma hora, discando enquanto resmungava:

—O casamento da Chiara com a família Brennan tá chegando rápido. A gente tem que tratar ela logo, não dá pra atrasar mais... minha filha não pode esperar.

Rocco me olhou, com uma expressão difícil de decifrar. Por um momento, pareceu haver hesitação e até certa ternura, mas isso sumiu depressa. Ele se virou para a Chiara e a ajudou a se sentar com cuidado.

—Chiara, não tenha medo. Logo você vai se recuperar. Eu prometo.

Aquele tom gentil antes era só meu.

A Chiara sempre teve os vestidos mais bonitos, os melhores professores, o carinho de todo mundo. E eu só ficava com as sobras, as roupas usadas, o que ninguém queria. Em toda reunião de família, a Chiara era cercada e adorada, enquanto eu só conseguia ficar nas sombras.

Dois anos atrás, Rocco me escolheu em vez da Chiara. Foi o momento mais feliz da minha vida — finalmente alguém via quem eu era de verdade.

Mas a Chiara foi embora, de coração partido, para a Europa. Três meses atrás, ela voltou, e tudo mudou.

Rocco começou a duvidar de mim, a se afastar. A fenda entre nós foi ficando cada vez mais profunda, e eu não tinha como impedir.

Agora, eu via essa família reunida em torno da Chiara — meu pai, minha mãe, Rocco — e ninguém sequer me olhava. Como se eu nunca tivesse existido.

Minha casa, meu marido, tudo o que eu achei que tinha...

Agora não sobrava nada.

Eu me virei para ir embora. Aquele quarto estava me sufocando.

Assim que eu cheguei à porta, alguém segurou meu pulso.

Era o Rocco.

—Espera. —A voz dele veio atrás de mim.

Meu coração disparou. Eu me virei e encarei os olhos dele, uma esperança fraca nascendo dentro de mim. Talvez... talvez agora ele acreditasse em mim? Talvez ele quisesse dizer “desculpa, eu estava errado sobre você”?

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