Capítulo dois
POV da Alessia
— Assina.
Ele pegou um documento em cima da mesa e me entregou.
Eu olhei para baixo — era um termo de consentimento do teste do remédio, cheio de texto miúdo. Listava vários possíveis efeitos colaterais: dor abdominal severa, sangramento contínuo, alteração hormonal, queda de cabelo...
Eu esbocei um sorriso amargo, com os dedos tremendo de leve enquanto assinava meu nome no papel.
Rocco pegou o documento de volta e anunciou, com frieza, que ia dar uma festa de boas-vindas grandiosa para Chiara. Disse que era para “compensar” a ausência de dois anos dela.
Eu fiquei ali, ouvindo ele organizar tudo naquela voz sem emoção, sentindo um vazio por dentro.
Nos dias seguintes, toda a propriedade virou uma correria de preparativos — meu pai convidou os chefes de todas as famílias importantes, minha mãe supervisionou pessoalmente cada detalhe. Todo mundo estava comemorando a volta dela.
No dia da festa, eu fiquei sozinha num canto do salão, observando as grandes famílias chegarem e encherem o lugar com aquela multidão ostentosa.
A família Ferraro, de Carmine City, chegou primeiro. Lorenzo Ferraro controlava as maiores linhas de transporte marítimo do porto de Carmine City. Passados os sessenta, o olhar dele continuava afiado como o de uma águia. Ao lado dele estava o neto, Patrick, jovem e bonito, com modos refinados — tinha acabado de voltar da London Business School, considerado o mais promissor da nova geração dos Ferraro.
A família Connor, de Santoro City, era mais espalhafatosa. O patriarca atual, Dante Connor, vestia um terno de veludo roxo-escuro e ria alto enquanto brindava, taça contra taça. Os cassinos e boates do submundo de Santoro City estavam todos sob o controle dele — dizia-se que até o chefe de polícia tinha que engolir seco e tratar o homem com respeito.
E tinha o representante russo, vindo de longe — Viktor Kozlov. Meu pai tinha convidado especificamente essa figura poderosa de Moscou para expandir os negócios para o Leste Europeu. Ele usava um terno preto impecável, alto e imponente, com o cabelo loiro bem alinhado para trás e olhos azul-gelo frios e perigosos. Os homens dele o seguiam como cães silenciosos, sem desgrudar um passo.
Ninguém veio me cumprimentar. Todo mundo cercava Chiara.
Chiara estava radiante no centro da multidão, com o braço entrelaçado ao de Rocco. Ela usava um vestido marfim, e um colar de diamantes que refletia uma luz ofuscante. Os dois pareciam combinar perfeitamente, como se tivessem saído de uma capa de revista.
Eu não aguentei mais olhar. No momento em que eu ia escapar para algum canto onde ninguém notasse, percebi, de repente, que tinha algo errado.
Viktor tinha surgido diante de Chiara, e a expressão dele endureceu na hora, como se a temperatura tivesse caído. Aqueles olhos azul-gelo se fixaram nela, e os convidados mais próximos começaram a recuar, inquietos.
— Chiara... — a voz de Viktor saiu assustadoramente baixa, arrastada do fundo do peito. — Dois anos. Eu fiquei te procurando por dois anos, porra!
O rosto de Chiara ficou lívido. Ela deu um passo para trás por instinto, pisou na barra do próprio vestido e quase caiu.
— Você... você está enganado... — a voz dela tremeu.
Viktor tirou uma fotografia do bolso interno do paletó e a atirou no chão.
— Isso é você nas imagens de segurança do cassino de Mônaco. Ainda vai negar?
A foto deslizou até os pés de Chiara. Nela, Chiara usava um vestido vermelho, sentada bem perto de Viktor numa mesa de jogo, sorrindo, radiante.
Os convidados ofegaram.
Viktor se virou para o meu pai, com a voz gelada: “Sr. Vitale, a sua filha me ofendeu. Eu preciso levá-la de volta para receber a devida... disciplina.”
O rosto do meu pai ficou de um cinza de ferro, as veias saltando nas têmporas, mas ele ainda se esforçou para manter a compostura, dando um passo à frente: “Sr. Viktor, deve haver algum mal-entendido — podemos nos sentar e conversar sobre isso direito.”
Viktor ergueu a mão num gesto. Dois seguranças de terno preto avançaram, segurando Chiara pelos braços, um de cada lado.
“Me solta! Solta! Papai—!” Chiara se debateu desesperadamente, a maquiagem completamente borrada.
Nesse momento, uma voz firme soou do meio da multidão.
“Espere, sr. Kozlov.”
Rocco deu um passo à frente. Ele se aproximou de Viktor, encarando diretamente aqueles olhos azul-gelo, injetados de sangue, sem arrogância nem servilismo.
“Me dê quinze minutos.” A voz de Rocco não era alta, mas carregava um peso inegável. “Eu vou lhe dar uma explicação satisfatória.”
Viktor encarou Rocco por alguns segundos. Afinal, por trás de Rocco Benedetti estava o verdadeiro topo do poder em Valentia — a família Benedetti. Até a família Ferraro, que controlava a artéria do porto de Carmine City, ou a família Connor, que monopolizava as indústrias clandestinas de Santoro City, tinham de demonstrar respeito a Rocco.
Viktor não era idiota. Ele sabia o que significava ofender Rocco em Valentia. Depois de um momento de silêncio, ele finalmente assentiu de leve.
Ele fez sinal para os homens soltarem Chiara e posicionou a equipe dele no salão de baile.
Rocco, meu pai e minha mãe conduziram Chiara até o escritório.
Eu soltei um suspiro de alívio, me virando para sair—
“Senhorita Alessia.”
Uma criada veio depressa, parecendo nervosa. “O sr. Benedetti quer que a senhorita vá também.”
Quando cheguei ao escritório, vi Chiara largada no sofá, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
“Papai, me salva... o Viktor vai me matar...”
Meu pai andava de um lado para o outro, com o rosto fechado. “Não podemos entregar a Chiara, mas também não podemos comprar briga com o Viktor.”
Minha mãe abraçou Chiara com força. “Ninguém vai encostar na minha filha!”
Eu fiquei parada na porta do escritório, ainda sem entender o que estava acontecendo. Então o olhar de Rocco encontrou o meu de repente.
“Deixe a Alessia ir no lugar da Chiara.” Rocco falou devagar. “Vocês são gêmeas, são quase idênticas. Além disso, os ferimentos da Chiara ainda não sararam — ela não aguenta isso.”
“Perfeito!” Minha mãe concordou na hora. “Se a Alessia não tivesse roubado o Rocco da Chiara, como a Chiara teria ficado com o coração partido a ponto de fugir pra Europa? Se ela não tivesse ido pra Europa, como teria conhecido aquele demônio do Viktor? A situação da Chiara agora é toda culpa dela!”
Meu pai também assentiu. “Vamos fazer isso. Alessia, você tem que se cuidar. Afinal, você ainda precisa testar os remédios pra Chiara.”
Eu fiquei ali, olhando para aquela família. Eles discutiam a minha vida e a minha morte com a mesma naturalidade com que se discute o que vai ter no jantar.
Chiara se encolheu nos braços da minha mãe, com alívio no olhar. Rocco me encarou sem um pingo de culpa.
“Tudo bem.” Eu ouvi a minha própria voz, assustadoramente calma. “Eu vou.”
De qualquer forma, eu só tinha menos de um mês de vida.
Mal as palavras saíram da minha boca, um segurança entrou correndo, com a voz tensa: “Sr. Benedetti, o sr. Kozlov disse que o tempo acabou. Ele quer levar a srta. Vitale agora!”
