Capítulo Três
POV da Alessia
Rocco me entregou pessoalmente ao Viktor.
Os homens do Viktor agarraram meus braços e me empurraram para dentro de uma SUV preta. Quarenta minutos de estrada, sem uma única palavra.
O comboio parou diante de um prédio cinzento. Quando me arrastaram para fora, percebi que Rocco tinha vindo junto. Ele e Viktor estavam ao lado do Maybach. Viktor ofereceu um charuto. Rocco aceitou. Eles fumaram com calma, trocando algumas palavras em voz baixa. Rocco até sorriu — de leve, rápido, mas eu vi com toda a clareza.
Os charutos terminaram. Rocco sacudiu a cinza do punho da camisa, deu um tapinha no ombro do Viktor, entrou no carro e foi embora. Não me olhou nem uma vez.
A porta de ferro se fechou atrás de mim.
Viktor parou na minha frente, me encarando de cima com frieza. Ele não sabia que eu era Alessia. Achava que eu era Chiara — a mulher que tinha roubado dele e desaparecido por dois anos.
— Onde estão? — A voz dele congelou o porão. — Os diamantes de sangue, o livro de códigos, o anel da minha falecida esposa… onde você escondeu?
Eu não fazia ideia do que ele estava falando. Ninguém tinha me dito o que Chiara levou. Rocco não disse. Meu pai não disse. Chiara nunca diria. Eu tinha sido jogada num julgamento do qual eu não sabia nada.
— Eu não sei.
A expressão do Viktor não mudou, mas o gelo nos olhos dele trincou. Ele se inclinou para perto. Eu senti o cheiro do perfume frio dele.
— Mais uma chance — ele disse. — Me entrega tudo e eu poupo sua vida por consideração ao Rocco. — Ele fez uma pausa, os lábios se curvando num deboche. — Você tem coragem… dormindo com o próprio cunhado. Você transformou a família Vitale em motivo de piada.
Eu podia dizer que não era a Chiara. Mas Rocco tinha me trazido até aqui, meus pais queriam que eu sumisse, e ninguém se importava se eu ia sobreviver. Do que adiantaria explicar?
— Eu realmente não sei.
Viktor se endireitou e fez um gesto para os homens.
— Ela não quer falar. Ajudem ela a lembrar.
Os primeiros três dias: tortura psicológica.
O porão não tinha janelas. Eu media o tempo pelos intervalos dos interrogatórios. Eles vinham em turnos, fazendo a mesma pergunta. Eu dava a mesma resposta. Cada resposta rendia um tapa ou um puxão no meu cabelo, forçando minha cabeça para trás, me obrigando a encarar aquela lâmpada ofuscante. Sem comida; só água, o suficiente para eu não apagar. Eles não deixavam eu desmaiar. Inconsciente significava sem dor.
Viktor aparecia de vez em quando. Ele nunca encostava em mim; só ficava sentado, fumando, observando com olhos gelados, esperando como quem espera um animal encurralado roer a própria perna para fugir.
No quarto dia: eles pegaram pesado.
O chicote estalou nas minhas costas. A dor explodiu — não como uma linha, mas como uma placa inteira de fogo. A pele abriu, o sangue atravessou minha camisa e grudou nas feridas. Quando o ar tocava, vinha uma nova onda de agonia. Eu mordi o próprio lábio até rasgar, mas quando o cigarro foi pressionado no meu braço, eu gritei. O cheiro de carne queimada tomou o porão fechado.
Viktor estava num canto, as mãos nos bolsos, sem expressão. Quando os homens dele fizeram uma pausa, ele disse:
— Continuem. Não deixem ela morrer rápido demais.
No sexto dia: ele mudou de tática.
Eu estava amarrada a uma cadeira, as pálpebras presas abertas com fita, de frente para uma tela — imagens de Chiara e Viktor transando. A mulher tinha exatamente o meu rosto, sorrindo, sedutora, enroscada nele.
— Olha bem — ele disse, a voz carregada de veneno. — É assim que você fica sendo uma puta. Não lembra? Então eu te ajudo a lembrar.
"Eu não—" A dor explodiu nas minhas costelas. O osso estalou como graveto, depois outro, mais outro. As lágrimas escorreram dos meus olhos forçados a se abrir — não de dor, mas de absurdo. Eu estava pagando pelos pecados de outra mulher enquanto ela ficava deitada na cama macia dela, tratada como um tesouro por todo mundo.
No sétimo dia, Rocco me comprou de volta com três cassinos clandestinos.
Quando me arrastaram para casa, minhas costas estavam em carne viva de tanto chicote, os braços cobertos de queimaduras, três costelas quebradas, e cada respiração era como engolir vidro.
O rosto de Rocco escureceu — não de preocupação, mas de raiva. "O que foi que você disse pro Viktor? Ele contou pra família Brennan sobre a Chiara. Eles vão cancelar o noivado. Você tem noção do estrago que você causou?"
Eu não tinha força pra responder.
Meus pais vieram correndo. O olhar da minha mãe passou por mim uma única vez.
"E se o Viktor tivesse te matado?" ela gritou. "Quem ia fazer os testes com os remédios pra Chiara? Você ia estar morta — e a Chiara, como é que fica?"
"Se não fosse pela Chiara, por que o Rocco trocaria três cassinos por você? Três cassinos! A sua vida vale três cassinos?"
Eu me apoiei no batente da porta, as costelas quebradas como lâminas dentro dos meus pulmões. Ninguém me ajudou.
Meu pai atendeu uma ligação. Quando desligou, abriu um sorriso. "Boa notícia — o laboratório confirmou. A gente pode seguir em frente em uma semana!"
Minha mãe apertou a mão da Chiara. "Que maravilha, minha linda! Você vai ficar bem logo."
Daqui a uma semana, iam injetar em mim um medicamento experimental pra testar o caminho de recuperação da Chiara. Eu tinha menos de um mês de vida.
Eu me lembrei do nosso nascimento. Chiara nasceu primeiro, chorando alto e forte. Naquele instante, a família recebeu a notícia de um grande negócio. Todo mundo disse que ela tinha trazido sorte.
Quinze minutos depois foi a minha vez — faltou luz na sala de parto. Minha mãe teve uma hemorragia, o coração dela parou, e eu fiquei presa no canal de parto. Quando o médico me puxou, eu estava roxa, sem respirar, como carne morta. Eles pressionaram meu peito uma vez, duas, três, até eu soltar um choro fraco. Minha mãe ficou morta por três minutos antes de conseguirem trazê-la de volta.
Daquele dia em diante, Chiara era um tesouro. Eu era uma maldição.
Por vinte e cinco anos, eu tentei provar que também merecia amor. Agora eu finalmente estava cansada.
Tá bom. Eu podia, enfim, dar a eles o que eles queriam.
Mesmo assim, eu não conseguia evitar a pergunta — quando eu morresse, eles iam ficar tristes? Nem que fosse por um segundo?
Deixa pra lá. Se eles me amavam ou não, já não importava.
O dia do teste chegou rápido.
Naquela manhã, minha mãe segurava a mão da Chiara, planejando o futuro delas. "Assim que você melhorar, a mamãe vai encontrar pra você uma família ainda melhor do que os Brennans."
Chiara olhou para Rocco — um olhar rápido e ganancioso, confirmando alguma promessa não dita. Rocco não disse nada, só baixou os olhos.
Meu pai anunciou, animado: "Assim que a gente mandar a Alessia entrar, vamos passar férias na Baía Rossi e esperar por boas notícias."
Eu fiquei num canto, com o curativo manchando de vermelho-escuro. Ninguém olhou pra mim. Ninguém perguntou se eu estava com dor. Eles estavam discutindo qual hotel reservar.
"Se eu morrer..." Minha voz soou estranha. Tão baixa, tão sem vida, como uma folha caindo em cima de uma mesa barulhenta. "Vocês iam ficar tristes?"
